Artigos sobre a música e os músicos de Cabo Verde nos jornais A Semana, Expresso das Ilhas e outros

Content

Adriano Santos «Luís Morais foi um segundo pai para nós» 3

Augusto Veiga: “Ser produtor musical é mais um risco do que um investimento”. 5

Ano Nobo um músico epico. 7

Antão Martins, um ancião tocador de gaita. 9

Armando Zeferino Soares: MORREU AUTOR DE “SODADE”. 10

Armando Zeferino Soares 10

Nha Balila: Mulher de cultura apela à tolerância dos políticos 11

Bana: O “Gigante” da Morna regressa aos palcos 13

BLACK SIDE ESTÁ DE VOLTA E ANUNCIA NOVO CD... 16

Bau Música sem fronteiras 16

Beto Dias  «Um dia regressarei para Cabo Verde, porque é aqui que eu quero morrer» 18

BOY GE MENDES DE VOLTA À TERRA: “SE ME CONSIDERAM UM HOMEM CHARMOSO SÓ ME RESTA AGRADECER E PRESERVAR ESTE CHARME”. 20

Boy Gé “É aqui (Cabo Verde) que me sinto completo”. 23

Carlos Matos: entrevista com Liberal online. 26

Cármen Sousa: “Cabo Verde faz parte de mim, da minha música”. 28

Celina Pereira: 20 anos a registar a memória colectiva cabo-verdiana. 31

Celina Pereira «Não haverá nunca um produtor que me imponha um repertório» 34

Cesar Paes: “O audiovisual é a forma de cada país se ver a si próprio". 38

Cesária Évora viaja aos anos 60 em “Rádio Mindelo”. 39

Chando Graciosa : Coração de funaná. 40

Chando Graciosa  Um grande tesouro*. 42

Constantino Cardoso: A voz do futuro. 43

D. Lopes 45

Dany Mariano: “Os melhores músicos de Cabo Verde vivem em S. Vicente. 46

Dany Silva, um cantor do mundo. 49

Di di Paula: Adérito Pereira  TALENTO OCULTO: “O MEU MAIOR SONHO É SEGUIR CARREIRA MUSICAL”  52

Djodje: “Sempre TC é o meu contributo à música cabo-verdiana”. 54

Dudu Araújo: Novo disco rende homenagem a Ildo Lobo. 56

Dudu Araújo  « Nôs Cantador » 57

Dudu Araújo prepares to release new CD in homage of Ildo Lobo. 59

Eddu: “prendem na bó” já é disco de ouro. 60

Eder lança primeiro CD... 61

Egidio - Interview with. 63

Eleutério Sanches 68

Félix Lopes “Bandera, rei di talaia” em gestação. 71

Fernando (Quejas), o Pioneiro. 73

Ferro Gaita Santiago na boca de Cabo Verde. 75

Gardenia A Voz da Alma Cabo-verdeana. 79

Gil Moreira - Konbersu sabi 81

Gil Semedo: “Trabalhar com Manú Lima foi a realização de um sonho”. 84

Gil Semedo: “Foi duro ter de reaprender a andar”. 85

Gracelino: Um artesão com sensibilidade de uma criança. 87

Hernâni Almeida: “Não me sinto um músico com letras grandes”. 90

Hernâni Almeida: “Afro na Mi é a africanidade que está dentro de mim”. 92

Homero Fonseca prepara novo CD... 94

Iduino: EDUÍNO: SEMPRE ACREDITEI NO SUCESSO DE FERRO GAITA.. 95

ISA PEREIRA: inteligente e enérgica no Festijazz. 97

Jaime do Rosário , antigo elemento de “Os Tubarões”, Jaime do Rosário, morre vítima de doença prolongada  99

Jorge Humberto: Regresso aos discos 100

Jorge Lizardo: “Rastafari, mas baseado na cabo-verdianidade!”. 102

Jorge Neto: Novo álbum gravado inteiramente ao vivo. 103

Jovino Santos anuncia novos projectos musicais em carteira e perspectiva. 105

Ilo Ferreira A sorte de ser talentoso. 107

Jay: O rapper cool 109

Jorge Humberto. 112

Jaime do Rosário, of Os Tubarões, dead at 65. 113

Katchás (Carlos Alberto Martins) 114

Kino Cabral: “Há quem ache que a minha música não é de Cabo Verde”. 116

Kodé di Dona - “Senhor da gaita” deseja voltar aos palcos e estúdios 118

Kodé di Dona: Kodé, o patriarca. 120

Kuate Kumpad em concerto no CCF da Praia. 122

FALANDO SOBRE O SEU PRIMEIRO CD LEIDA DIZ QUE “É PRECISO DAR LUZ VERDE AO AMOR”  123

Lela Violão: Sem um dedo, mas com todos os acordes 125

Leo troca rap por músicas tradicionais 127

Luís Morais: Morreu um dos génios da música cabo-verdiana. 128

Lura Tudo mudou depois que conheci Cabo Verde”. 129

Madala primeiro baixista do conjunto Bulimundo. 132

Magui Spencer: “It’s very hard being a female artist in Cape Verde”. 133

Magui Spencer: “É muito difícil ser artista mulher em Cabo Verde”. 134

Manel d'Novas fala de novas tendências musicais 136

Maria de Barros: “A cabo-verdianidade é a minha casa”. 137

Manu Mendi “Toca a cimboa, repica o tambor”. 140

Maria de Barros: “A cabo-verdianidade é a minha casa”. 142

Mariana Ramos: “Gravar com o meu pai foi uma experiência inesquecível”. 144

Mariana Ramos 146

MARIO POP MARCA A SUA VOLTA HOJE EM SÃO VICENTE.. 146

Mayra Andrade. 147

Morgadinho. 149

Mário Lúcio Sousa. 153

MÁRIO LÚCIO SOUSA - “SÓ O TALENTO É CAPAZ DE ADMIRAR O TALENTO”. 158

Comentários 162

Nácia Gomi  RAINHA DO BATUCO COM SAÚDE DEBILITADA.. 163

Nando da Cruz: “Queremos verdadeiras políticas culturais”. 164

NHELAS SPENCER: NÃO ESTOU PREOCUPADO COM HOMENAGENS. 165

Norberto Tavares homenageado nos EUA.. 168

Ntoni Denti d’Oro - “TROCAVA TODOS OS MEUS DENTES POR DENTES D’OURO”. 168

Obá : RAZISTÊNCIA DE OBÁ JÁ ESTÁ NO MERCADO... 169

Patalino é a voz da música cabo-verdiana na Finlândia. 169

Paulo Alfama: “O nosso espírito de luta e sacrifício está adormecido”. 171

Philippe Monteiro “Tenho a música de Cabo Verde no sangue”. 173

Princezito  O cantautor crioulo. 175

Princezito : “Spiga” cresce na Europa. 179

René Cabral: “Apesar de ter viajado o mundo, Cabo Verde é sempre a minha inspiração”. 184

Ricardo de Deus:  “A cor desse mar que me inspira”. 186

Samira: A (re)descoberta de Samira. 188

SANTOS NHU PRETO ENCARA A MÚSICA COM MUITA SERIEDADE.. 190

Sara Tavares 191

Sofia Barbosa «A minha carreira musical começa com Cabo Verde» 195

Solange Cesarovna faz apresentação pública do 1.º CD... 197

Tcheka: Há quem não compreenda a minha música”. 197

Tcheka - Entrevista na Paralelo14. 199

Terezinha Araújo A voz de anjo. 201

Tey Santos 204

Tibau: «O choro maiense está dentro de mim» 208

TIO DIZ QUE NASCEU PARA CANTAR.. 210

Tito Paris: "Dou um beijinho a todos os cabo-verdianos". 211

Tito Paris «Sonho com um disco de morna sinfónica» 215

Titina Rodrigues: “I’m happy”. 218

Tó Cruz «Quero fazer apenas a música que gosto» 219

Tó Tavares “Quando tudo faltava, tinha a música”. 223

Toi “Cabecinha” Pinto to record first CD... 226

Tututa Évora  São Vicente to pay homage to Tututa Évora. 227

Tututa Évora  São Vicente wishes Tututa Évora a happy birthday. 227

Tututa Évora  Emoção nos 90 anos de Tututa Évora. 227

Vadú lança "Dixi Rubera" hoje no Tabanka Mar   20-12-07. 228

Vamar Martins: Peixe que aprendeu a nadar sozinho. 229

Vasco Martins Música à flor da pele. 230

Vlú, o músico das fusões exóticas 234

Voginha: “O importante é o que cada músico faz, o resto é retórica”. 238

Xiomara Barbosa: “a música faz parte de mim”. 241

Comentários 242

Zé Delgado. 242

Zé Delgado: “Tenho a felicidade de viver de uma coisa que é a minha paixão”. 246

Zeca di Nha Reinalda. 249

Zézé di Nha Reinalda: "I distrust unanimity". 253

 

 

Adriano Santos «Luís Morais foi um segundo pai para nós»

A Semana on-line 27/11/2004

Juntos constituem uma das raras duplas de sopro cabo-verdianos que encontrou um lugar ao sol no difícil mundo da música. São os irmãos Nhela e Adriano Santos, saxofonista e trompetista, respectivamente, já com três discos no mercado – Reencontro I e II e «Reencontro III – Formidável». Este último álbum, um tributo àquele que foi professor e amigo, o mestre Luís Morais. Nesta entrevista que concedeu ao AsemanaOnline durante os dias que esteve em Cabo Verde para distribuir esse disco, Adriano Santos, o irmão mais velho, conta como nasceu a ideia de fazer essa homenagem, fala do privilégio que foi desde a infância conviver com Luís Morais e relata como tem sido a carreira como instrumentista e os projectos futuros.

Entrevista por: Teresa Sofia Fortes

- Como brotou esta ideia de gravar um disco em homenagem a Luís Morais?

- A ideia foi da produtora Tony Neves. Já tínhamos decidido pela gravação do disco «Reencontro III», mas porque veio acontecer a morte do mestre Luís Morais, resolvemos então fazer um disco de tributo a ele, pois era uma pessoa que amávamos e respeitávamos muito. Eu e o meu irmão Nhela fomos seus alunos, tocámos várias vezes com ele e ensinou-nos muita coisa, por isso acreditamos que um disco era a melhor homenagem que poderíamos fazer a alguém que foi como um segundo pai para nós.

- O disco foi intitulado «Formidável», numa clara menção ao Luís Morais que usava essa expressão nas mais diversas ocasiões para demonstrar a sua satisfação em relação a alguma coisa. A partir de quando e como vai ser a promoção do CD?

- Ainda não agendamos os concertos de promoção porque estamos ainda na fase de distribuição – por isso vim a Cabo Verde -, mas prevemos que nas primeiras semanas de Dezembro, nos Estados Unidos, faremos seis ou sete espectáculos em três diferentes estados. Depois vamos à Holanda, que é onde reside o meu irmão Nhela. Quanto a Cabo Verde, provavelmente, faremos concertos de promoção em finais de Janeiro de 2005.

- Em quais estados darão espectáculos na América?

- Massachusetts, Rhode Island e Connecticut. Existe também a possibilidade de irmos a New Jersey, mas ainda não está nada decidido.

- Como recorda o Luís Morais?

- Até agora é difícil para mim acreditar que, de facto, o mestre Luís Morais morreu. Imagino que ele está a falar comigo, quando toco lembro-me das coisas que ele me dizia quando tocávamos juntos. Enfim, ele era uma pessoa formidável. Relembro constantemente, as brincadeiras que ele fazia em cima do palco e sinto muitas saudades .... Luís Morais foi meu professor de música e como mestre da Banda Municipal, de que eu fazia parte também, ele ensinou-me muita coisa. Ele não era professor apenas na escola. Mesmo quando estávamos em palco, ele dava permanentemente indicações de como fazer as coisas, principalmente aos mais jovens.

- E um disco seria a melhor homenagem a alguém que foi tão importante tanto na tua vida como da do teu irmão Nhela? Acredita que o Luís Morais ficaria feliz?

- Sim, claro. E por isso quisemos fazer esse disco de uma forma original, de modo que fosse um documento histórico. Incluímos a biografia do Luís Morais e a nossa também, explicamos num texto redigido pelo Jorge Soares os motivos porque temos esse título ao disco...

- Também intercalaram com as músicas excertos de uma entrevista que Luís Morais concedeu ao jornalista Valdir Alves, quando o músico participou no Smithsonian Festival, em Washington, em 1995, e trechos de actuações “ao vivo” do mestre Morais . De quem foi esta ideia?

- Durante a gravação em estúdio estávamos sempre a discutir ideias que pudessem melhorar o disco. E, foi num dia em que estavam reunidos Djim Djob, Kalu Monteiro e eu que surgiu essa ideia de incluir no disco declarações do mestre Luís Morais. Mas não foi fácil. Tivemos que andar bastante à procura de uma entrevista. Finalmente, ficamos a saber que o Valdir Alves tinha feito essa entrevista, conversámos com ele, concordou com a ideia, e, depois, o Kalu Monteiro e o Djim Djob decidiram que o ideal seria colocar um excerto dessa entrevista antes de cada música.

- A viúva do Luís Morais, a D. Bela, e os filhos do falecido músico já escutaram «Formidável»? Como reagiram?

- Creio que a D. Bela ainda não ouviu disco, mas, duas semanas antes do lançamento do disco, encontrei-me com dois dos filhos do Luís Morais, e disseram-me que já tinham ouvido o disco. Mostraram-se muito emocionados. Não sei se sou a pessoa mais indicada para dizer se o disco é bom ou não, mas a verdade é que na América recebi muitas chamadas de pessoas felicitando a mim e a meu irmão pelo trabalho. Espero que não tenham tido isso só para agradar. Mas, pessoalmente, acredito que fizemos um bom disco. Deu muito trabalho, mas valeu bem a pena.

- Além do facto de «Formidável» ser uma homenagem ao Luís Morais, que outras diferenças tem este disco em relação aos outros dois anteriormente gravados?

- Por ser uma homenagem e pelo facto de ter sido nosso professor, nós tentamos pôr aquele ditado crioulo em prática, segundo o qual eu te ensino alguma coisa, mas depois tu  também tens que criar algo original, que é só teu. Assim, com base no que Luís Morais nos ensinou quisemos tocar ao seu estilo mas sem deixar de ser fiel ao nosso estilo próprio que cultivamos nos discos Reencontro I e II, para evitar que as pessoas pensassem que «Formidável» é um disco de Luís Morais.

- E foi difícil conseguir isso? Não existiu o perigo de o disco ficar muito parecido a um álbum de Luís Morais, tendo em conta você e o Nhela foram seus alunos e que o repertório inclui composições que ele habitualmente interpretava?

- Sim, sentimos esse perigo a rondar o nosso trabalho. Por exemplo, quando estávamos em estúdio a gravar este disco, nomeadamente quando Bana, Djosinha e outros artistas lá estavam, e eu e o Nhela tocavamos trompete e saxofone, respectivamente, os outros exclamavam “formidável”. E assim, nessa ocasião, bem como em outras, sentimos a presença do Luís Morais, a sua alma estava lá connosco.

- Mas como foi que você Adriano e o seu irmão Nhela conheceram Luís Morais?

- Conheci Luís Morais quando ainda era criança, como quase toda a gente o conhecia em São Vicente como músico e regente da banda municipal. Mas, como pessoa e professor, passei a conviver com ele desde 1973/74, data em que o meu pai tocava e já nos ensinava música em casa. Depois ele levou-me para a banda municipal com o Jorge Cornetim. Entretanto, Luís Morais regressou a Cabo Verde e o meu pai disse que me ia inscrever nas aulas de música dele. E foi assim que nos conhecemos.

- Como foi a experiência? O que observava no seu modo de ensinar que fosse diferente das aulas do seu pai?

- Luís Morais foi um segundo pai para nós. Mas, ele foi também mais do que isso. Quando estava connosco não olhava para nós como filhos ou pessoas mais novas. Ele se adaptava à idade da pessoa que estava com ele num dado momento e, quando estava connosco sentíamos que ele era também uma criança.

- Nessa época você e seu irmão já encaravam a música como uma coisa séria? Pensavam que um dia poderiam vir a gravar discos e ter uma carreira musical?

- Este é o sonho de qualquer pessoa que aprende música – tocar em conjuntos, gravar discos, ter uma carreira de sucesso. Mas, na altura não eram coisas que nós pensávamos poder concretizar.

- E como veio a emigrar para os Estados Unidos?

- Um primo meu veio da Europa e disse-me que eu e o Nhela deveríamos ir a Portugal prosseguir nossos estudos. Entretanto, falei com o Luís Morais e disse-lhe que ia para Portugal. Então, ele perguntou: «Porquê, em vez de Portugal, não vais  para os Estados Unidos? Prometeu ajudar-me, deu-me alguns contactos de pessoas que podiam me ajudar nos EUA e eu decidi seguir o seu conselho. O Nhela entretanto foi para Portugal e, mais tarde, seguiu para a Holanda, porque era lá que viviam familiares nossos.

- Durante esses anos na América, seguiu uma outra profissão. A música é apenas um hobby?

 

- Sim, tenho a minha profissão porque tenho uma família. A música, quando não ganhamos muito dinheiro, não permite desfrutar de benefícios como bons cuidados de saúde, segurança social, etc. Mas toco todos os fins-de-semana. Trabalho com vários artistas e toco em restaurantes de cabo-verdianos. E, neste momento, a música acústica e ao vivo é quase uma exigência dos clientes. Qualquer restaurante tem que ter música acústica e ao vivo para fazer sucesso.

- «Formidável» é o terceiro disco da vossa carreira. Antes, gravaram Reencontro I e II. Como sentiram a adesão do público a esse dois discos, visto que sabemos que o mercado, em geral, não está muito aberto a música instrumental?

- O primeiro disco – Reencontro I – foi distribuído por mim. E, posso dizer, felizmente esgotou, já não há no mercado. Futuramente, Reencontro vai ser reeditado graças a um produtor nos Estados Unidos que já comprou os direitos de reproduzi-lo. O segundo trabalho – Reencontro II – teve o mesmo destino, ou seja, também esgotou no mercado e, segundo informações que me foram dadas pelo produtor, também ele vai ser reeditado. E as pessoas, tanto nos Estados Unidos como na Holanda já nos perguntam quando é que vai sair o Reencontro III.

- Acredita então que a música instrumental tem mercado? Tem futuro, ou seja, lá nos Estados Unidos, por exemplo, vê que há jovens que se interessam por esse tipo de música?

- Sim, há muitos jovens que aprendem a tocar instrumentos de sopro. Eles frequentam o Conservatório de Música, onde é-lhes dado a possibilidade de aprender a tocar dois instrumentos. E, na maioria dos casos, eles escolhem aprender a tocar um instrumento de sopro e outro tipo como guitarra ou piano. Mas, quando saem do conservatório e começam a participar em conjuntos, a tendência é para tocarem piano ou guitarra.

 

- Porquê, é difícil tocar instrumentos de sopro?

 

- Não é por ser difícil. A questão é que eles também têm que procurar um sustento para as suas vidas e um instrumento de sopro não são tão requisitados. Quem toca guitarra ou teclados tem hipótese de conseguir mais contratos de trabalho. Normalmente, um conjunto pede um ou dois instrumentos de sopro e, na maioria dos casos, querem que seja alguém já com nome firmado no mercado, o que torna as coisas difíceis. Além de que os teclados e a guitarra são mais populares, em qualquer evento que pede música pedem quase sempre um guitarrista ou  teclista.

 

- Quanto a si e seu irmão, neste momento, «Formidável» é o único projecto que estão compenetrados em concretizar plenamente, ou já têm outros na forja?

- Neste momento, estamos preocupados e dedicamo-nos apenas ao «Formidável». Mas, antes de gravar este disco, como eu já disse, nós estávamos nos preparando para começar a gravar «Reencontro III». Enfim, o contrato com a produtora já estava assinado e, tudo já estava, pronto para o início dos trabalhos em estúdio. A morte do mestre Luís Morais alterou os nossos planos e optamos por gravar Reencontro III em sua homenagem. Assim, o repertório que inicialmente estava destinado para Reencontro III vai ficar para o disco Reencontro IV.

 

Augusto Veiga: “Ser produtor musical é mais um risco do que um investimento”

http://www.asemana.cv/article.php3?id_article=36163  04-10-08

Augusto Veiga é produtor de um dos grupos musicais de maior sucesso da última década, os Ferro-Gaita, e de outros músicos, estreantes e veteranos. Um trabalho que faz porque gosta, pois, com a generalização da pirataria, garante ao A Semana, “ser produtor musical é mais um risco do que um investimento”.

Entrevista por: Teresa Sofia Fortes

Augusto Veiga, como começou esta tua aventura como produtor e manager de músicos?
Tudo começou em 1995, quando voltei dos EUA. Vim com as influências do hip-hop e comecei a organizar espectáculos e a trabalhar com alguns grupos do ramo. Um dia vi a formação original do grupo Ferro-Gaita - Xando, Eduíno e Bino - a tocar no Garden Grill, adorei e convidei-os para fazer a primeira parte de um espectáculo de hip-hop no Gimnodesportivo. O Eduíno gostou da forma como eu tratava das coisas e convidou-me a gerir o grupo. Isso foi em Dezembro de 1996, mais ou menos seis meses após a criação do grupo Ferro-Gaita. Vai fazer 12 anos que, juntos, temos feito um caminho ascendente. Entretanto, comecei a fazer produções próprias: os CDs de João Cirilo & Eduíno, Nácia Gomi e N’Toni Denti d’Oro, Djodje, 2Pac & Ney e a colectânea Hip-Hop Praia. A minha produção mais recente é o disco “Dixi Rubera”, de Vadú. E, em breve, vai ser lançada outra produção minha com o cantor Éder Xavier. Mas, além da promoção e produção, venho trabalhando também no agenciamento de artistas residentes no estrangeiro, cabo-verdianos e de outras nacionalidades. Em tudo, tenho procurado trabalhar da forma mais profissional possível.

Que características alguém tem que ter para ser produtor e promotor de artistas?
O produtor tem que ter muito jogo de cintura, seriedade e abertura no relacionamento com os artistas, ser alguém capaz de resolver os problemas rapidamente e ter “olho” para talentos. Ah, tem que ter muita sorte, também (risos).

Como identificas um talento musical?
Ajuda-me nessa tarefa o facto de eu ter um gosto musical muito ecléctico. Oiço todo o tipo de música, jazz, rock, funaná, vários géneros da música brasileira, morna, reggae, enfim, tudo. E quando sinto que a música de alguém tem qualidade, aposto nele. A minha sorte é que produzo artistas de que gosto e em que acredito. Porque, para produzir o trabalho de alguém é preciso acreditar nele e ter afinidades pessoais e de gosto musical. Nem todos os meus projectos têm o mesmo sucesso, mas isso é normal, e não me arrependo.

Em que consiste o teu trabalho?
“Manager” é alguém que gere alguma coisa. Eu, pessoalmente, faço tudo. No que toca aos Ferro-Gaita, negoceio os contratos, trato da sua imagem e da produção e promoção dos seus espectáculos. Quanto aos outros artistas, faço distribuição dos discos, agenciamento de espectáculos, gestão de imagem, etc, etc. Penso que não há uma só palavra para englobar todas as funções que desempenho.

Acha que no mundo artístico de hoje ter um produtor ou agente é essencial para a carreira de um artista?
Sim. Se olharmos bem, vamos ver que os músicos que fazem mais sucesso são aqueles que têm um produtor ou agente. Outros não têm esse sucesso porque, entre outras coisas, não têm alguém a cuidar da sua carreira. O músico deve preocupar-se apenas com a parte musical do seu trabalho. No mundo competitivo de hoje, um artista precisa de alguém que cuida da sua agenda de espectáculos, que promove os seus espectáculos, que divulga a sua música.

Neste domínio, Cabo Verde já entrou na fase do profissionalismo ou ainda está no amadorismo?
Em Cabo Verde, a produção de artistas ainda é feita com base em muito amadorismo. Inclusive eu, preciso profissionalizar-me mais. E estou a preparar-me para isso. Temos um caminho longo a andar se queremos atingir o nível mais alto do circuito da world music. Entre outros problemas, ficamos longe dos centros de decisão e dos espaços de lobbies.

Sim, os cabo-verdianos são orgulhosos da sua cultura e, particularmente do sucesso da sua música, mas, se nos compararmos com outros, ainda somos pequenos. O que falta, na tua opinião, para sermos grandes?
Falta um lobby forte tanto da parte do governo de Cabo Verde ...

O que pode o governo fazer?
O governo de Cabo Verde pode usar a sua influência junto dos centros de decisão para promover a nossa música. Se repararmos, os artistas cabo-verdianos que fazem sucesso no exterior também residem lá. Eles são obrigados a residir lá, para poderem estar perto dos centros de decisão e dos grandes festivais. Nós que residimos em Cabo Verde temos um grande handicap: o preço alto dos bilhetes de avião. Se não tens parcerias e parceiros não consegues comprar esses bilhetes. Não imaginas o “jiga-joga” que é necessário para conseguir uns bilhetes de avião. Também precisamos de um lobby mais forte junto das grandes editoras, dos grandes festivais. Já temos alguns nomes que fazem este trabalho, mas é preciso muito mais. Mas o mais importante é o trabalho dos nossos artistas ter qualidade.

E como são os nossos artistas: amadores ou profissionais?
Há as duas vertentes. Há artistas em Cabo Verde que, mesmo sendo amadores, são bastante profissionais na sua postura. E quando participam em eventos internacionais dão boa conta de si em pontualidade e qualidade de actuação. Mas a nível financeiro há poucos profissionais. Quase ninguém vive da música. Todos têm outra ocupação e fazem muito “jiga-joga” para sobreviver.

Ser produtor é um investimento ou um risco?
As duas coisas. É um risco porque se investes o teu dinheiro corres o risco de perdê-lo e não recebê-lo de volta. Neste momento, com a eclosão da pirataria em Cabo Verde em grande escala, ser produtor musical é mais um risco do que um investimento. Quem produz é porque gosta. Houve tempos em que se ganhou muito dinheiro com a música, mas hoje o mercado está em grande crise. Mas vale a pena, se conseguirmos abrir as portas dos grandes mercados: Estados Unidos e Europa. A solução, diante da pirataria, é investir em espectáculos. Faz-se discos essencialmente para ter um documento e procura-se rentabilizá-lo através de concertos.

Há algum grande projecto em que estás a trabalhar neste momento?
Estou a investir na promoção internacional dos Ferro-Gaita e de Vadú. Vadú está ainda no início da carreira, logo tem mais dificuldades, mas ambos têm qualidade e eu tenho força e vontade para colocá-los num patamar mais alto. Este é um projecto de longo-médio prazo.

Como produtor, sentes-te respeitado?
Sim, sinto-me respeitado. Talvez devido à postura dos artistas de que sou produtor. Eles sempre encaminham as pessoas que os procuram para mim. E devido à minha forma de ser e de estar no mundo artístico, tentando ter um bom relacionamento com todos e fazendo o meu trabalho com profissionalismo e qualidade, sem passar por cima de ninguém, as pessoas respeitam-me, tanto em Cabo Verde como lá fora. Mas sei que tenho de melhorar o meu trabalho.

 

 

Ano Nobo um músico epico

Por Herminio Furtado cvmusicworld.com Editor

Músico, poéta e dramaturgo, Fulgêçio C. Lopes Tavares, por muitos conhecido como mestre Ano Nobo, de 69 anos (2003?), tem na sua caveta 400 composições músicais, das quais cerca de 150 públicadas por dizenas de interpretes como o Ildo Lobo e o Zéca Nha Reinalda. Ano Nobo testifica as suas aventuras e disaventuras no amor e na amizade, bem como daqueles que o enturam, documentando assim a historia do seu povo. Recorde-se que o mestre foi condicorado pelo presidente António Mascarenhas como um grande compositor Caboverdiano.

Um aventureiro e tocador de varios instrumentos, como o vilão, o cavaquinho, a gaita de boca, o violino, e o piano, Ano Nobo provou ser um homem curioso em discobrir novos talentos no fundo. Na sua procura eterna por novas aventuras, ele não so debruçou sobre as músicas tradiçionais Caboverdianas como a morna, coladeira e funana, mas também estendeu-se para os estilos ultramarinas tais como o merengue, a cumbia, e o samba. Ano Nobo escreve sempre sobre a episodios da vida humana, mas é no meio da natureza que ele encontra a inspiração para meditar, ponderar e entender o mundo dos homens. “Gosto muito de estar sozinho com as plantas”, disse e revelou que “é ali que me inspiro especialmente pela manhazinha”.

O mestre começou a tocar aos 12 anos com a ajuda da mãe que era cantadeira. A música é um dom que lhe é inato, sabendo que ambos o avô e o pai, Pipi e Henrique Pipi respectivamente, foram maestro da Banda Músical da cidade da Praia. Fez a sua premeira composição musical aos 17 anos de idade que se intitula “Julí”, uma morna interpretado pelo o nosso grande e falecido Frank Mimita no grupo musical “Vozes de Cabo Verde”. Nos primórdios da sua careira artística, junto com Frank Mimita, animou as noites Caboverdianas na Achada Santo António. “Frank foi um grande amigo meu e foi o premeiro artista a gravar os meus trabalhos”, falou com mágoa do amigo falecido a mais de duas décadas.

Nessa altura também forjou da sua mina artística a premeira coladeira “Ta Pinga Tchapu Tchapu”, gravado por Ildo Lobo, Bana e Gardenia. Outros grandes êxitos deste mestre foi o funana, “Domingo Decho” interpretada por Zéca Nha Reinalda, “Camarada Pepe Lopi”, e “Ta Kundum Kundum” por Ildo Lobo, as mornas “Linda” e “Falsia d’Amigo” cantadas por Frank Mimita e “Nha Mudjer” interpretada por Danny Silva so para citar alguns.

Como um artista romántico, o nosso mestre faz uso da imaginação para transpor a realidade. “O artista tem que ter uma certa imaginação”, ele nos explica. As temáticas da sua arte passa do amor pela a justiça social até a sátira do quotidiano. O amor não corespondido como em “Julí” e o desfeito d’amizadade em “Falsia d’Amigo” aparece frequentemente nas suas poésias. A mulher e principalmente a criança também são bastante acarinhadas e amadas nos seus versos. Quem não se recorda do tema, gravada pela então pequena artista Rita Lobo entitulado “Criança Ainda” que é o primeiro verso desta morna que continua: “Cuma boton di flor”, “Obra mais linda di Deus criador”... A sua última composição, o tema “Lena” acaba de sair no mercado incluido no trabalho do Mauel do Candinho

Embora muitos das suas composições públicadas portam o seu nome, tantas outras violam o seu direito do autor. “Muitos são os que gravam abusivamente os meus trabalhos, assinando como se fossem deles”, reclamou o mestre numa outra entrevista.

Recorde-se que o mestre não recebe nada em troca pelo seu trabalho artístico o que mostra poca consideração pela sua arte. “De vez em quando me mandam um CD da Hollanda com as minhas composições”, ele disse dos artistas que gravam os seus trabalhos inéditos. Contudo Ano Nobo revelou ao CVMUSICWORLD.COM que tem uma quantia em dinheiro que ronda os milhares de contos para receber em Portugal pelos direitos reservados ao autor. Ainda alguns dos seus temas foram vítimas de plágio. Ele usa como referençia o tema “Baíno” que aparece no trabalho do Bitori Nha Bibina com algumas alterações.

Paralém da música, o mestre também se destacou no teatro e foi neste âmbito que estabeleçeu uma cultura dramaturga hoje moribunda em São Domingos. Neste campo a “Julgamento do Toto”, mais conhecido por “Toto ku Tota” que é uma melodrama do tipo de “Os Miseraveis” pelo o dramaturgo françês Victor Hugo, retrata uma sena da justice social em Cabo Verde em que um reú é acusado de furto e é acompanhado por temas músicais. “O Julgamento do Toto” recebeu o prémio da melhor peça teatral em Cabo Verde.

Como mestre, foram muitos que aprenderam a tocar e compor com ele. Durante a nossa entrevista, enquanto o mestre recuperava na gaveta da sua mente alguns versos antigos, o seu filho Dicky arrancava das cordas dum violão as melodias outrora composta pelo pai. Diki que agora reside nos Estados Unidos e faz parte do grupo músical Kola Band paralém de participar em diversos albuns solos, ja passou pelos grupos Abel Djasi e Finaçon enquandto ainda na sua terra natal. Como o mais destacado da escola do mestre Ano Nobo, Diki é um dos melhores guitaristas Creolos e também é autor do muitas composições músicais.

Recentemente este pai de 18 filhos sofreu um acidente na sua residência em Lem Prera São Domingos e partiu a coxa ficando assim sem forças para se dislocar. É a primeira vez que o mestre retorna as terra Americas desde uma digressão de artistas Caboverdiana aos Estados Unidos em 1986. Até aqui, o tratamento nas clínicas Americanas tem sido um sucesso e o mestre Ano Nobo voltou a caminhar embora com uma certa dificuldade. A sua saúde precária não lhe tem permito nenhuma actividade artística, dai que ele vem sendo pouco activo na sua arte vão la 3 anos.

Ano Nobo prestou de facto um grande serviço no progresso da cultura de Cabo Verde e na documentação artística da história das gerações que ele viu crescer. Durante a sua careira artística, o mestre também desempenhou cargos importantes nas sociedade civil de Cabo Verde com gerente de São Domingos no regime colonial, presidente da comissão do todo mundo canta e por muito tempo professor de música.

 

Antão Martins, um ancião tocador de gaita

http://www.expressodasilhas.sapo.cv/noticias/detail/id/3550/

Antão Barreto Martins é uma das figuras lendárias da música e da cultura de Concelho Santa Cruz, especificamente Achada Ponta. Músico em horas vagas e agricultor para o sustento da família é um dos melhores tocadores de gaita da sua geração.

Apesar de ter iniciado tarde na música, Antão marcou época como um dos grandes tocadores de gaita da ilha de Santiago. "Eu toco tudo, desde funaná, mazurca, morna, coladeira, entre outros géneros musicais.

Barreto começou a tocar em 1947, quando tinha 25 anos de idade. "Apreendi sozinho! Meu pai e o meu irmão eram tocadores de gaita, mas não me emprestavam a sua gaita para praticar. Eu me exercia quando o meu irmão saía de casa e a minha cunhada me emprestava mas escondido", recorda Antão.

Antão Barreto diz ter sido tutor de Kodé di Dona, mas nunca gravou nenhum disco. O seu talento e contributo em prol da música cabo-verdiana, foram reconhecidos inclusive, pela Câmara Municipal de Santa Cruz que lhe atribuiu um diploma de mérito, na ocasião das festividades do santo padroeiro daquele concelho - Nhu Santiago Maior.

Antão nunca frequentou a escola porque no concelho de Santa Cruz não existia naquela época e os seus pais não tinham condições para que ele fosse estudar na cidade da Praia, mas com a ajuda do seu companheiro, Baltazar Lopes da Silva apreendeu a escrever o seu nome, através de números.

Barreto recorda dos tempos que passou em São Vicente, onde passou cinco anos, na prestação do serviço militar. Afirma, que não ganhou divisa porque não sabia ler nem escrever.

Antão diz que conhece quase todas as ilhas de Cabo Verde e Santiago em geral, graças a toca tina que fazia nos tempos da mocidade. Essas tocas tinas eram realizadas nas festas como casamentos, baptizados e nos locais da música.

Antão diz que já actuou juntamente com vários músicos de nomes e prenomes como Nha Nácia Gomes, Sema Lopes, Raul de Brava, entre outros.

"A nossa tradição é bonita, ela deve ser preservada para não cair em desuso, por isso, queria dizer aos jovens, particularmente, os do Concelho de Santa Cruz que assegurem com muita força, o que é e que será sempre nosso", apela Antão Barreto Martins.

12-5-2008, 09:27:41
Expresso das Ilhas

 

Armando Zeferino Soares: MORREU AUTOR DE “SODADE”

Vai a enterrar hoje, em Praia Branca, S. Nicolau, o verdadeiro compositor da célebre morna “sodade”. Armando Zeferino Soares faleceu ontem, aos 87 anos de idade. As exéquias acontecem hoje, quarta-feira, na sua aldeia natal.

Comerciante conceituado na sua ilha, o nome de Armando Soares aparece na música quando há cerca de 50 anos, num encontro de despedida de alguns amigos que iam imigrar, inspirou para “sodade”, letra que acabou ganhando o mundo, graças à nossa “Diva dos pés descalços” que a levou a grandes palcos nacionais e internacionais: mais tarde outros artistas não menos conhecidos deram valor à composição que acaba gravada em vários CD’s.

O tema “sodade”, recorda-se, esteve envolvida em alguma polémica, e até chegou às barras do Tribunal. Chegou-se mesmo a brigar a autoria desta composição. O Tribunal acabou dando razão a Armando Soares que apenas em Dezembro de 2006 viu reconhecida a sua verdadeira autoria desta célebre composição.

[2007-04-04]  http://www.expressodasilhas.cv/c_base.php?gc=Ver%20notícia&id=2453

Armando Zeferino Soares 

CABO VERDE: PATERNIDADE DA MÚSICA "SODADE" CANTADA POR CESARIA EVORA CONTESTADA EM TRIBUNAL

Armando Zeferino Soares apresentou quinta-feira queixa no tribunal da Cidade da Praia, Cabo Verde, a reclamar a autoria da música "Sodade", o maior êxito de Cesária Évora, e cujos direitos estão a ser aproveitados por outros.

O advogado Hélio Sanches, a par do seu colega José Manuel Pinto Monteiro, fez hoje entrega de uma queixa-crime em que são visados o compositor Amândio Cabral e José da Silva, proprietário da editora Lusafrica, com sede em Paris.

Segundo o advogado, a morna "Sodade" surgiu pela voz de Cesaria Évora em 1992, no seu quarto registo discográfico, "Miss Perfumado", que é considerado o maior êxito, com três milhões de cópias vendidas.

Nos registos discográficos surgem como autores, não Armando Zeferino Soares, mas Amândio Cabral e Luís Morais, este último falecido a semana passada.

Hélio Sanches salienta que Luís Morais referira, há alguns meses atrás, que não era de facto autor, "que não tinha nada a ver com a música".

A questão da paternidade de "Sodade" foi levantada em Maio pelo semanário cabo-verdiano "A Semana", em que Armando Zeferino Soares, residente na ilha de S. Nicolau, narra as circunstâncias em que compôs a música.

Nesse trabalho jornalístico o músico Luís Morais conta que tudo se passou em 56 ou 57. O Amândio Cabral contactou-o a informa-lo de que tinha uma nova música, inspirada nas levas de pessoas para S. Tomé e Príncipe.

"Queria que eu escrevesse a música na pauta.

Depois, em 1958, se não estou em erro, gravámo-la na Rádio Barlavento. Foi essa a minha intervenção nesse processo", refere Luís Morais, que "prefere remeter-se ao silêncio" quando "questionado sobre a verba que recebe anualmente pelos direitos de uma música que reconhece não lhe pertencer", refere "A Semana".

Armando Zeferino Soares, nessa entrevista, conta que a música foi criada a 11 de Maio de 1954. Nesse dia realizava-se um baile de despedida em Praia Branca para aqueles que iam emigrar para as roças de S. Tomé e Príncipe, para fugir à fome em Cabo Verde.

Então ele convidou o grupo de músicos do baile para acompanharem os emigrantes ao sítio de embarque, ao Portal, pois tinha uma música nova para lhes tocar.

"E lá fomos. Pelo caminho a letra foi saindo, e quando chegamos ao Portal toda a gente já a sabia de cor.

Os familiares e as pessoas vinham a chorar, e nós sempre a tocar", expressa ao jornal Armando Zeferino Soares, um modesto comerciante de 72 anos, residente em Praia Branca, Ilha de S. Nicolau, nomes que são referenciados na morna "Sodade".

Hélio Sanches contou à Agência Lusa que no processo- crime interposto hoje no Tribunal da Cidade da Praia são apresentadas "provas evidentes" de que o autor é Armando Zeferino Soares, mas escusou-se a revelá-las à Agência Lusa.

Explicou que o processo só avançou agora por estarem à espera de conseguir um acordo. Mas, perante o anunciado aparecimento de uma nova antologia de Cesária Évora com "Sodade" incluída, chegaram à conclusão que era uma tentativa "de ludibriar".

 

Africanidade  04-10-2002 01:30

 

Nha Balila: Mulher de cultura apela à tolerância dos políticos

http://www.expressodasilhas.sapo.cv/noticias/detail/id/6085/

 

Nha Balila é um caso pouco comum entre nós: a invisual de Tira- Chapéu, conquistou notoriedade a nível nacional através da participação telefónica em vários programas de rádio,
literalmente, sem sair do conforto da sua casa. Com a fama alcançada, resolveu relançar a sua carreira de batucadeira, contando já com duas participações em CDs colectivos.
Na nossa conversa, Nha Balila revela-nos aspectos pouco conhecidos da sua já longa vida como a imigração forçada para Angola e as roças de São Tomé. Como observadora atenta da política nacional, aborda o problema da insegurança em Cabo Verde, e aos líderes políticos deixa um conselho: tolerância.

O que a leva a telefonar para os programas radiofónicos?
Nha Balila - É essencialmente a amizade que tenho pelos jornalistas, mas tento também passar a minha mensagem, sobretudo aos jovens deste Cabo Verde que é de todos nós e que não devem ter mais amor em nenhum outro país do que o próprio país.

Com todas essas chamadas, quanto é que paga por mês em telefone, ou a Telecom facilita um pouco?
Ninguém me facilita nada. Eu é que pago as minhas contas telefónicas, a minha água, a minha luz. Pergunte-me depois qual é o meu vencimento.

Então vai a pergunta: qual é o seu vencimento mensal?
Recebo por mês 9.330$00. São 5 mil e tal escudos da reforma do meu marido que trabalhava na Enapor, mais 3 mil escudos da FAIMO, se não me resolverem cortá-lo.

Participou em dois CDs colectivos com ornou batucadeira?
Descobri o batuku aos 10 anos de idade. A minha mãe batucava, a minha tia, o meu irmão mais velho, enfim toda a família. Deixei o batuku quando fui para Angola e São Tomé: os colonialistas tinham proibido o batuku e o funaná, mas sempre gostei. Em Serra Malagueta, quando a minha mãe ia batucar levava-me consigo e assim fui observando e aprendendo. Assim, quando completei os 16 anos já estava dentro do terreiro "ta da ku torno".

Em 1981, com a criação do seu grupo de batucadeias "Bali Pena", regressa de novo à música.
Não. Desde 1945, com 16 anos que eu estava dentro da música. Eu cresci com os sons e melodias, mas parei, devido a uma ingratidão. Quando em 1981, criei o grupo "Bali Pena", batuquei por todas as zonas e nos passeios que a OMCV organizava para o Tarrafal, Ribeira da Barca, Boa Entrada, etc. Mas em 1988, recebi uma ingratidão de dois homens da Cultura: os senhores Tomé Varela que me preteriu sempre a favor de Nha Nácia Gomi e Mário Bettencourt. Quando o meu grupo foi convidado neste ano para actuar na Cidade Velha e reforçou Tchim Tabari no palco. Mas o Mário Bettencourt apresentou na televisão e na rádio Nha Nácia Gomi, Tchim Tabari, mas o grupo não foi apresentado nem na televisão nem na rádio. Acho que isso foi uma traição. Quando havia uma digressão de batucadeiras por um país da América, fui chamada para dar o meu nome, mas na altura da partida não era chamada. Assim desgostei de cantar e abandonei o batuque. Só em 2001 é que vim pensar no meu batuque, outra vez. Perdi todos esses anos, podia ter ido mais longe, mas o meu regresso alegra-me muito.

Um regresso que culminou com a participação em dois CDs colectivos. Onde é que já actuou desde que gravou?
Em Serra Malegueta, onde nasci e na Praia na discoteca "Bomba H", no lar da terceira idade, em Castelão e Achada Grande, no Salão Paroquial, no 5al da Música, no Palácio da Cultura, na residência do antigo Embaixador americano, em Cabo Verde. Participei numa produção espanhola (Kontinuasom) e numa reportagem inglesa sobre Cabo Verde.

Quanto já ganhou com o batuque desde o seu regresso?
Com o produtor Zé di Sucupira ganhei mais ou menos. Mas com os "Sons d'África" não vi até hoje a cor do dinheiro e o que não me falta é vontade de levar o caso para o Tribunal.

Foi convidada recentemente a se deslocar a S. Vicente. Como foi recebida?
Foi maravilhoso. Não conheço nenhuma ilha nem nenhum país com mais morabeza do que S. Vicente. Nem mesmo nos Estados Unidos, Portugal ou França seria recebida da forma como o foi em S. Vicente.

No paraíso, em S. Vicente

Eu digo: se a Glória e o Paraíso existem na Terra, então já lá estive. O amor que a população de S. Vicente tem por mim é simplesmente indescritível.

Com que apoios tem contado para desenvolver a sua actividade musical?
O único apoio que tenho recebido é do Zé di Sucupira. Do ministério da Cultura recebi uma vez, 15 mil escudos para custear as despesas de transporte do meu grupo de batucadeiras a Serra Malegueta. De resto, nunca mais recebi nada do ministério da Cultura. Quero mandar aqui um recado ao ministro Manuel Veiga: ele que ampare mais os artistas, e que não pense que sou apenas uma cega. Não sou cega, sou como todos as outras pessoas. O meu coração vê mais do que o dos que têm olhos na cabeça.

Para quando o seu primeiro CD a solo?
A minha participação no álbum colectivo dos "Sons d' África" não ficou bem gravada, porque os meus três temas foram gravados no exterior, numa localidade chamada Figueira Moita. Já tenho um projecto feito para uma nova gravação dessas faixas e só me falta patrocinadores para concretizar o projecto. Os temas são: "Dentu di alguém ke alguém", "Cabo Verdi tem valor" e "Bu pé na tchom, bu mó pa riba, bu odju pa Céu".

Você completa no dia 12 de Dezembro, 79 anos de idade. O que espera ainda do futuro?
Digo-lhe claramente: Sou e não sou Politico. Pertenço à OMCV desde 1981. Apoio no que posso à terceira idade com angariação de dádivas, às crianças carenciadas com a recolha e distribuição de materiais escolares, vestuário, bolas e bonecos. De futuro, espero que os cegos passem a ver e os que têm olhos vejam mais de que os cegos.

O Cabo Verde de uma vez e o de agora é diferente. Hoje está um orgulho. Nhu Nacho já tinha dito que a partir dos 60 anos, todos os velhos tornavam novos e que os mais novos se atrapalhavam. Com certeza estava a pensar em mim.

De resto, espero que os filhos da minha terra tenham mais civismo, respeito, amor, dedicação e que os jovens cumpram os seus deveres como Deus mandou. Porque o que estão a fazer não é vontade de Deus, porque Deus não manda a ninguém praticar o mal. Só assim é que Cabo Verde será mais rico. Por mais que o Governo faça, se não houver respeito e Justiça, a nossa terra irá no mau caminho.

Não é normal num país que uma pessoa não possa dormir tranquilamente à noite ou sair à rua a partir das 22 horas. Não está bem. Peço ao Governo que ponha cobro à situação e que o novo Procurador-geral da República ajude o Governo nesta matéria.

Como observadora atenta da política nacional, como avalia o estado actual da nossa democracia?
Acho que é preciso cumprir a democracia. Se alguém tiver fome, se tiveres comida deves dar-lhe. Se alguém cair, se poderes, levanta-o. Se alguém não tiver um tecto, dá-lhe onde morar. Democracia não é estar a matar todos os dias cidadãos inocentes. Mas também, não me levem a mal, não quero nenhum líder a ofender verbalmente o outro. Isso é feio: um diz, não fizeste nada, o outro diz, eu já fiz. Não temos olhos para ver? Temos.

Você é jornalista tem de levar tudo. Digo: silêncio, senhor Primeiro-Ministro, José Maria Neves: silêncio senhor Jorge Santos, porque gosto de vocês, mas trabalhem com juízo, sem insultar um ao outro. Acusarem-se mutuamente de sem vergonha é feio; de ladrão é feio; de trabalhar só para uma família é feio. Ninguém que entra no poder pode trabalhar só para a família. Eles não podem trabalhar só para as suas famílias. Nós somos todos seus familiares. Não é só suas mães, nem só seus pais, nem só os seus irmãos, nem só suas mulheres. Eles subiram ao poder para trabalharem para todos os cidadãos. Nós é que os colocamos no poder, não o contrário.

2-11-2008, 09:55:15,  AM, Expresso das Ilhas

 

Bana: O “Gigante” da Morna regressa aos palcos

http://www.expressodasilhas.sapo.cv/noticias/detail/id/6087/

Ele é um ancião das mornas, que através da sua voz quente emociona e embala quem as ouve. Ela, uma portuguesa com um talento inato para a escrita, que se apaixonou por uma terra que dificilmente sai da memória. Juntaram-se as recordações do artista com a criatividade da autora e o resultado não poderia ser melhor: "Bana uma vida a cantar Cabo Verde".

Já parou para pensar como certas pessoas são tão boas naquilo que fazem, que se diferenciam dos demais? Por vezes não se trata de génios sobredotados ou milagres, mas sim de pessoas que, movidas pela paixão, pelo sonho, ou simplesmente pela garra de vencer, são dotadas de talentos artísticos. É o caso de Adriano Gonçalves, cujo dom tem somente um nome: "melodia inesquecível".

Nestas breves linhas poder-se-ia falar do seu percurso, da sua morna, da sua música, mas isso já é do conhecimento geral. Homenagear este "gigante" é uma tarefa difícil, mas talvez, contar sobre a primeira vez que se encontra a sua voz poderá explicar o efeito que este homem que "por detrás do esforço do seu sorriso, se descortina a intenção de camuflar a saudade", tem sobre as pessoas. É natural. Está-lhe no sangue, desde que abrira os olhos para o mundo... numa época, onde a revolta das bandeira negras deixou a sua marca na vida dos mindelenses. "Despertou a consciência para os direitos da população, pois a aceitação do sofrimento não deve ser a expiação de um povo e a conformação só deve existir para o dado consumado - a morte" (in Bana, uma vida a cantar Cabo Verde). E Bana nunca se acomodou. Nunca se sentou, confortavelmente numa cadeira, à espera que a sorte lhe trouxesse bons ventos. Preferiu arregaçar as mangas e ir à luta.

Ouvi-lo e vê-lo é sempre uma aventura de sentimentos, contradições, verdades e raivas explicadas. Quem escuta com atenção o mestre de "personalidade complexa, mas de coração dado", fica tocado perante simplicidade. Quis comprovar que sentido poderia fazer para mim estas palavras. Uma portuguesa acabada de chegar à Ilha de Santiago, que traz na alma e, na bagagem, o fado de outros tempos e do agora. A morna não fazia parte do meu imaginário... até agora!

O Cantor que declama
Antes do pequeno espectáculo improvisado, num restaurante bem conhecido da capital, "o Gambôa", chegou a conversa...Um Bana que luta contra os anos que tendem a não querer abrandar. Um Bana, que mesmo cansado fisicamente, não se importou de falar, mais uma vez, sobre a história que nas últimas semanas contou tantas e tantas vezes. Alias, mesmo agora com 76 anos, o homem de quase dois metros de altura, falou com o mesmo entusiasmo, aquando em 2004 foi convidado para um programa de Rádio na Praia. "Deu na cabeça do locutor pôr-me a falar em directo com as pessoas. Eu ficava ali uma semana! As pessoas falavam, falavam, falavam...".

As luzes a meio gás para dar ambiente à sala. Apenas dois músicos e ele. A sua figura imponente marca qualquer um, mas a sua voz é a verdadeira "estrela da noite". Encostou-me à cadeira e fecho os olhos. Deixou-me embalar. Canter de Felecidade, Sonho di inha sperança, Mar di Canal... não há palavras, só emoções.

"Quando declama assmornas, fixando alguém das primeiras filas, tem a capacidade de fazer crer a cada dama espectadora que aquele romântico é dirigido a si...", Nessa noite Bana fez me sentir assim...

África, Europa, pelo mundo fora a "cantar Cabo Verde", o artista, que é conhecido pelos vários concertos de despedida, toca cada pessoa que convive com ele através de uma expressão cantável indecifrável.

"A minha decisão de deixar os palcos foi levada a sério por mim. Os meus companheiros de palco e os meus admiradores é que não deixaram de insistir e pressionar, dizendo que não poderia virar as costas ao nosso Folclore. Face a isto, acabei por me render sem culpas. De facto, é uma doçura saber que ainda podia fazer algo".

A paixão da escritora
A caneta desliza pela última vez. Foram escritas as derradeiras frases. "Es nôs nascê dum loucura, mim pâ me vivê ê d´bô carinho, e d´bô sorriso, ma bô ternura, se es falta-me mim d´já-me morrê... desabafava o cantor ,elucidando os sonhos que convocaram o dia seguinte". O sentimento não poderia ser outro... Missão Cumprida!

Quando Raquel Ochoa nasceu em Janeiro de 1980, Bana e o sucesso já caminhavam de mãos dadas... Enquanto a portuguesa se licenciava em Direito e viajava pelo mundo, em busca de novas experiências e aventuras que a enriqueciam enquanto ser humano, o cantor firmava a sua marca em cada cantinho do mundo. Quis o destino que as suas vidas se encontrassem. Há quem acredite que não haja coincidências. Sou uma dessas pessoas. O encontro dos dois estava escrito desde o início e isso é notório pela cumplicidade, e sobretudo, pela amizade que criaram nos dois anos e meio que Raquel levou a pesquisar e a escrever "Bana, uma vida a cantar Cabo Verde".

"Quando cheguei a casa dele foi recebida por um grande senhor. Na primeira entrevista tive logo a certeza que isto era uma história de vida para contar. Apercebi-me da importância que Bana tem em Cabo Verde e em Portugal e descobri uma coisa muito importante. A dimensão que ele tem, enquanto impulsionador da cultura cabo-verdiana".

Uma única vez em terras crioulas foi a suficiente para que esta jurista de profissão e escritora de alma e coração (Raquel publicou um primeiro livro "O Vento dos Outros" uma crónica de viagens aos Andes), reunisse impressões que a levaram a entender o local o espírito das suas gentes e perceber a marca que o cantor deixou na cidade de Mindelo, sua terra Natal.

A paixão pela descoberta do arquipélago e a surpreendente vida deste novo amigo, emocionou a escritora que quis na biografia não só relatar as experiências e vivências deste "embaixador da música cabo-verdiana", mas também, contextualizá-la com cada época. "Escrevi esta obra também com o objectivo de valorizar a terra. Li muito, mas não achei nenhuma obra com o carácter que quis dar a este. Era necessário um livro que pudesse, de forma positiva, reunir todas as características que são únicas em Cabo Verde e depois depositá-las numa só obra de maneira a ser estimulante ler. Ainda por cima ter como fio condutor a vida do Bana...", relatou.

Quanto à empatia com o cantor: "Há um sentimento de amizade que ao longo do tempo foi crescendo. É uma pessoa complexa, que através da sua voz, conseguiu que os emigrantes matassem as saudades. Talvez tenha sido a pessoa lá fora que mais tenha entrado no coração das pessoas. Ouvir o Bana era quase como um confessionário. Conhece-lo enriqueceu-me enquanto escritora e ser humano".

Devido ao sucesso do projecto, uma edição de luxo com um CD, Raquel já tem outros planos na manga para esta terra da Morabeza... Agora vai regressar a terras lusitanas, levando no pensamento "uma paixão que se adivinha para a vida", de seu nome Cabo Verde  2-11-2008, 10:13:56 MC, Expresso das Ilhas

BLACK SIDE ESTÁ DE VOLTA E ANUNCIA NOVO CD

Depois de alguns anos sem gravar, Black Side está de volta, com a promessa de novo trabalho, ainda no fim deste ano. Neste momento, de acordo com um dos vocalistas da banda, o Dau, estão a preparar a maqueta do projecto que, possivelmente, “poderá ser gravado aqui na Praia ou, fora do país”.

Um CD que Dau promete muitas surpresas, e acrescenta que o grupo vai apostar nos ritmos do primeiro CD, sendo, Hip Hop, Reggae, Ragga music, entre outros.

Black Side actuou no primeiro dia do festival da Gambôa 2006, em grande performance, tendo sido o último a subir ao palco, quando já rompera a aurora. Esta é a segunda vez que o grupo sobe ao palco deste festival internacional na cidade da Praia, tendo sido a primeira em 1997.

O grupo dos jovens rappers sãovicentinos foi bastante acarinhado pelo público presente, tendo havido muita sinergia. O segredo para tal sucesso Dau garante que sempre conseguiram cativar o público, fazendo com que os acompanhassem no embalo. “Desde que começamos a actuar, mesmo antes de termos gravado o nosso primeiro trabalho, o público sempre nos recebeu com muita euforia. Sempre reagia bem às nossas músicas”.

Nas suas músicas o grupo traz mensagens de sensibilização, direccionadas principalmente aos jovens, tendo em conta os principais flagelos do século, o SIDA e as drogas. Dois temas que Dau considera que “há muito que se dizer, explorar e escrever. Por isso há muita mensagem a passar à volta destas questões”.

Por outro lado, o rapper diz que as suas músicas “constituem uma aprendizagem nas suas vidas”. Explica: “são experiências que ganhámos e passámos aos outros. Hip Hop, como dizem os americanos, é uma forma de libertar e expressar o que sabemos sobre o nosso corpo, a nossa mente, o nosso passado. Mas, aqui em Cabo Verde, o que pretendemos com este estilo de música é estar em paralelo com a crítica social. Pretendemos retratar o sofrimento que vemos no nosso país”. 

Mensagens de acordo com o vocalista, visam contribuir para “um Cabo Verde melhor”.

Quanto a projectos e agendas, para além da gravação do novo CD, Dau avança que estão, também a prepara-se para dois tournées que têm programado, neste Verão, nos festivais internacionais que acontecem no país.

 http://expressodasilhas.cv/c_base.php?gc=Ver%20notícia&id=2781  [2007-05-25

 

Bau Música sem fronteiras

Bau: «Procuro fazer evoluir a música de Cabo Verde à minha maneira»

CHAMA-SE Inspiração o terceiro disco em nome próprio de Bau, guitarrista cabo-verdiano de 36 anos que é o actual líder da banda que acompanha Cesária Évora. Com a ajuda de músicos como Tey (bateria e percussões), Luís Ramos (guitarra), Zé Paris (guitarras acústicas e eléctricas), Jacinto Pereira (cavaquinho), Nando Andrade (piano, teclas), Totinho (saxofones) e Mário Canonge (piano), Rufino Almeida (é o seu verdadeiro nome) procura, mais uma vez, novos caminhos para a música do seu país. O resultado está longe de agradar a toda a gente, e até por isso o EXPRESSO não perdeu a oportunidade de trocar impressões com ele, pelo telefone.

 

EXPRESSO - Como está a decorrer esta nova digressão com a Cesária Évora por França? Ela está bem?

 

BAU - Cesária está bem e tudo tem corrido optimamente.

 

EXP. - Não teve a tentação de lhe pedir para cantar ao menos uma canção no seu novo disco? Tanto mais que dois dos temas que interpreta, ela já os cantou...

 

B. - Talvez num próximo projecto. Neste momento eu queria fazer um trabalho instrumental.

 

EXP. - O novo disco tem mais composições suas do que os anteriores. Isto quer dizer que tem hoje mais confiança nas suas capacidades como compositor?

 

B. - Não tem a ver com isso. Eu não incluí mais composições minhas nos trabalhos anteriores porque queria dar expressão aos instrumentos que comecei a introduzir na música de Cabo Verde e chamar a atenção para a minha forma de execução. Fiz de propósito para gravar outros compositores, temas que as pessoas já conheciam, e propô-los de forma diferente. Agora que já fiz isso, posso fazer outras coisas também.

 

EXP. - Um pouco como os músicos de jazz que interpretam «standards» para provar a sua originalidade, antes de proporem temas seus. Porquê chamar Inspiração ao disco?

 

B. - Primeiro, porque é o nome de um dos temas do álbum. Mas também por ser algo tão importante para um artista. É algo de que estamos sempre à espera. Por que ansiamos.

 

EXP. - Para se compor, o que é mais importante: inspiração ou muito trabalho?

 

B. - Tem que se trabalhar muito, é verdade, mas também trabalho sem inspiração fica vazio. Tem que ter alma, só técnica não basta.

 

EXP. - A inspiração vem-lhe com facilidade ou é rara?

 

B. - É uma onda que nasce naturalmente, que não se pode forçar. Às vezes quando estou no meu quarto, por exemplo, caem algumas coisas... e aí eu começo logo a trabalhar nisso. Mesmo em digressão, apesar de ser um pouco duro estar sempre a viajar, há tempo para tudo.

 

EXP. - O que é que responde a quem acusa este novo disco de ter um som demasiado estrangeirado?

 

B. - Este disco está na mesma linha que os anteriores, só que introduzi alguns novos instrumentos, como a bateria, pois quis dar muito lugar à percussão neste trabalho. Eu não quero ficar demasiado preso à tradição. Procuro fazer evoluir a música de Cabo Verde à minha maneira.

 

EXP. - Por vezes, a sua guitarra lembra outros universos musicais, e mesmo o estilo de outros guitarristas, europeus e americanos. É porque há em si uma vocação universalista?

 

B. - Pode ser também um pouco disso. Como sabemos, a música não tem fronteiras. Vindo de uma morna ou de uma coladeira, eu posso mexer com o ritmo, sem tirar a essência, e fazer inovações.

 

EXP. - Há pessoas que temem que o Bau se disperse por demasiadas experiências...

 

B. - Não acho que corra esse perigo. Sigo a mesma linha de sempre e não vou fugir dela. A questão para mim é a inovação, pois é uma parte importante da vida. Para mim, trata-se de expandir a música de Cabo Verde.

 

EXP. - Sabemos do seu gosto pelo Al di Meola e o Stéphane Grapelli. Que outros músicos aprecia particularmente?

 

B. - O Jean-Luc Ponty e o Didier Lockwood, por exemplo.

 

EXP. - Se gosta tanto de violinistas - e sabemos também quanto aprecia o Travadinha - porque não recorreu a um violinista neste álbum?

 

B. - Porque queria deixar o violino para um outro projecto que tenho, só com violinos.

 

EXP. - Já falou aqui de dois projectos diferentes: um com canções e outro com violinos...

 

B. - Tenho vários projectos na cabeça, mas só quero avançar para eles no tempo certo e com as condições necessárias. Quero realizar isso tudo devagar, conforme as possibilidades.

 

EXP. - Mas qual é o seu projecto prioritário, neste momento?

 

B. - Francamente não sei. Depende muito do momento.

 

EXP. - E nunca pensou em nenhum projecto com fado?

 

B. - Gosto muito de fado. Dos guitarristas do fado, e em primeiro lugar do Carlos Paredes, mas também do fado cantado. Amália Rodrigues, Dulce Pontes... Em espectáculos já tenho feito alguns números com fadistas, mas nunca pensei em gravar nada disso, confesso.

Entrevista de JORGE LIMA ALVES

 

Beto Dias  «Um dia regressarei para Cabo Verde, porque é aqui que eu quero morrer»

 12/03/2005

Beto Dias está em Cabo Verde para espectáculos de apresentação do seu mais novo CD - «Quasi Perfetu». Um disco que o próprio cantor, natural do Tarrafal (Santiago), considera o melhor da sua carreira, iniciada na década de 90, na Holanda, com o grupo Rabelados. Nesta entrevista a ‘A Semana Online’, Beto Dias relata o seu percurso musical, fala da sua vida como emigrante, do amor pela sua mãe e por Cabo Verde e confessa-se pouco à vontade com o título de cantor romântico que canções como «Ki Vida», «Dor di Amor», «Nos 2» e «Um olhar é suficiente» ajudaram a construir.

 

- Beto, a maioria dos êxitos da sua carreira a solo são baladas românticas, músicas que falam sempre de amor. Consideras-te um cantor romântico?

- Bem, eu não me vejo como um cantor romântico, mas, de tanto ouvir as pessoas a citarem-me como cantor romântico, estou a começar a acreditar que sou. Nas minhas músicas falo muito do amor, mas não é porque eu seja romântico (risos).

 

- E de onde nasce tantas inspiração para escrever essas baladas?

- Algumas delas, talvez 50 %, são as minhas próprias experiências de vida, mas outras são baseadas na minha imaginação, para que as letras fiquem mais dramáticas e bonitas.

 

- Estás em Cabo Verde para espectáculos de promoção do teu mais recente disco - «Quasi Perfetu». Li numa entrevista que deste no ano passado, por ocasião do lançamento desse disco, que este é o teu melhor trabalho. Porquê?

- Normalmente afirma-se que o mais recente disco é sempre o melhor de todos para chamar a atenção do público e despertar a curiosidade e desejo de ouvir o CD. Mas, no caso de «Quasi Perfetu», considero que é realmente o meu melhor disco de sempre porque houve uma grande entrega ao trabalho tanto da minha parte como dos músicos que me acompanharam. Fomos o mais profissional que sabemos e podemos ser, com mais cuidado e mais dedicação.

 

- A reacção do público tem mostrado que valeu a pena essa entrega?

- Sim, a reacção está a ser muito boa. Estive em Portugal e muitas pessoas confessaram-me que consideram «Quasi Perfetu» como o meu melhor disco.

- E em Cabo Verde, como está a ser recebido o seu disco?

- Olha, ainda só fiz espectáculos em Santiago, por quatro vezes, e a reacção é muito positiva, gostei muito.

- Todas as composições desse seu mais recente trabalho são da tua autoria, tal como aconteceu nos outros dois discos a solo, «Sodadi» e «Nôs 2». Esse hábito de escrever canções nasceu junto com o costume de cantar?

- Iniciei a minha carreira musical com o grupo Rabelados, tocando viola e também, meio a brincar, a cantar, principalmente durante os ensaios e nalgumas poucas actuações. Começaram a elogiar-me, dizendo que eu tinha jeito para cantar, então pensei: «bem, se levo jeito para cantar, vou tentar também escrever as minhas próprias músicas, pois nada melhor do que cantar as minhas próprias composições». De modo que, desde o meu primeiro CD a solo, «Sodadi», canto só músicas da minha autoria.

- É mais fácil cantares as tuas composições do que as de outras pessoas?

- Sim, muito mais fácil, porque não tenho que ficar preocupado com a reacção do autor da música, uma vez que pode acontecer eu não cantar a música como o compositor gosta.

- Disseste que começaste a tua carreira com o grupo Rabelados e com eles gravaste dois CDs - «Unidadi e Luta» e «Sukuro». Como nasceu esse conjunto?

- O grupo Rabelados já existia quando fui convidado a fazer parte dele. Foi um grupo onde sempre existiu muita amizade e harmonia e até hoje sinto falta desse ambiente em que convivíamos.

 

- Agora, cada um dos elementos do grupo - por exemplo Menu Pecha, Suzanna Lubrano e tu também - , está a desenvolver carreiras a solo e o grupo está desactivado. Existe hipótese de voltarem a tocar juntos?

- O grupo separou-se há alguns anos, mas não foi com intenção de ser definitivo. Parámos para dar oportunidade aos que queriam de lançar trabalhos discográficos a solo. Só que já se passaram muitos anos e não estamos a conseguir reunir os Rabelados outra vez. Sempre que ensaiamos o regresso, acontece algo que impede isso. Mas, tenho esperança que um dia ainda voltaremos a reunir como grupo.

- Mas, antes de fazeres parte dos Rabelados, como te relacionavas com a música?

- Como qualquer cabo-verdiano, sempre gostei muito de música. Só comecei a levar a música a sério depois que aprendi a tocar viola e a cantar. E hoje, ela é a minha vida.

- Além do amor, também já escrevestes músicas que dedicas à tua mãe. Todos nós gostamos da nossa mãe, mas, no teu caso, porquê escrever canções sobre e para a tua mãe?

- Escrever músicas para a minha mãe foi a forma mais simples e mais eficaz que descobri de poder fazer algo por ela. Eu gostaria de dar tudo para a minha mãe, mas, infelizmente, não consigo dar-lhe tudo o que sonhei. Por isso, através da música demonstro todo o amor que tenho por ela.

- Pensas que se não tivesses emigrado, terias feito uma carreira de sucesso como até agora?

- Creio que seria mais difícil porque, há uns anos, Cabo Verde não tinha nenhum estúdio de gravação e na Europa há melhores condições, daí que ali eu tive mais sorte. Mas Cabo Verde é a minha base musical, com a música tradicional, como morna e coladeira, que eu gostaria de cantar mas não sei.

- O que te fez emigrar, o desejo de conhecer o mundo ou a busca de uma vida melhor do que aquela que tinhas aqui em Cabo Verde?

- A ida para a Holanda não foi escolha minha. O meu pai vivia lá e eu com a minha mãe em Cabo Verde. Ele queria que eu fosse estudar na Holanda, por isso fui. Nunca foi meu desejo deixar Cabo Verde para conhecer o mundo.

- Foi difícil deixares Cabo Verde e a tua mãe, em especial?

- Sim, no início foi muito difícil e senti muita vontade nos primeiros meses de regressar para Cabo Verde, pois sentia muitas saudades da minha mãe e dos meus irmãos que tinham ficado cá.

- Hoje, fazes a tua vida completamente na Holanda. É teu sonho, como acontece com muitos emigrantes, regressar um dia para viver na terra natal?

- Sim, tenho fé que um dia regressarei para Cabo Verde, porque é aqui que eu quero morrer.

- Surpreendeu-te a reacção do público quando lançaste o teu primeiro CD a solo?

- Sim, completamente, foi incrível. Não esperava mesmo ser tão bem recebido. Fiz esse trabalho com muita dedicação, com muito respeito pela música e pelas letras. Fiz aquilo que achei que devia fazer, mas mesmo assim, surpreendi-me com a boa reacção do público, não só de Cabo Verde, como de outros países como Angola e Moçambique.

- Sabe, estagiei na RDP-África, logo após concluir os meus estudos universitários e lembro-me que algumas pessoas telefonavam a reclamar que a rádio passava muita música cabo-verdiana, mas pouca dos outros países africanos de expressão lusófona. Na tua opinião, porque será que isso acontece? O que a nossa música tem e que as outras não possuem?

- Talvez devido à nossa vivência em Cabo Verde. Pode ser um país pobre, mas é uma terra que nunca teve guerra e a nossa música transmite essa paz e essa alegria de viver e o amor incondicional pela terra natal. Gosto da música dos outros países africanos, mas Cabo Verde é especial. É algo que não consigo explicar, mas que sinto bem forte no meu coração quando oiço uma morna, uma coladeira, um funaná ou qualquer outro género musical cabo-verdiano.

- Já que falaste nisso, não te passa pela cabeça um dia gravar mornas ou coladeiras, por exemplo?

- Não... Gosto muito de morna e coladeira, mas sinto que não sou a pessoa ideal para cantar profissionalmente esses estilos de música. Faço músicas slow, mas não são mornas nem coladeiras, mas uma fusão de vários estilos.

- Mas, nem mesmo a brincar, no meio dos amigos, numa situação informal, não cantas mornas e coladeiras?

- Há muitas mornas de que gosto muito, como aquelas que o Mirri Lobo canta, mas canto-as só para mim.

- Que cantores e músicos foram influências ou referências importantes para ti?

- Sem dúvida, desde o início da minha carreira, Norberto Tavares foi a principal influência e referência. Sempre que oiço a sua música, aprecio bastante o seu jeito de cantar e tocar, as letras que ele escreve...

- Vês Cabo Verde, e particularmente o interior da ilha de Santiago, quando escutas a música do Norberto Tavares?

- Sim, vejo a minha terra e sinto-me feliz.

- Não sei de estás a par disso, mas tem havido ao longo dos anos uma discussão sobre o que é e o que não é música cabo-verdiana. Tu, particularmente, já foste criticado e a tua música foi considerada como não cabo-verdiana?

- Sim. Muitos dos artistas que só tocam música tradicional afirmam que a nova geração está a estragar a música da nossa terra. Mas não concordo. É bom termos artistas que fazem a música tradicional, mas também é bom que haja novas músicas, novos estilos. A verdade, no entanto, é que mesmo a música que é considerada tradicional tem influências, nomeadamente do Brasil, daí que não é 100 % cabo-verdiano, puro. Da mesma forma que há pessoas de diferentes raças, que se juntam e dão origem a uma pessoa que tem características das raças dos pais, também a música que os artistas mais jovens fazem é uma fusão de vários estilos nacionais e internacionais.

 

- E, tu, como defines a tua música?

- Canto diversos estilos, com diversas influências, como o zouk, o funaná, slow. Mas, garanto que nunca farei um CD só com zouk.  

 

- De todas as composições que já escreveste, qual delas é a mais importante?

- Bem, em princípio creio que todas elas são importantes (risos). Olha, gosto muito das músicas do meu primeiro CD a solo, entre elas «Paraíso», «Sin sabeba». Mas, com certeza, as músicas que fiz para a minha mãe e sobre Cabo Verde são as mais importantes porque falam do meu amor por ela e pela minha terra. As músicas do CD «Nôs 2» têm também o seu lugar especial.

 

- Como vives Cabo Verde, sendo um emigrante lá na Europa?

- Viver lá fora faz com que Cabo Verde seja cada vez mais especial para mim e dou mais valor à terra que me viu nascer. Por isso, sempre que tenho oportunidade de voltar, não penso duas vezes e venho logo.

 

- Há um ditado que diz que «santo da casa não faz milagre». Pergunto-te, por isso, as pessoas lá da tua zona, no Tarrafal, reconhecem-te como um artista de sucesso, gostam da tua música?

- Sempre que vou a Tarrafal, mas propriamente a Ribeira da Prata, onde nasci, sou muito bem acolhido, as pessoas gostam da minha música porque entendem o que eu canto e o que sinto. Daí que todos os nossos encontros são cheios de emoção.

 

- Além da música, de que forma é que vives Cabo Verde lá na Holanda?

- Felizmente, em Roterdão, há muitos cabo-verdianos, que moram perto uns dos outros e encontramos para fazer desporto, música, frequentamos a casa uns dos outros e nessas ocasiões comemos pratos típicos de Cabo Verde.

 

BOY GE MENDES DE VOLTA À TERRA: “SE ME CONSIDERAM UM HOMEM CHARMOSO SÓ ME RESTA AGRADECER E PRESERVAR ESTE CHARME”

http://www.expressodasilhas.sapo.cv/noticias/detail/id/3011/

Gerard Mendes mais conhecido por Boy Gé Mendes nascido em Dakar é filho de pais cabo-verdianos. Na década de 70 iniciou uma carreira musical brilhante com o grupo Cabo Verde Show. Mais tarde, juntamente com o irmão Jean Claude formou os "Mendes e Mendes". De seguida uma aposta a solo fez dele um artista conceituado. Boy Gé esteve em Cabo Verde onde brindou a cidade da Praia com um magnífico espectáculo em homenagem às mulheres cabo-verdianas. Com o seu estilo inconfundível, charme, glamour e performance no palco Gé mostrou que realmente sabe maravilhar o público.

Quem é o Gerard Mendes?
GM
- Gerard Mendes é filho de cabo-verdiano que nasceu em Dakar e com 16 anos enveredou pelo mundo da música, no Senegal com influência musicais estilo Rock, Pop Music, Afro Pop Music, fusão de músicas latinas e mais tarde o estilo Bossa Nova e dez anos mais tarde, quando estava a viver em França pegou na música cabo-verdiana, juntamente com o Manu Lima e Luís Silva. Lá decidimos formar um conjunto, já que naquela altura havia mais crioulos em França; dos encontros decidimos criar o grupo Cabo Verde Show. Foi nesse grupo que tive a minha primeira experiência com a música cabo-verdiana. E Cabo Verde Show foi um inovador no panorama musical de Cabo-verdiano.

Porque lhe chamam Boy Gé?
GM
- O meu pai não gostava que me chamassem assim. Todos iam à minha procura perguntavam por Boy Gé, o me pai dizia que não tinha nenhum filho com esse nome. É que em Dakar há esse hábito de chamar os amigos por boy, brother, e este Gé é diminutivo de Gerard que é o meu nome. E como todos passaram a chamar-me assim adoptei esse nome como um nick name, embora eu goste muito do meu nome, achei que esse nome também podia servir como o meu nome artístico.

O que o levou a interessar-se pela música de Cabo Verde, já que se passaram dez anos?
GM
- O facto de estar juntamente com cabo-verdianos já o interesse cresce. Em Dakar praticamente, não convivia com cabo-verdianos.

Cabo Verde Show fez muito sucesso na década de 70, 80 e ainda é um grupo de referência na música de Cabo Verde.
GM
- Cabo Verde Show foi um grupo muito querido formado em França. Não havia quem não gostasse dos Cabo Verde Show, os nossos espectáculos eram vividos com muito entusiasmo. Infelizmente foram apenas três anos.

Por que se deu a ruptura?
Naquela altura eram praticamente festas. Mas eu quis convencer os outros elementos que deveríamos juntar para realizar grandes concertos, eles eram de opinião contrária e eu resolvi fazer o meu caminho, porque achei que deveríamos dar saltos mais altos, porque já tínhamos participado em muitos bailes e já era tempo de pensar no futuro, se temos uma mensagem para o povo devemos levá-las à todos lugares porque a vida de bailes é restrita.

Acredita que teve uma visão mais aberta?
GM
- Até hoje eles concordam que realmente eu estava certo. Afinal tudo tem o seu tempo. A idade e os tempos mudam, por essa razão o modo de ver a vida também deve acompanhar o tempo.

A seguir juntamente com o irmão formou o grupo Mendes e Mendes.
GM
- Esse grupo ainda contou com alguns elementos do grupo Cabo Verde Show como o Manu Lima, outros músicos também participaram com algumas músicas. Mendes e Mendes permaneceu de 81 a 83, e mais tarde em 87 lancei um disco a solo embora poucas pessoas o conheceu. A partir desta data parei um pouco porque quis pensar, inovar a minha carreira. E foi assim que em 99 numa carreira a solo, abri as portas para o género musical cabo-verdiano em França, com a música "Grito di bó Fidje". As músicas destacaram e fizeram sucesso nos programas musicais e foi assim que muitas outras portas se abriram. Este trabalho foi feito com a intenção de que um dia a nossa música fosse conhecida, não só a música cabo-verdiana, mas também a música africana. Eu sempre achei que tudo tinha o seu tempo certo.

Define-se como um cabo-verdiano ou senegalês?
GM
- Sempre me fazem esta pergunta. Dentro de mim tenho sangue de Assomada, Fogo, São Vicente, Boa Vista e claro nunca poderei negar o meu lado cabo-verdiano. Mas eu digo sempre que gostaria de ter nascido aqui. Mas, gosto muito do Senegal e que foi lá que aprendi tudo, mas o lado cabo-verdiano permanece em mim. O DNA que se encontra no meu corpo é impossível tirar.


Quanto CDs já lançou e qual deles teve mais sucesso?
GM
- Nove CDs. Mas os que mais me marcaram foram Lagoa e Noite de Morabeza.


Porquê?
GM
- Retratam uma época da minha vida mais tranquila. Nesta altura fiz uma pequena pausa, vim a Cabo Verde conhecer as minhas verdadeiras raízes. Achei que devia vir por minha iniciativa própria, penso que não devemos estar num local só quando formos chamados para actuar. E assim fiz. Vim para Cabo Verde conheci quase todas as ilhas de Cabo Verde, conheci muitos familiares. Foi uma experiência bonita e que deixou muitas saudades.

Além de vocalista é conhecido também como grande guitarrista e que ultimamente tem actuado com a Sara Tavares.
GM
- Eu me considero um músico, não digo que sou um grande guitarrista, mas digo que eu conheço muito bem a linguagem musical. Na verdade tenho actuado com a Sara Tavares. A Sara convidou-me a participar no seu álbum há dois anos, fizemos um dueto juntos e mais tarde encontramo-nos em Lisboa e ela disse-me que estava à procura de um guitarrista, se eu poderia indicar-lhe um, disse-lhe dos que conhecia, tanto em Cabo Verde como nos Estados Unidos e depois eu disse-lhe que estava ali e caso ela precisasse eu estaria com ela, mas ela disse que me respeitaria e por isso não me pediria isso e dois meses depois e ela encontramo-nos de novo e ela disse que se eu não me importava e se eu estivesse de acordo íamos trabalhar juntos e sempre estive nas suas digressões e sempre me sinto sua convidada. Há alguns temas que interpretamos juntos, há outras que interpreto sozinho para maravilhar o público. Esta experiência está a ser muito boa. A Sara tem um lado humano que me surpreende, ela é uma artista modesta. Estamos sempre a agradecer um ao outro por essa experiência fantástica.

Muitos fãs queixam-se da ausência de Gerard Mendes nos palcos cabo-verdianos. A que se deve essa ausência? Falta de convites?
GM
- É uma realidade. Eu tenho a minha maneira de ser, as condições que eu peço é que muitas vezes não são sempre bem aceites.

Dê exemplos?
GM
- O tratamento, que inclui a hospedagem, o material de som, fazer o check-sound na hora marcada etc, tudo o que um artista merece. No mundo da música defrontamo-nos com muitos problemas, recusam os cachet solicitados, argumentando que o artista não tem um disco novo por apresentar, mas eu sou de opinião que não é preciso actuar somente quando temos discos novos no mercado. Eu já tenho uma carreira feita, não é um disco novo que vai determinar se devo ou não ser convidado para actuar ou mesmo pôr em causa a qualidade do espectáculo. Estou nestas andanças há trinta e tal anos. Às vezes, também, acho que a minha onda, a minha maneira de tocar, actuar não é para todos os palcos. Oiço artistas a reclamar que não foram convidados para festivais. Acontece que quando se é convidado no dia do show não se encontra boa qualidade de som, a pessoa até pode receber um bom cachet, mas o espectáculo pode correr mal, por essa razão prefiro um lugar mais aconchegante, mais confortável onde as pessoas poderão descobrir quem é o Boy Gé, não é preciso estar em grandes palcos para se sentir bem. Eu quero é ter todas as condições, mesmo que seja num palco pequeno. Com todas as condições estou sempre presente, onde me convidam. Como também posso até aparecer num lugar e actuar de alma, sem receber nada em troca.

E no teu caso tem havido convites?
GM
- Tem havido sim, mas são poucos, mas não me estou a queixar. Nos festivais como Gambôa e Baia sou de opinião que deveriam fazer dois ou três palcos, um palco mais relax, mais soft para que quando num momento de pausa, descontracção haja alternativas para pessoas que queiram estar num outro ambiente. Perguntou-me se sou pouco convidado aqui respondo que sim, às vezes convidam os Cabo Verde Show e querem que eu venha junto, mas não chamam o Boy Gé e a sua banda. Outros convites têm aparecido, mas com muitas limitações. Por exemplo, querem o Boy Gé, mas sem a sua banda, o que é complicado porque encontramos músicos aqui, mas muitos não têm tempo para ensaiar, eu acho que devem apostar num artista banda acompanhado da sua banda. Sei que é mais dispendioso, mas há muita diferença.

Diante desta resposta pode-se dizer que Gerard Mendes é um artista exigente?
GM
- Hoje a nossa música é reconhecida pelo mundo inteiro. Quando os nossos artistas saem fora de Cabo Verde são sempre bem recebidos. Aqui também, devemos ser bem recebidos. Eu acho que não é uma exigência, mas sim reconhecimento do nosso trabalho.

Está em Cabo Verde para promover um espectáculo em homenagem à mulher cabo-verdiana. Como é que se sente?
GM
- Estou feliz e optimista em relação ao show porque sou de opinião que tudo o que tem as mãos das mulheres corre sempre bem. E, estou preparado para oferecer uma noite fantástica para as nossas mulheres e por essa razão escolhi um repertório em função desta data e todas as músicas serão dedicadas a elas.

Gerard Mendes é muito elogiado pelas mulheres que o consideram um homem, bonito e muito charmoso. Comentários?
GM
-Sempre que dizem que sou charmoso ou que falam de beleza na generalidade digo que não há pessoas feias, em primeiro lugar considero que a beleza é uma questão relativa, para mim de belo é aquilo que a pessoa é ou tem por dentro, as suas qualidades e virtudes. Um dia, disseram-me que eu, a minha guitarra e o meu charme é tudo e respondi-lhes que isso não é suficiente. Se me consideram um homem bonito, charmoso só tenho a agradecer e preservar este charme, dizendo thank you, e retribuo fazendo o que de melhor sei fazer que é fazê-las feliz. Afinal, nós os músicos, somos condenados até ao fim, porque se estivermos a fazer uma carreira musical não temos reforma. Eu, sempre digo que se Deus me der saúde com todos os meus dentes eu cantarei até o dia em que eu morrer. Eu quero sempre manter este espírito jovem e partilhá-los com todos.

 Quanto às mulheres desejo um feliz dia, desejo-lhes que elas sejam muito felizes e que lutem pelas suas felicidades, e que sejam mais ousadas, em tudo. Que não tenham receio de descobrir novos caminhos.

5-4-2008, 09:25:41 Expresso das Ilhas

 

Boy Gé “É aqui (Cabo Verde) que me sinto completo”.       

http://asemana.cv/article.php3?id_article=10749  23-07-05    

 

Boy Gé Mendes «À música me dedicarei até aos meus últimos dias»

 

Em 1952, nascia em Dacar (Senegal), filho de pais cabo-verdianos, Gérard Mendes, aquele que viria a ser, cerca de 20 anos depois, um dos rostos da “revolução” protagonizada pelo lendário Cabo Verde Show, conjunto que coleccionou hits ao fundir a música cabo-verdiana com ritmos africanos, europeus e latino-americanos. Em 1990, Gérard arrisca-se numa carreira a solo.

 

Ao fazê-lo, transforma-se em Boy Gé Mendes e edita «Grito di bo fidje» que é, sem dúvida, um dos melhores discos da história da música cabo-verdiana. Hoje, após discos como Di Oro, Lagoa e Noites de Morabeza, navega na onda jazz, cultivando um estilo suave e intimista que conquista público dos 20 aos 50 anos nos quatro cantos do mundo.

 

- Como descobriu a sua paixão pela música?

 

 Creio que essa paixão vem desde a minha concepção. Venho de uma família de músicos, os meus dois tios cantavam e um dos meus avôs tocava rabeca, por isso acho que, desde que estava na barriga da minha mãe, estava destinado a ser músico. Depois de nascer, o meu interesse pela música foi crescendo pouco a pouco. Aos 9/10 anos já participava em festivais escolares lá em Dacar, Senegal, onde nasci, como deve saber. Nessa época apenas cantava. Mais tarde peguei então na viola.

 

 Aprendeu sozinho ou teve algum professor?

 

 Não, tive dois professores, um guineense e um senegalês. Sempre que tinha um intervalo entre as aulas, sentava-me com eles para ensinarem-me a tocar. Sentavam-nos numa praça e naqueles cinco ou dez minutos de folga mostravam-me como pegar na viola, os acordes, as notas ... Assim comecei a traçar a minha carreira de músico.

 

- Algum dia pensou em seguir outra profissão?

 

 Eu estudava para ser enfermeiro. Então, com a idade de 16 anos saí de Dacar e fui para França. Foi ali que senti mais forte o apelo da música. Naquele período eu estava mais na onda pop dos Beatles, The Stones e outros grupos. Ouvíamos então pouca música cabo-verdiana em Dacar, o máximo eram os 15/20 minutos que davam na rádio.

 

 Quando foi que se deu a aproximação à música cabo-verdiana?

 

 Foi em França, onde conheci o Luís Silva, e outros rapazes cabo-verdianos que viviam lá. Foi ele, o Luís Silva que juntou Manu Lima, eu e outros crioulos para formar o Cabo Verde Show. A ideia era tocar em bailes para animar a comunidade cabo-verdiana ali residente.

 

 Mas antes, Boy Gé fez parte de outros grupos musicais, por exemplo The Beryl’s?

 

 Sim, fiz parte de grupos da minha escola e do bairro onde residia, mas tocavamos outros estilos de música em festivais e eventos diversos. Quando formamos o Cabo Verde Show criamos uma outra linha musical, que deu origem a um estilo diferente.

 

- Há três anos, se não me falha a memória, entrevistei o Manu Lima, e ele dizia então que as pessoas entranharam a vossa música, nem todos a consideravam música cabo-verdiana. Que recordações Boy Gé guarda deste aspecto?

 

 Sabe, nós, que formávamos o Cabo Verde Show nessa época, nascemos todos em Dacar. Não fomos criados na tradição da morna e coladeira. Eu gosto imenso dessa tradição, bebo dela. Mas faço a minha fusão, isto é, junto todas as minhas influências e faço a minha alquimia dentro de mim. De facto, quando começamos a tocar havia uns que diziam que o que cantavamos e tocavamos não era música cabo-verdiana, era sim africana, senegalesa ... Mas acabamos por conquistar a admiração das pessoas e até hoje o trabalho do Cabo Verde Show é admirado. Atenção, estou a falar do Cabo Verde Show de 1979, com Manu Lima, Luís Silva, eu e o meu irmão, Mário S. Monteiro, porque desde então houve mudanças no grupo.

 

 Vocês sentiam que estavam a criar algo novo na música de Cabo Verde?

 

 Sim. Sabe, naquela época, inclusive em Dacar, estava na moda os géneros latino-americanos, cumbia, salsa, merengue. Estilos que influenciaram bastante a nossa música. Fizemos então uma fusão de todas as nossas influências, introduzimos alguns instrumentos que antes não eram usados pelos músicos cabo-verdianos. Naquela altura, a música de Cabo Verde era interpretada com duas ou três violas e uma rabeca, mas no Cabo Verde Show usávamos teclados, guitarra, bateria, baixo.

 

 E quando foi que se deu a primeira actuação do Cabo Verde Show no território nacional?

 

 Eu não pude vir naquela altura, mas o resto do grupo veio, creio eu, em 1981 ou 82. Eu não fiz parte do “pacote”. A primeira vez que vim tocar em Cabo Verde foi no ano de 1994, já com outra formação musical. Fiz parte do Cabo Verde Show entre 1978 e 1982.

 

 Porque se deu a separação entre si e o resto do grupo?

 

 Bem, o Cabo Verde Show era como uma família. Tal como acontece com tantas famílias por este mundo fora, chegou um momento em que as coisas já não corriam bem e aconteceu o divórcio. Eu escolhi seguir uma linha mais minha. Cultivei um estilo que está dentro da onda jazz, mais suave e intimista. Foi depois dessa rompimento que surgiu o Boy Gé Mendes, mais ou menos em 1990. Esse “Boy” ....

 

 Tem uma história, não é?

 

 Sim, é uma alcunha da juventude mas, sabe, o meu pai não gostava desse apelido. Quando os meus amigos iam à nossa casa procurar-me e perguntavam “Boy Gé está?”, o meu pai respondia: «eu não conheço nenhum Boy». Para ele eu era sempre o Gérard Mendes. Adoptei essa alcunha porque recorda-me a minha juventude.

 

 A mudança de nome significou inovação no estilo de música também?

 

 Esse alcunha identifica-se com o meu estilo de música e a minha maneira de ser.

 

 Fala mais ao seu íntimo?

 

 Sim, é mais eu.

 

 E como tem corrido essa carreira a solo?

 

 A carreira a solo é mais fácil porque, dentre outras vantagens, permite-nos tocar com músicos de várias partes do mundo, pois não tenho uma banda fixa. Em cada ocasião, posso escolher músicos diferentes para tocar comigo. Isso dá-me a possibilidade de criar momentos ricos porque cada grupo de músico que me acompanha permite-me tocar uma música de formas diferentes. Isso enriquece a minha música.

 

 Sente que o povo cabo-verdiano gosta, entende a sua música, ou ainda está muito apegado ao tradicional?

 

 Acho que há gosto para tudo. Eu gosto dos géneros tradicionais. Quando estou em casa, oiço bastante música tradicional de Cabo Verde. Bau, Paulino Vieira, tudo o que é bom. Há quem goste da linha zouk, e posso dizer que dentro desse estilo há trabalhos bem feitos, de muita qualidade. Também temos o estilo Cabo Verde Show, que é um pouco mais africanizado. Quanto à minha música, observo que tenho um público que vai dos 20 aos 30 anos. Recentemente, fiz concertos nos Estados Unidos da América e fiquei surpreendido com a recepção da juventude. Receberam-me muito bem, parabenizaram-me e incentivaram-me a continuar. Quando é assim, eu sinto-me com mais força para continuar.

 

 Nestes anos todos na estrada musical, o que lhe marcou mais?

 

 O disco «Grito di bo fidje, lançado em 1990, foi muito importante para mim, assim como «Lagoa», «Noites de Morabeza», «Di Oro». Ou seja, cada álbum constitui um momento grande para mim. Hoje, cheguei a um ponto da minha carreira que me permite afirmar com certeza que sou músico de corpo e alma e que à música me dedicarei até aos meus últimos dias. Há momentos em que estamos no topo, mas temos que recordar que o sucesso é como uma pirâmide, assim como um dia estamos lá em cima, outro dia estamos cá em baixo.

 

 Para quando um disco novo?

 

 Tenho a intenção de reeditar o CD «Di Oro», de 1996, e que até hoje faz muito sucesso. E continuarei dentro da linha «Noites de Morabeza» e «Lagoa», bem jazz, bem acústico.

 

 Boy Gé Mendes vive em França, onde faz da música o seu ganha-pão. Estando lá fora, como vive Cabo Verde?

 

- Quando o meu avô esteve no Senegal, era eu ainda uma criança, ele contava-nos muitas histórias de Cabo Verde. Então, já adulto, decidi que um dia viria viver em Cabo Verde. Não viria apenas passar os habituais dez dias, mas traria as minhas malas e ficaria por cá por um bom tempo. Assim fiz. O disco «Noites de Morabeza» é fruto dessa estadia em Cabo Verde. Conheço todas as ilhas, excepto Brava e S. Nicolau. De modo que, vivendo no estrangeiro, sinto sempre muitas saudades de Cabo Verde. Há três anos que não vinha ao país. E quando finalmente voltei, nestes dias de Julho, senti-me muito feliz. Então, disse para mim mesmo: «Gé, acho que é aqui que um dia vais morar definitivamente». Sabe, já andei por toda a Europa, mas é aqui que eu me sinto completo.

 

Carlos Matos: entrevista com Liberal online

Liberal Online - Cultura e Lazer
CARLOS MATOS LANÇA “CABOVERDIANISMO"
Edição de 28-04-2006

É mais um trabalho de colaboração - Rádio Atlântico e Liberal – que permite aos nossos
leitores deliciarem-se com Carlos Matos, músico cabo-verdiano residente em Roterdão que
acaba de lançar o seu primeiro trabalho a solo -“Caboverdianismo” -, em homenagem a Duca
de Nhô Pitra que conseguiu incutir nele o gosto pela música. Vale a pena conhecer este
músico e, sobretudo, ouvir a sua música.

O PERCURSO DO MÚSICO
Carlos Matos nasceu a 1 de Fevereiro de 1972 em Roterdão. É descendente de família de
músicos. Ainda criança já mostrava interesse e amor pela música. Os seus brinquedos
preferidos foram sempre instrumentos musicais. Em 1990 participa no “Concurso de Órgão
de Yamaha” e classifica-se em primeiro lugar. Em 1992 termina a escola secundária e, no mesmo ano, fez audição no Conservatório de Roterdão, tendo conseguido aprovação, acabando por cursar em piano durante cinco anos. Carlos Matos participou em vários grupos como ‘Koladance’ e ‘Rabelados’. Neste último realizou um projecto musical intitulado ‘Sukuru’ que foi nomeado o melhor álbum do ano no “Festival da Gambôa 95”. Acompanhou vários artistas cabo-verdianos de renome. Já com seu grupo “Carlos Matos Band” acompanhou artistas como Ildo Lobo, Luís Morais, Manuel d’Novas (Dunya on stage de Doelen 1998), Titina (1998 tour ‘Zee van tranen’, TV program Han Reiziger, New Morning), Américo Brito em Amsterdão,Tito Paris (Cabo Verde Music Award 2001), Mendes Brothers (Dunya festival 2003), Suzana Lubrano (Festival Mundial, Noorderslag, Reiziger in Rotterdam e Festival Gamboa 2004).
O seu primeiro trabalho a solo “Caboverdianismo” é uma homenagem ao tio Duca de Nhô Pitra que o incutiu o gosto pela música. Vale a pena ouvir esse excelente trabalho, com 12 faixas, soberbamente, executadas pelo autor e amigos. É um CD que não pode faltar e nenhuma discoteca pessoal.

“O MEU PAÍS FOI A FONTE DE INSPIRAÇÃO PARA ESTE TRABALHO”
Rádio Atlântico - Este é o teu primeiro trabalho a solo. Fala-nos do que te inspirou para fazer este magnífico trabalho.
Carlos Matos - O meu País foi a fonte de inspiração para este trabalho. Nasci e cresci aqui na Holanda, mas através da minha experiência em grupos como ‘Coladance’ e ‘Rabelados’ senti que tinha que fazer algo baseado na música de Cabo Verde. Neste trabalho utilizei os meus conhecimentos de Jazz, Gospel, etc., para adaptá-los a este estilo.
RA - Neste trabalho contas com a participação de vários artistas consagrados como Luís Morais, Paulino Vieira, Boy Gé Mendes...
Fala-nos dos artistas que participaram neste trabalho e o tempo que…
CM - Para além dos que mencionaste, participaram ainda Armindo Pires, António Violão, Francelino Silva, Rignald Kastaneer,
enfim, há muita gente que participou neste trabalho. Comecei a preparar esse trabalho em 2001, fazendo pesquisas e escolhendo
músicas. Felizmente que o Luís Morais participou no tema ‘Lamenta’ antes da sua morte.

“ESSE FUNANÁ LENTO É UMA FORMA DE LOUVOR A DEUS”
RA - Tens muitos temas dedicados a mulheres (Judite, Raquel, Rosa Negra...). A mulher é a tua fonte de inspiração?
CM - (Risos…) Eu vejo sobretudo a figura de mãe. Para nós, cabo-verdianos, é muito importante isso. Se pensares que muitas
mães criam sozinhas os seus filhos sem a presença dos pais, com muita luta e sacrifício. Para mim, é uma homenagem às mães
cabo-verdianas; para mim, elas têm um valor enorme.
RA - E há no teu CD um “Hosanna”…
CM – Hossana. Hossana não é nome de uma mulher. Sou um cristão praticante desde 1992. Esse funaná lento é uma forma de louvor a Deus.
RA - O que é que ser crente representa para ti enquanto pessoa e enquanto Músico?
CM - Ser crente, enquanto pessoa, reflecte em tudo o que fazes na vida. Ser crente enquanto, dá uma dimensão sobrenatural à minha música, fazendo que ela contenha uma mensagem verdadeira e pura.
RA - O título do teu CD é “CABOVERDIANISMO”. Porquê este título?
CM - O título tem a ver, como é evidente, com Cabo Verde. Com a forma como vejo a nossa música. Para muitos, a música de Cabo Verde é apenas Morna, Coladeira e Funaná. Para mim é muito mais do que isso. Eu tentei misturar estilos como o Jazz, música latina à nossa música. Para mim, esse título significa a continuidade no desenvolvimento da cultura de Cabo Verde incerida em outras culturas. Isso já está a acontecer também com outros artistas cabo-verdianos como a Mayra Andrade onde se nota uma
certa fusão da música de Cabo Verde com a brasileira ou da Sara Tavares com a de África de uma forma geral. O ponto de partida de todos nós é a raiz cabo-verdiana, os géneros existentes no País.
Tentei fazer um CD de acordo com a visão muito própria da música cabo-verdiana. Espero que através deste trabalho possa inspirar outras pessoas assim como eu também me inspirei em casos como Paulino Vieira, Boy Gé Mendes. Vejo a música como algo Universal. O título diz que tem a ver com Cabo Verde mas é um ponto de partida para o universalismo da música.

“CHICO SERRA, TUTUTA, PAULINO VIEIRA, BOY GÉ MENDES, LUÍS MORAIS… FORAM IMPORTANTES PARA DESENVOLVER A MINHA CABOVERDIANIDADE”
RA - És dos poucos cabo-verdianos que tem um curso em música, feito no Conservatório de Roterdão. Porquê essa necessidade em estudar musica?
CM - Senti necessidade para me desenvolver como músico, sobretudo aperfeiçoar o Piano, apesar de também saber tocar outros instrumentos com teclados. O conservatório permitiu-me desenvolver este talento que me foi dado por Deus.
RA – Especializaste-te em algum tipo de música?
CM - Sim, fiz uma especialidade em música latina e Jazz.
RA - Em que ano terminaste o Conservatório?
CM - Terminei em 1997, há 10 anos.
RA - E depois do curso em 1997, enveredaste pelo ensino do Piano, entraste numa Banda... conta-nos o teu percurso...
CM – Assim que terminei o curso, comecei a dar aulas numa Escola de Música e, agora, dou aulas particulares na minha casa. Fora disso, actuei com muitos artistas cabo-verdianos como Tito Paris, Boy Gé Mendes, Titina, Luís Morais, Ildo Lobo... Foi aí que ganhei experiência como pianista mesmo. Antes, nos grupos ‘Koladance’ e ‘Rabelados’, apenas tocava órgão e teclados.
RA - Admiras algum cabo-verdiano como instrumentista? No piano por exemplo?
CM - Tinha os meus pontos de referência como, Chico Serra, Tututa, Paulino Vieira, Boy Gé Mendes, Luís Morais. Eles foram importantes para desenvolver a minha caboverdianidade....
RA - Nos EUA temos um grande Jazzman, Horácio Silver. Foste influenciado também por ele?
CM - Digamos que sim, mas de forma indirecta. Ele nasceu e cresceu nos Estados Unidos e desenvolveu a sua forma de tocar o Jazz, brilhantemente, mas sinto nele pouca caboverdianidade. Mas, como é evidente, cada um exprime e desenvolve o que sente. A arte é uma coisa livre. Como por exemplo, muita gente critica os músicos cabo-verdianos que tocam zouk, dizendo que não é música de Cabo Verde, mas não considero justas essas críticas porque cada um faz o que sente e por isso não é justo estar a acusar os músicos pela sua forma escolhida para desenvolver o seu talento.
RA - Apesar do talento dos nossos artistas, acho que eles são por vezes um pouco “preguiçosos” no sentido de não explorar melhor o talento que têm, como por exemplo estudar a música na sua vertente cientifica. Está de acordo com esse reparo?
CM – Sim, mas não podemos esquecer que Cabo Verde ainda é um País do terceiro Mundo com todas as suas dificuldades, onde os artistas não têm meios como temos aqui na Europa para desenvolverem-se...
RA - Estava a pensar nos que vivem fora de Cabo Verde, aqui na Holanda por exemplo...
CM - É preciso ver que a geração dos nossos pais, às vezes não compreende que a música pode ser uma profissão como outra qualquer. Dentro dessa mentalidade pode ser que muitos não encontraram os apois necessários para desenvolver-se no campo da música...
No meu caso foi a minha escolha, mas quero dizer que os meus pais sempre me apoiaram quando decidi ir para o Conservatório. Mas nem todos podem entrar no Conservatório por várias razões. Primeiro é uma formação que sai muito caro; segundo, são cinco anos; enfim, há várias razões que podem dificultar a ida de outros artistas para a Escola de Música. No meu caso a Escola ajudou-me muito a desenvolver-me com a música de uma forma geral, através da escola comecei a tocar música latina, jazz e outros. Desta forma pude começar a ver a música como algo universal que ultrapassava a minha caboverdianidade em termos musicais. A escola permitiu juntar o mundo académico com o mundo, digamos assim, de “rua”.
RA - O teu CD lembra muito a Alma e Som de Manel de Cadinho. Mas sem um trabalho de marketing o teu trabalho corre o risco de não ser devidamente divulgado. Como pensas fazer a divulgação do teu Trabalho?
CM - Tens razão. Fiz esse trabalho para não ficar na gaveta, mas sim para dar a conhecer ao mundo em especial aos caboverdianos espalhados pelo mundo. Estou a estar formas como fazer isso.
RA – Aguardas, por exemplo, um convite dos responsáveis da Cultura em Cabo Verde para apresentares o teu excelente trabalho?
CM - Claro que se aparecesse um convite iria sem problemas para Cabo Verde. O meu País é o meu ponto de partida e uma fonte de inspiração para mim. Seria uma questão de combinarmos.
RA - Nasceste aqui na Holanda. Já sentiste o conflito entre ser cabo-verdiano e (ou) holandês?
CM - Fez-me há alguns anos antes de eu ir para Cabo Verde. Mas quando eu fui à Cabo Verde, em 1992, comecei a compreender melhor os meus pais, a minha caboverdianidade. Quando estou em Cabo Verde, as pessoas me vêem como holandês e aqui as pessoas me vêem com cabo-verdiano. Eu sinto-me sobretudo um cidadão do Mundo.

Norberto B.C. Silva
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Cármen Sousa: “Cabo Verde faz parte de mim, da minha música” http://asemana.cv/article.php3?id_article=34476 26-07-08

Cantora, compositora, senhora do seu destino musical que passou por abandonar Lisboa, onde nasceu há 26 anos, e ir viver para Londres, um dos centros da música e do mundo. Filha de emigrantes cabo-verdianos, desde cedo que o crioulo das canções lhe tem pautado o ritmo da vida. Depois de “Ess é nha Cabo Verde”, regressa com “Verdade”, tão sua que não a deixa mentir. O kriolidadi apresenta-lhe a cantora luso-caboverdiana que está a começar a conquistar a Europa.

Por: Pedro Cativelos

asemanaonline - Fale-me desta sua “Verdade”. Como a começou a imaginar, como decorreu o processo de criação...
Cármen Souza - Toda a minha música, tal como a mensagem que eu quero transmitir, vêm de um evoluir diário, desde o contacto que tenho com os meus instrumentos musicais, como o contacto com a vida e todo os desafios que aparecem e a que me proponho todos os dias.

Por isso, não foi um acaso o facto de o álbum se chamar “Verdade”, a procura do aperfeiçoamento naquilo que faço e pela verdade daquilo que sou e das minhas origens e influências é uma tarefa feita diariamente. E é-me perfeitamente natural: quando se tem a exacta noção daquilo que queremos e principalmente do que não queremos, tudo se torna mais fácil.

Foi complicado todo o processo, da criação à gravação?
O processo de gravação é sempre o expoente de todo este acumular de emoções. Tenho o privilégio de ter acesso a um estúdio próprio, e isso torna tudo mais fluído, posso gravar à hora que quero, demorar o tempo que precisar e isso é bom, porque nem sempre a inspiração aparece naquelas horas marcadas de aluguer de estúdio... Tenho também a sorte e o privilégio de trabalhar com o Theo Pascal, que tem sido um grande amigo, mentor, produtor, director musical, com quem tenho um grande à-vontade a trabalhar, e assim o processo de composição/gravação torna-se muito natural, porque a comunicação é rápida e eficaz e as
letras e as notas musicais complementam-se e vão evoluindo até chegar à obra final ou peça.

Depois, passada para o público durante os concertos...
A apresentação ao vivo é a fase em que me encontro neste momento, é a execução num “take” de tudo aquilo que está no disco, existe sempre a evolução em termos de arranjo, em que adicionamos outras cores, ou às vezes até tiramos cores para que a verdadeira essência de cada música transpareça, “less is more” como costumamos dizer. Mas eu sinto que a execução dos temas ao vivo, é o alicerçar e o desenvolver do tema em termos musicais e de mensagem, porque a partir dali podemos dar a cada tema uma roupagem completamente diferente. O interessante é perceber que a mensagem e os temas tocam as pessoas de maneiras completamente distintas.

Como estão a correr as coisas, neste aspecto?
As apresentações ao público têm corrido muito bem. A aceitação e o “feedback” têm sido excelentes, desde a Coreia do Sul, Inglaterra, Argélia, Irlanda, Canadá... Normalmente o que as pessoas me dizem é que gostam muito desta nova sonoridade, por ser original e fresca... e que gostam de ouvir de olhos fechados, transportando-os para Cabo Verde.

As críticas de imprensa também têm sido muito boas e encorajadoras. Tudo tem sido feito com muita calma e naturalidade, “uma casa não se faz num dia”. Por isso levo todos estes “feedbacks” como forma de crescimento e força para continuar.

Em Outubro, vou ter a oportunidade de tocar em Amesterdão e Roterdão (13 e 14 desse mês, respectivamente), que é um país onde a comunidade cabo-verdiana é muito forte, e espero poder sentir o calor de toda esta comunidade nos concertos, por isso fica já o convite a todos.

Como é a sua relação com Portugal e Cabo Verde?
Portugal é o país onde nasci e cresci, por isso tenho muitos laços não só familiares visto que a minha família está lá, muitas vezes tenho saudades do ambiente, das pessoas... Cabo Verde é o país a que sinto sempre a ligação por herança dos meus pais, pela música que me influencia, pela simplicidade, pela musicalidade do crioulo..., pelas imagens que me acompanham de todo o ambiente cabo-verdiano, a paz que me trazem essas imagens fazem-me querer lá voltar.

Londres torna a vida mais fácil, para um músico?
Eu não ando propriamente à procura de uma vida fácil, e a vida de músico, ao contrário do que muitos possam pensar, não é a vida mais fácil do mundo, porque trabalhamos muito com emoções ao mais alto nível e isso, às vezes vaza-nos um pouco. Mas Londres transporta-me para várias culturas, pela sua diversidade populacional, e transporta-me também para a cultura através da música, teatro, dança. É uma cidade que tem muita vida, e isso inspira-me, mas gosto de sentir toda essa vivacidade e depois recolher-me para a paz e o sossego.

Por isso, respondendo à pergunta, a vida de músico é facilitada devido a toda esta energia à volta da cultura, mas não é fácil a nível de mercado devido exactamente à diversidade de projectos que nascem aqui, todos os dias, e que lutam pelo seu lugar e pela exposição.

Gostaria de apresentar o seu espectáculo em Cabo Verde?
É obvio que sim, teria o maior prazer em fazê-lo. Cabo Verde faz parte de mim, faz parte da minha música. Por isso teria todo o gosto.

Como observa o aparecimento de novos nomes, como o seu, Tcheka ou o de Mayra Andrade, por exemplo, na nova música cabo-verdiana exportada para o mundo?
Eu acho que Cabo Verde e toda a sua cultura estão muito bem representados no mundo. A grande embaixatriz e responsável por isto é Cesária Évora, que levou a música cabo-verdiana pela primeira vez ao mundo. Mas esta nova geração traz frescura, traz bons compositores e músicos como Tcheka, que já tive a oportunidade de ver ao vivo, e também a Mayra, que ganhou o prémio da BBC representando a música cabo-verdiana no que de melhor tem.

E a relação desta explosão de novos nomes, com os históricos, como Cesária Évora, Bana, Titina ou Tito Paris?
Todos estes artistas históricos são a base que sempre sustentará a música cabo-verdiana, porque é a eles que todos nós, da nova geração, vamos buscar a inspiração e o autenticismo da música do nosso país.

O que é para si, a verdadeira música de Cabo Verde?
A música para ser verdadeira para os outros tem de a ser também para nós que a compomos e a tornamos viva. A verdadeira música de Cabo Verde é aquela que transporta as pessoas para o país sem elas sequer saberem onde é ou terem lá estado. A música de Cabo verde transporta o peso de toda a história e cultura, mas transporta também a simplicidade, e é memorável a capacidade de transmitir tanta história de uma maneira tão simples e tão sensível.

Qual é o seu maior sonho, de vida e de carreira?
Não me considero uma pessoa de sonhos, acho que sou mais de desafios, o meu grande desafio para o resto da minha vida, se Deus assim o permitir, é a música, que é para mim a parte mais importante, porque é através dela que me exprimo, é através dela que me sinto realizada, e sinto-me a fazer algo de bom não só para mim mas para outros, porque considero que esta é a minha missão de vida, e com ela posso ajudar outros porque a música tem o poder de curar, tocar, mover pessoas. E o que eu sinto é que quero marcar a diferença de alguma maneira, com este dom que considero divino.

Eu conheci um grande músico chamado Jay Corre, com quem tive o prazer de gravar neste álbum e me disse que, apenas, agora com 85 anos é que percebeu realmente o que é a música e o que é a vida. Por isso, sinto que a minha missão está ainda no início e tenho ainda uma vida toda pela frente...

Onde gostaria de poder chegar com a sua música?
As minhas metas são diárias, mas quero chegar ao fim dos meus dias e pensar como o Jay (que já tocou com os mais variados artistas conceituados: Ella fitzgerald, Buddy rich, já fez tours mundiais...), que mesmo quase no fim da meta ainda tenho muito para dar, ainda tenho muito para ver, descobrir...se este sentimento pela vida continuar comigo até ao resto dos meus dias, a música e o mundo estarão abertos para mim. Porque a fonte de inspiração nunca irá secar!

Pedia-lhe, algumas palavras para os leitores de A Semana.
Acho que é muito bom os cabo-verdianos espalhados pelo mundo terem acesso à informação da sua terra...por isso quero desejar muito sucesso ao A Semana. A todos os leitores desejo muita paz e sucesso para os caminhos que escolherem e que nunca percam a Verdade da sua essência.

 

Celina Pereira: 20 anos a registar a memória colectiva cabo-verdiana

http://asemana.cv/article.php3?id_article=26091 01-09-07

Em 1986, Celina Pereira lançou o LP “Força di Cretcheu”, o primeiro de uma série de discos com a recolha de músicas da tradição oral que a cantora editaria em 30 anos de carreira. Em entrevista ao asemanaonline, a artista, que também veste a pele de contadora de estórias a crianças cabo-verdiano-descendentes, relata os episódios mais importantes desse percurso e partilha os projectos que tem para o futuro.

Entrevista por: Teresa Sofia Fortes

- Faz agora 20 anos que Celina Pereira editou o LP “Força di Cretcheu”. Imaginou alguma vez que, passado esse tempo, ainda estaria ligada à música e, em particular, à pesquisa e recolha da tradição oral cabo-verdiana?

-  Não vou dizer que pensei nisso. Mas, porque a música entrou na minha vida como uma coisa natural, como o respirar, penso que a música vai estar sempre ligada à minha vida. A música está nos meus genes. Dos dois lados, pai e mãe, tenho familiares que são músicos e compositores e gente ligada à música.

- Pode dar-nos alguns exemplos?

-  Sim, o meu tio Patrício compôs uma morna muito conhecida, que é cantada pelo Kiki Lima, e é dedicada ao enfermeiro Manuel Olímpio, que fez muitas coisas na Boa Vista. Se bem te lembras, muitas figuras que tinham papel social ou cultural em Cabo Verde, tinham mornas que lhes eram dedicadas. O meu avô Porfírio escreveu um hino à Boa Vista, eu tenho a letra mas não tenho a música que ele compôs. O meu avô, que era padre, também compôs missas a três vozes, que foram cantadas pelas minhas tias. E o meu tio Ramzim compôs a morna “Boa Vista Nha Terra”, que eu gravei há 30 anos. Eu não escolhi a música, foi a música que me escolheu a mim.

- Na entrevista que me concedeu há cerca de dois anos, colocou a questão de que os produtores muitas vezes quase que obrigam os músicos a mudarem de estilo, adulterando assim o seu projecto musical. Na altura disse, mais ou menos, que nunca se iria curvar a tais exigências. Diga-me, como ou o que tem feito para não cair na tentação de curvar-se à vontade de tais produtores?

- Bem, eu sou uma mulher muito determinada e muito exigente. Não tem sido fácil, mas sou uma mulher de convicções e vou muito atrás da minha intuição. Há uma amiga minha que diz: “A intuição é uma janela por onde Deus nos manda recados”. Eu acredito nisso. Há recados que vêm a nós através da nossa intuição e aos quais temos de prestar atenção. Além disso, a minha curiosidade e a minha vontade de saber e buscar raízes e referências das nossas identidades me têm levado a pesquisar, a recolher, etc. É, de certo modo, compensatório para mim quando oiço cantoras emergentes, sobretudo, cantando temas do meu repertório. Mazurca, cantiga de casamento e outros géneros que eu gravei há 30 anos. Porque o meu trabalho de recolha e de pesquisa levou-me a cantar coisas muito antigas, de raiz, de tradição.

Quando fiz o meu LP “Força di Cretcheu” e o apresentei em São Vicente, algumas vozes disseram: “Lá vem esta mulher com essas coisas velhas”. Essas coisas velhas não têm idade, porque o património não tem idade, a memória não tem idade. Acho que é uma questão de auto-estima. Porque nós saímos de um sistema colonial e gostávamos muito pouco de nós próprios. Temos vindo a aprender a gostar de nós próprios, das nossas coisas, das cantigas de casamento de Santo Antão, das mornas de galopadas da Boa Vista, das mazurcas e de tudo isso que é parte de nós todos, não pertence a mim mas a um colectivo. Eu, simplesmente, cumpri o destino. Não vou sair da linha que escolhi porque a minha intuição não me tem deixado ficar mal. Cabo Verde é tem uma população super jovem que agora quer saber e mostrar que é cabo-verdiano e quer cantar ritmos nacionais. Por isso, cada vez mais me convenço que o caminho por mim decidido há muitos anos é aquele que tem de ser. Sim, porque nós não somos anglo-saxónicos e temos que saber aquilo que é nosso e aquilo que é dos outros.

- Quais são as etapas que cumpre durante o trabalho de pesquisa e recolha destes géneros musicais que fazem parte da nossa memória colectiva?

-  Ando sempre com um gravador atrás de mim, há muitos anos. A minha primeira fonte de informação foi a minha mãe. Até que um dia comecei a perguntar-lhe coisas que ela não sabia responder. Mas ela dizia “ fulano ou fulana de tal sabe”. E uma dessas pessoas que ela me indicou foi a D. Teresa Lopes da Silva, viúva do escritor e professor Baltasar Lopes da Silva, a quem não me canso de agradecer.

Também fui lendo até que um dia me chegou às mãos um trabalho de Luís Romano - “Cabo Verde: Renascença de uma civilização no Atlântico Médio” -, que é, para mim, o primeiro trabalho sério de antropologia de tradições orais. Mais tarde chegou-me também às mãos o trabalho da norte-americana Elsie Parsons. E o meu gravador serviu-me no Festival de Música da Smithsonian para gravar cantigas de apoio. Acho que ainda não temos um acervo que nos leve a fazer um trabalho sistemático de antropologia musical. Mas quero deixar uma nota de parabéns ao jornalista Carlos Gonçalves pelo seu livro “Cabo Verde Band”, que é uma grande obra de pesquisa e de consulta. Ainda não nos preocupamos com isso, mas precisamos ter um acervo porque é a nossa memória que está em jogo e que os nossos jovens e crianças precisam conhecer para se referirem.

- De entre os géneros musicais tradicionais cabo-verdianos que já foram objecto das suas pesquisas, quais é que já gravou? E quais é que não gravou mas gostaria?

-  Já gravei mazurca, rabolo, cantigas de casamento e cantigas de funeral, morna galopada ou morna galope, B. Leza, Eugénio Tavares, que são compositores com estruturas diferentes e com ritmos diferentes na morna. Não gravei o batuco mas há um grupo de batuco que canta num dos meus CDs. Também ainda não gravei cantiga de apoio, ladainha, nem abertura de missa, nem reza, nem bandeira.

- E tem planos para gravar estes estilos que ainda não constam do seu repertório editado?

-  Sabe, algumas coisas que têm surgido para mim não aconteceram com base em planos. Apareceram! E podem aparecer mais rapidamente em palco, nos concertos, do que em disco. Mas eu espero que apareçam.

- Além da música, Celina Pereira desenvolve desde há vários anos o projecto de contar estórias às crianças. Como nasceu?

- Contar estórias é recuperar um pouco a minha memória de infância. Na Boa Vista, a minha mãe chamava uma vizinha nossa, de São Nicolau, que vinha nos contar estórias à noite, sobretudo quando nós fazíamos “fitas” para comer. A minha mãe dizia: “Ti Júlia vem contar-vos estórias se vocês jantarem”. Ficou-me sempre na cabeça essa mulher. Muitos anos depois, quando o Travadinha morreu, alguns órgãos de comunicação social em Portugal pediram-me para fazer um depoimento sobre ele. Fiz um documento escrito, o primeiro conto meu que foi editado, isso no Jornal África. Era um conto cujo enredo se desenvolvia à volta de uma contadora de estórias que se chamava Ti Júlia, a contadora de estórias da minha infância. Esse jornal chegou a S. Vicente e o Leão Lopes, meu amigo e meu compadre disse-me um dia: “Agora tens que pôr isto num disco”. E porque esse conto, além da contadora de estórias, tinha crianças que cantavam canções, eu depois gravei o disco “Estória, Estória ... no Arquipélago das Maravilhas”. A partir dessa data, em vez de ser apenas uma contadora de estórias em disco, passei a contá-las também em sessões ao vivo. É que, logo a seguir à edição do disco, em 1991, o pessoal do Bilingual Institute de Boston convidou-me para contar estórias às crianças dos jardins-de-infância e escolas bilingues de Boston. E foi crescendo.

Contei estórias nos Estados Unidos, na Holanda, num encontro promovido pela Câmara Municipal de Roterdão. E só em 1997 é que comecei a contar estórias em Portugal, quando fui convidada para integrar o Programa de Educação Intercultural MUS-E, de inspiração do pedagogo, humanista e pensador Yehudin Menuhin. E tem sido um crescendo, pois há conferências sobre contos em todo o mundo. É um movimento sério e eu tive o prazer de conhecer um contador de estórias cabo-verdiano, que se assume como "capeverdean-american", o Len Cabral, que é um contador de estórias em todos os Estados Unidos da América, e que tem uma agenda enorme.

Em Portugal, acontecem duas conferências: “Contos Andarilhos”, em Beja, e “Contos de duas caras”, em Braga. Há três anos, estive no Convénio Internacional sobre fábulas, em Florença, intitulada “Chi Vuole Fiabe”. Também fui convidada para fazer um trabalho com crianças em Roma, a convite da Organização das Mulheres Cabo-Verdianas na Itália. Aliás, tem sido permanente a minha ida para a Itália, inclusive para fazer o mesmo género de trabalho numa colónia de férias que a Câmara Municipal de Roma promove para crianças cabo-verdiano-descendentes. Já fui convidadas duas vezes para contar-lhes estórias, pô-las a cantar e dizer frases em crioulo. Para mim tem sido um prazer desenvolver este projecto pelo seu conteúdo pedagógico e de passagem de testemunho, da memória colectiva cabo-verdiana.

- Ao longo destes anos, observou alguma mudança de atitude dessas crianças cabo-verdianas descendentes a quem tem contado estórias em relação à cultura de origem dos seus progenitores?

-  Tem sido uma experiência muito gratificante. Por exemplo, no ano passado quando fui à colónia de férias, os monitores personalizaram cada criança e disseram: ‘fulano de tal é terrível”, “fulano de tal não gosta de música cabo-verdiana”, “fulano de tal não quer falar crioulo”. Eu fiz um curso de italiano, três níveis, para poder comunicar com eles, pois sabia que eles não falavam crioulo. O que eu fiz? Recorri de estratagemas para fazer trocas com eles. Disse-lhes então: "Eu oiço um pouco de hip-hop e vocês ouvem também um pouco de música cabo-verdiana". Eles estavam loucos por ouvir hip-hop, porque os monitores não os deixavam ouvir mas queriam impingir-lhes coisas de Cabo Verde. E eu pensei: "Não, a estratégia não pode ser esta". Foi engraçado porque, finalmente, eles cantaram músicas de Cabo Verde! Escrevi os versos de “Força di Cretcheu” num quadro e fui-lhes dizendo mais ou menos o sentido dos versos em italiano. No final, estavam todos a cantar “Força di Cretcheu" comigo. Bem, eu acho que a música e os contos têm uma magia que a gente não sabe explicar. E despertam muito mais as crianças do que as coisas que lhes são impostas. É preciso encontrar a forma ou a fórmula para lhes passar as coisas. Mas há muito poucas pessoas com tempo ou apetência para fazer isso. Os pais não têm tempo, com aquela vida atribulada que levam na Europa.

- Recentemente, entrevistei João Lopes Filho, a propósito do seu último livro, intitulado "Imigrantes em terra de Emigrantes". E ele focou este aspecto: a segunda geração de cabo-verdianos que vive em Portugal não se sente nem cabo-verdiana nem portuguesa e, como escape, refugia-se na cultura dos negros dos Estados Unidos. Qual a sua visão sobre esta matéria e como pensa que o trabalho que faz nas escolas ajuda essa segunda geração a descobrir a sua identidade?

- Eu vejo esta questão com muita preocupação porque também tenho que ser realista e sentir que aquilo que eu faço ou que algumas associações tentam fazer é uma gota de água. Eu estou incluída como educadora num programa de educação europeu mas que em Portugal é pouco conhecido, pouco divulgado. Também sei que vivo num país, que é Portugal, que ainda não estabeleceu na sua política de educação programas paralelos ou específicos para escolas com população específica, com população multi-cultural e diversa. Nunca houve um programa e essa tem sido a minha batalha, pois Portugal não tem uma política de educação que contemple cabo-verdiano-descendentes ou afro-descendentes. E tem feito muito a política da avestruz, ou seja, mete a cabeça na areia e finge que não existe o problema. Não se pode deixar a resolução deste problema à mercê da carolice dos professores. Portugal como país de acolhimento teria que ter tido ou ter um programa que formasse professores especificamente para esse lado multi-cultural.

Eu vejo com muita preocupação a formação dos jovens cabo-verdiano-descendentes porque não há um programa da escola que os leve a ter referências da identidade dos seus pais. A Convenção Internacional dos Direitos da Criança diz isso, muito explicitamente: As crianças têm o direito de receber na escola referências dos seus ancestrais. São os educadores que têm de lhes levar as referências dos seus pais para eles terem elementos para se constituírem como cidadãos, como pessoas, para constituírem a sua génese.

- Mas, sabe, também em Cabo Verde o ensino sobre a cultura nacional é deficiente e tardio. Se calhar, também no nosso país é preciso um programa como deve ser.

-  Sabe, acho que os cabo-verdianos não se conhecem, infelizmente. Tendo em conta que somos um país saído de um sistema colonial e que nada nos ensinou sobre nós próprios, os responsáveis nacionais deveriam pensar e conceber um programa de educação que nos ensine sobre nós próprios, a nossa história antropológica, musical e total, desde o primário. Eu fui colonizada, por isso não aprendi nada. Mas fui atrás das coisas que queria saber. Os nossos jovens precisam saber de onde viemos para poderem saber para onde a gente vai. Eu estive em S. Vicente há dois anos, para fazer um trabalho com a Câmara Municipal de São Vicente, a convite de Isaura Gomes, e fiquei muito agradada com esta atitude que ela teve de me convidar para contar estórias e ensinar músicas aos meninos. Porque é preciso exercitar a memória deles sobre coisas de que já não se ouve falar mas que são nossas. E eu fiquei muito à espera que outras câmaras municipais ou outras entidades me convidassem para fazer o mesmo. Porque não? Esse é o meu trabalho como educadora. E algumas disseram que me iam convidar. Entretanto, já se passaram dois anos e isso não aconteceu. Eu não posso impor-me, por isso têm que me convidar para realizar esse trabalho que faço pelo meu povo, pela cultura a que pertenço, pela minha memória.

- Pensa editar mais discos de contos nos próximos tempos?

-  Neste momento, estou a preparar uma edição nova - porque está esgotado - de “Estória, Estória ... Do Tambor a Blimundo”. É uma edição mais universal e multilingue porque está em português, crioulo, inglês e francês que nesta edição, substitui o italiano. E traz uma novidade: as ilustrações são de um grande pintor moçambicano, meu amigo pessoal, o Roberto Chichorro. Espero que, até ao fim do ano, esteja cá fora. E assim, com esta edição, fica contemplada a nossa diáspora francófona, que tem reclamado porque não contemplei a língua francesa nos outros discos. Tenho também em preparação, não sei se vai acontecer tão breve, a edição de um conto que escrevi, baseado na história da ilha da Boa Vista, que tem a ver com o mar, os pescadores .... Eu gostaria também de apresentá-lo sob a forma de audio-livro. Também tenho em produção uma edição só de música, dentro daquela linha que enformou a minha carreira.

 

Celina Pereira «Não haverá nunca um produtor que me imponha um repertório»

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09/04/2005

«Uma voz a unir Cabo Verde e Portugal. Mas nem só de música se faz a sua vida. Professora de formação, desdobra-se em inúmeras actividades de pedagogia nas escolas. Aos meninos da sua terra conta e canta histórias tradicionais que lhes ensinam as raízes para não esquecer as origens». Este é o comunicado da Casa Civil do Presidente da República Portuguesa, sobre a comenda com que, em 2003, Jorge Sampaio agraciou pela primeira vez uma cabo-verdiana – Celina Pereira. Rosto de Cabo Verde nos palcos internacionais, dona de uma vasta discografia de recolha de géneros tradicionais em vias de extinção, conferencista sobre identidade cultural, mas pouco se ouve falar dela no arquipélago. Tudo isto acontece, como explica a cantora nesta entrevista ao asemanaonline, porque «de há uns anos para cá há lobbies instalados que só trazem certos nomes a Cabo Verde».

 

- Visitou Cabo Verde recentemente para realizar um programa de animação pedagógica nas escolas, jardins infantis e algumas instituições sociais de apoio à infância, cantando e contando estórias tradicionais. Tendo em conta que é a primeira vez que faz este género de actividade no país, pergunto-lhe: como correu essa primeira experiência?

 

- Sim, é a primeira vez que faço animação pedagógica em Cabo Verde. Lancei o primeiro audio-livro - «Estória, Estória ... no Arquipélago das Maravilhas», em 1990, e sempre afirmei que era um trabalho para as escolas e os educadores, pensando na educação bilingue sobretudo na Holanda e nos Estados Unidos, que abarca cabo-verdianos da segunda geração. E, finalmente uma mulher com muita sensibilidade e com um trabalho muito virado para o meio infantil, Isaura Gomes, me convidou para cantar e contar estórias e fazer com que o nosso imaginário chegue até as nossas crianças. Elas precisam receber as referências da nossa cultura, as que se estão a perder, porque há meios de comunicação que nos entra casa adentro e roubam espaço de convívio e de transmissão de carinho e afecto. Tenho recebido até manifestações de agradecimento da parte delas, o que me deixa muito confortada, porque parece até  que era uma coisa de que estavam à espera como um presente. De resto, este programa intitulei-o «Estória, Estória, Um Presente de Sonho para as Crianças de S. Vicente».

 

- Quando levará o Estória, Estória a outras ilhas?

 

- Eu levarei o programa a outras ilhas quando outras entidades me convidarem. Quaisquer entidades que me queiram convidar. Estou sempre aberta porque é o meu trabalho, a minha missão, aquilo a que me tenho dedicado há muitos anos. O primeiro Estória, Estória foi em 1990 e já me levou aos Estados Unidos, Holanda, Alemanha e ultimamente muitas vezes à Itália, a convite não só de associações cabo-verdianas mas também de entidades italianas. Como dizia o Leão Lopes no dia do lançamento do livro no Mindelo, 23 de Março, é bom que ouçamos e leiamos este audio-livro a dois, a três e a muitos porque é preciso retomar o convívio da família e em casa para que o afecto se faça à volta das memórias.

 

- Acha que aqui em Cabo Verde, esse costume de contar estórias já se perdeu irremediavelmente ou ainda vamos a tempo de recuperá-lo?

 

- Estamos sempre a tempo de recuperar. Estive há algum tempo em Itália numa conferência internacional, em Florença, sobre fábulas, intitulada «Quem quer fábulas?», com pessoas de todo o mundo. E os países do primeiro mundo estão preocupados com esta galopante globalização e o perigo que apresenta para a sua própria identidade,  tradições e raízes. Em Itália, por exemplo, há áreas da antropologia de diversas universidades que já recriaram o hábito de contar estórias e escolas que recebem contadores de estórias. Há outros países como a Holanda e a França que também já recriaram este hábito. Existe também movimentos de contadores de estórias e eu pertenço ao movimento de contadores de estórias de Portugal, que ainda é um movimento pequeno e recente, só tem cerca de seis/sete anos. Portanto, é um hábito que podemos recriar, se quisermos. Porque tem a ver com a nossa convivência, com a nossa capacidade de ser gregário e o hábito de contar estórias põe-nas em conjunto, permite um toque de afecto que hoje em dia as pessoas não recebem muito, e há um toque do olhar, que também as pessoas não recebem muito. É um hábito a recriar-se e começa-se pelas escolas, pela educação.

 

- Cabo Verde possui um espólio grande nesta área ou é preciso criar novas estórias ou recriar as que já existem?

 

- Algumas estórias têm vindo a ser recriadas por algumas escritoras – Dina Salústio, Fátima Bettencourt, Marilene Pereira -, mas penso que o nosso imaginário endémico ainda não está explorado de todo. Precisamos recuperá-lo e repegar nas estórias das nossas meninices, que é um património riquíssimo. Basta passarmos de ilha a ilha para ouvirmos versões diferentes de uma mesma estória. É uma área lindíssima e é uma pena que esteja a perder-se.

 

- Sente-se sozinha a desempenhar esta missão de contar estórias ou conhece outros contadores de estória cabo-verdianos?

 

- Eu conheço o Lalacho, que vive em Portugal, e é o único que eu conheço. Mas, em termos de contar e cantar, que é um lado muito africano – porque os griots, os contadores de estórias africanos, contam cantando -, estou um bocado sozinha. Não será muito fácil contar cantando, mas eu tenho o privilégio de ser cantora. Só o contar é já uma grande função, e não creio que pode ser feito por qualquer pessoa, é preciso ter uma certa capacidade estereofónica, dramaticidade e plasticidade, que se traduz na capacidade de usar os olhos, as mãos e todo o nosso corpo para transmitir as emoções e o conteúdo. É preciso que os professores nas escolas sintam que também podem ter esta missão, porque é nos jardins, no básico e no secundário que nós podemos começar a transmitir.

 

- Iniciou esse trabalho de contadora de estórias em 1991, nos Estados Unidos. Como surgiu essa ideia? Era um projecto que já possuía ou foi estimulada a isso?

 

- Depois de eu fazer o vinyl «Estória, Estória ... no Arquipélago das Maravilhas», fui aos Estados Unidos fazer o lançamento. Ali fui estimulada pela primeira vez a contar estórias pelos professores bilingue e contei estórias nas escolas públicas e nos liceus. Foi uma coisa espontânea em mim. A minha vida toda tem estado ligada a áreas de comunicação – a lidar com as pessoas num balcão de passageiros e sobretudo na rádio, o que me ajudou a desenvolver a minha oralidade -, mas nunca tinha pensando em fazer isso. A verdade é que depois dos Estados Unidos vieram outros convites para Itália, Holanda, França, Portugal ...

 

- Já editou dois audio-livros. Quem os compra? Os pais compram para os seus filhos ou para si próprios, para recordarem os velhos tempos, de quando eram crianças?

 

- O primeiro audio-livro só teve uma edição, pela Editora Independente, de dois mil exemplares. Não foram reeditados, o que é uma pena, mas eu sei que é usado pelos educadores. Quanto ao segundo audio-livro, que foi editado pela Tabanka Onlus, da Itália, eu sei que tem sido comprado por toda a gente. Há muitos pais que compram para eles mesmos. Há tempos, alguém veio ter comigo e disse-me: «fui comprar de propósito este audio-livro porque queria oferecê-lo à minha neta e dei-me conta de que também o queria ouvir». E ela ficou com o audio-livro em casa, e quando as crianças vão à sua casa ela fica para ouvir as estórias com elas. E se elas levam o audio-livro para outro lugar, ela manda pedir de volta. Portanto, há uma ligação afectiva com essa obra, de regresso à infância.

 

- Os seus trabalhos discográficos têm um forte pendor tradicional, pois já gravou cantigas de roda, lunduns, choros, lenga-lengas, cantigas de casamento, géneros hoje muito pouco conhecidos e interpretados. Como descobriu-os?

 

- Em primeiro lugar, devido à minha curiosidade, que me levou a fazer perguntas à minha mãe. Depois, houve pessoas mais velhas que eu procurei para me informar sobre coisas que eu queria saber, nomeadamente mazurca, contradança, lundum .... Ainda hoje ando com um gravador na minha carteira para onde quer que eu vá. E as pessoas que já sabem que ando atrás dessas coisas dizem-me: «olha, eu sei tal coisa». A diáspora também é um ponto interessante, uma espécie de laboratório de conservação das coisas. Há coisas que aprendi na Holanda, outras nos Estados Unidos. No ano em que realizaram o festival Smithsonian, em Washington, recolhi músicas cantadas por agricultores e trabalhadores de trapiche de Santo Antão e a lenga-lenga que diz «galinha branca, que anda pa casa d´gente catando gronzinho de midje». Esse trabalho de pesquisa no terreno me tem levado a buscar essas coisas, que são nossa pertença e que os mais velhos ainda as têm na memória.

 

- Sente que os que vivem no estrangeiro são muito mais ciosos desta missão de preservar as suas raízes, ou isso é um preconceito, também em Cabo Verde há essa preocupação?

 

- Acho que vivemos numa época de alguma alienação, nomeadamente em relação à nossa cultura endémica. Esta alienação já foi maior e a nossa auto-estima já esteve mais em baixo. Trinta anos após a nossa independência a nossa auto-estima está mais em cima, gostamos um bocadinho mais de nós – mas não tanto quanto nós deveríamos. Sinto entretanto que esta alienação ainda é capaz de tapar a minha voz, aquilo que eu quero mostrar. Por exemplo, os lobbies na música cabo-verdiana estão completamente montados e que não pertence a determinada corrente não aparece, não é chamado, não consta, é quase quem de propósito apagado com uma possível borracha, mas nunca se pode apagar a memória das pessoas. Existe uma espécie de lei do funil, onde, à boca do funil aparecem muitos e depois, pela parte mais estreita, só passam aqueles que pertencem ao lobby. Eu não pertenço a nenhum lobby, não quero pertencer, porque não haverá nunca um produtor que me imponha um repertório. Tem sido a minha consciência, a minha memória, a minha cabo-verdianidade, a minha cabeça universal que me leva a pensar que eu tenho uma identidade que quero mostrar ao mundo. E tem sido graças a essa identidade que eu tenho sido chamada a diversos festivais, os maiores da Europa de world music, onde cruzo com nomes enormes do mundo. As cantigas de casamento, as mornas galopadas, as mazurcas, o que quer que eu cante de diferente não pertence ao mundo comercial, ao mainstream no qual também estão os lobbies que, na música de Cabo Verde, têm tentando apagar o nome de alguns artistas. O meu eu não deixo que seja apagado. Cabo Verde é tão rico em termos de formas musicais, eu sou cabo-verdiana e eu vou continuar a levar essa música através do meu repertório. Quer os lobbies queiram ou não, estou aqui.

 

- Celina Pereira representa Cabo Verde em diversos eventos internacionais, como acabou de dizer, mas o seu trabalho é pouco conhecido em Cabo Verde. Porquê? É uma consequência do facto de viver no estrangeiro?

 

- Não, é uma consequência do que acabamos de falar. De há uns anos para cá há lobbies instalados que só trazem certos nomes a Cabo Verde, que são donos nomeadamente dos festivais. Eu não venho a festivais desde 1987, depois do lançamento do meu LP «Força di Cretcheu», que eu sempre assumi como o meu primeiro trabalho de recolha de músicas tradicionais. O meu trabalho não é visto em Cabo Verde, o país não conhece a minha maturidade como cantora, como contadora de estórias, como interventora  socio-cultural porque Cabo Verde não me convida. Mas, as autoridades cabo-verdianas, que são também responsáveis por esses festivais, sabem onde é que a Celina Pereira mora e conhecem o trabalho que faz. A compensação que os meus orixás me dão para a tristeza, a mágoa de não poder estar em Cabo Verde é talvez ser convidada para festivais internacionais. Além disso, há cabo-verdianos espalhados por todo o mundo. Da última vez que fui à Alemanha, por exemplo, houve cabo-verdianos que fizeram 600 quilómetros para irem me ouvir cantar e isso deu-me muito gozo e um imenso prazer. Não há dinheiro nenhum que pague isso. E fico à espera que Cabo Verde se lembre do meu nome, pois estou sempre disposta a fazer tudo por Cabo Verde, a minha terra.

 

- O seu último disco chama-se «Harpejos e Gorjeios». Em que aspectos este disco é singular comparado com os outros já editados?

 

- É um disco que é cantado em crioulo e português, algo que queria fazer há muito tempo. Fi-lo pela primeira vez com direcção musical de Zé Afonso, os meus outros trabalhos tiveram orquestração de Paulino Vieira. Fiz esse trabalho com a intenção de abranger um certo espaço da lusofonia, no qual nós estamos envolvidos como falantes do português, e do crioulo e para mostrar  também a continuação do meu trabalho de recolha de canções tradicionais porque há no disco uns pregões do tempo do carvão que acompanham a morna «Un vez Saocente era sabe» e a cantiga de roda «Que linda falua», que abre a morna de Eugênio Tavares «Mar Eterno». De resto há um encontro da morna e do fado na morna «Bejo de Sodade», de B. Leza, que canto com o fadista e muito querido amigo Carlos Zel, que infelizmente já não está entre nós, cantando ele em crioulo e eu em português, cumprindo assim uma certa inter-culturalidade. Também são minhas convidadas nesse CD o grupo de batuco Voz d´África, de que sou madrinha de honra. São mulheres de Santiago que moram, a maior parte delas, num bairro degradado de Lisboa, o Bairro das Marianas, e que cantam um batuco lindíssimo, prova de amor por Cabo Verde.

 

- A carreira da Celina Pereira é feita também de conferências sobre identidade cultural em diversos países, nomeadamente em Portugal, Estados Unidos, Itália, Holanda. Pergunto, em relação aos cabo-verdianos que vivem na diáspora, observa que eles amam a sua cultura nacional e preocupam-se em transmiti-la aos seus descendentes, nascidos no estrangeiro?

 

- Posso falar com mais precisão de Portugal, país onde eu vivo. E temos que prestar muita atenção ao que se passa em Portugal: as segundas gerações vivem situações de perfeita ausência em termos de informação sobre a cultura cabo-verdiana. Os pais têm vidas atarefadas - saem de casa muito cedo e chegam também muito tarde - e não têm tempo para estar com filhos. A única coisa que é transmitida é a questão da língua, mas depois, em relação a outras coisas ligadas à oralidade, a música por exemplo, a informação não chega a eles. E a informação faz parte da educação, deveria fazer parte dos programas escolares, de modo a assegurar a esses adolescentes e jovens, a transmissão dos valores da sua cultura ancestral. Na Convenção Internacional dos Direitos da Criança está claramente expresso que as crianças têm direito de receber, em qualquer país de acolhimento, e na escola, referências das culturas dos seus pais. Deveria ser obrigatório, mas não é. Há países como Portugal que não cumprem e que infelizmente ainda não têm um programa de educação que contemple essas crianças que trazem outros hábitos, cultura e língua. É uma área que me preocupa muito e gostaria muito de sentir que há uma sensibilização da parte dos governantes de Cabo Verde no sentido de exigir que os cabo-verdianos descendentes tenham programas de educação que lhes sejam destinados porque infelizmente Portugal – não estou a dizer mal, mas apenas a constatar uma realidade – está atrasado em relação a outros países da Europa também neste aspecto, cerca de 30 a 50 anos.

 

- É uma área em que Celina Pereira está envolvida através da .MUS – E de Yehudin Menuhin, realizando sessões de educação inter-cultural nas escolas. Repara que as crianças filhos de pais portugueses se aproximaram mais das africanas ou afro-descendentes depois que iniciou esse trabalho?

 

- Com certeza. Foi na escola nº 1 de Algés onde tudo começou, através de um trabalho de educação por meio da música. Essa área ainda não está muito desenvolvida em Portugal, uma experiência que já chegou apenas a algumas cidades – Évora, Leiria e Porto – por causa das escolas que têm crianças de origem cigana. Mas gostaria que fosse assumido pelo governo português para os currículos do ensino primário, básico  e secundário. Na escola nº 1 de Algés temos uma experiência de avaliação do comportamento das crianças muito positiva. Quando lá cheguei em 1997, altura em que essa escola tinha uma população multi-étnica, da qual 50% era afro-descendente, as crianças brincavam separadas no pátio, negras de um lado e brancas do outro. Mas hoje é diferente e isso fica patente numa foto que temos lá na escola, que mostra as crianças a brincarem juntas no recreio, de mãos entrelaçadas, mãos brancas, negras e mestiças. Essa é a nossa coroa de glória e mostra que a música tem algo de divino, capaz de esbater qualquer barreira e eliminar xenofobismos.

 

A Semana -

 

Cesar Paes: “O audiovisual é a forma de cada país se ver a si próprio"

http://asemana.cv/article.php3?id_article=20882   11-11-06

Após ter sido director de fotografia do filme “Batuque”, realizado pelo cabo-verdiano Júlio Silvão, o brasileiro Cesar Paes voltou recentemente ao arquipélago. No âmbito do Oiá - Mostra Internacional de Cinema Documental, o realizador deu uma oficina de documentário, no Mindelo, e depois apresentou na Praia vários dos seus filmes. Juntamente com a mulher, Cesar Paes dirige a produtora francesa Laterit, que se dedica ao lançamento de documentários sobre as culturas dos países em desenvolvimento.

Entrevista por: Vítor Quintã

Qual o balanço que faz desta passagem por Cabo Verde?
Foi muito interessante. Estive uma semana no Mindelo, onde fiz uma oficina de documentário, com dez pessoas. Estavam todas muito entusiasmadas e já com ideias para projectos futuros. Pudémos fazer várias experiências. Além disso, provámos que há público para documentários, porque exibi as minhas três obras e houve sempre muita gente a assistir. O meu período na Praia foi mais curto, mas o público apareceu ainda em maior número para as duas sessões que realizei.

Considera que o entusiasmo que encontrou pode ser um bom sinal para o futuro do cinema cabo-verdiano?
Estas iniciativas e a realização do festival Oiá são um bom começo, mas claro que não são suficientes. Falta muita coisa, porque, por exemplo, não há cinemas em Cabo Verde. Mas além disso é preciso também trabalho legislativo quantos aos direitos de autor, que muitas vezes não são respeitados, e ao mecenato cultural. O audiovisual é a forma de cada país se ver a si próprio, é algo demasiado importante para que Cabo Verde aceite ser apenas importador dos filmes brasileiros e portugueses.

Acha que o documentário pode ser uma aposta nos países mais pobres?
Claro que tanto a ficção como o documentário têm as suas dificuldades. Enquanto na ficção podes fazer as coisas acontecer, no documentário a câmara está humilde, à disposição das pessoas. Mas para os países do Sul, o documentário pode ser mais fácil, porque é sempre sobre coisas que a pessoa conhece. Pode ser sobre a tua cidade, o teu bairro, a tua rua, a tua avó. Além disso, não é preciso uma grande estrutura, um enorme financiamento. Há pessoas que conseguem fazer documentários sozinhas.

Todos os filmes que já realizou foram documentários. É uma escolha pessoal?
Sim, para mim fazer documentários é uma escolha pessoal, porque sinto que a realidade tem mais imaginação que eu. Eu estou sempre a ser surpreendido pelo inesperado e gosto muito de captar as pequenas maravilhas do dia-a-dia. O documentário é como a pintura, pode ser muito realista.

Nos seus dois últimos documentários, “Saudade do Futuro” e “Mahaleo”, a música tem um papel muito importante. É um apaixonado por música?
Sim, eu gosto muito de música e adoro descobrir novos sons. Mas não acho que os meus filmes sejam sobre música, acho que os meus filmes falam através da música. Ou seja, a música serve como narração, como comentário e acaba por abrir o filme a um público mais jovem.

Depois de “Angano... Angano...”, em 1989, voltou a Madagáscar para filmar “Mahaleo” (2005). De onde vem esta ligação ao país?
A minha relação com Madagáscar vem do coração, porque a minha mulher, Marie-Clemence, que é também a minha produtora, nasceu lá. Estamos entre dois continentes, porque já fizemos filmes sobre África e sobre o Brasil. Aliás, eu costumo dizer que é por isso que vivemos em França, porque
fica a meio caminho entre o Brasil e Madagáscar. (risos)

Qual é a importância da sua mulher nos filmes que tem realizado?
Muita, claro, porque na verdade os nossos filmes são pensados e feitos em conjunto. A divisão entre produtora e realizador é uma separação de funções que serve mais para o exterior. Ela está sempre ao meu lado enquanto filmo, chamando a minha atenção para o que se passa do outro lado, para onde a câmara não está a olhar. E depois, na parte mais delicada, a montagem, onde o filme realmente se escreve, nós discutimos muito e às vezes passamos dias empancados, à procura não de uma solução de compromisso, mas sim de algo que realmente melhore o filme.

Como encara o sucesso dos filmes da sua produtora, a Laterit?
Temos tido sorte com os filmes que produzimos, porque têm sido vistos. Mas também penso que os nossos filmes têm um conteúdo universal, com que as pessoas se podem identificar em muitos países do mundo. Porque há muitos países em que a vida também é difícil, em que a água também é um recurso precioso, mas onde a cultura é muito forte.

Este foi um regresso a Cabo Verde, depois de ter sido director de fotografia no filme de Júlio Silvão, “Batuque”. Tem planos para voltar novamente ao arquipélago?
Claro que gostaria de poder voltar para fazer uma outra oficina, talvez sobre um outro aspecto da produção. Além disso, já há algum tempo que penso em fazer um filme que falasse através da música cabo-verdiana. Mas ainda me falta encontrar um ângulo, um ponto de vista.

 

Cesária Évora viaja aos anos 60 em “Rádio Mindelo”

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“Rádio Mindelo” é a mais recente compilação de Cesária Évora no mercado. São mornas e coladeiras que Cize gravou em fita magnética na antiga Rádio Barlavento, na ilha de S. Vicente, nos anos sessenta, e que agora é editada em CD. É dessa época inicial da sua carreira que a diva dos pés descalços fala nesta entrevista. “Rádio Mindelo” é um registo precioso, que se encontrava perdido, que fala de um Mindelo ingénuo, alegre, captado pelas “antenas” de trovadores como Ti Goi, Frank Cavaquinho, etc. Um tempo que Cize recorda com muitas saudades. por: Teresa Sofia Fortes

- Pelas mãos de quem se deu a sua entrada na Rádio Barlavento, para gravar nos idos anos 60? Ti Goy?

- Não, foi o Sr. Luís Carlos. Na altura quem me acompanhava nas minhas actuações era o Ti Goy e o Careca. A todos os lugares onde eu ia cantar, nomeadamente o Grémio, eles me acompanhavam. Assim, quando recebi o convite para gravar na Rádio Barlavento, foram eles a acompanhar-me.

- Como reagiu ao convite para essas gravações?

- Estava acostumada a cantar em bares, restaurantes e navios estrangeiros que aportavam ao Porto Grande de São Vicente. Por isso, reagi com normalidade ao convite. Mas é claro que gostei.

- Como foi a experiência de entrar pela primeira vez num estúdio aos 20 e poucos anos, para gravar?

- Estava rodeada de meus amigos e companheiros das lides musicais. Por isso, senti-me à-vontade e gravámos sem problemas.

- Quando ouviu a sua voz na Rádio Barlavento como reagiu?

- Quando escutei a minha voz pela primeira vez achei um pouco estranho. Mas à medida que escutava sentia-me bem, contente por estar a ser ouvida por toda a ilha de S. Vicente. Com o passar do tempo isso tornou-se normal para mim.

- Diz o jornalista Carlos Gonçalves que Cize era a “pérola” de Ti Goy. Como era conviver com o Ti Goy, que é tido como um dos melhores compositores de coladeiras de todos os tempos?

- Eu e o Ti Goy conhecíamo-nos bem. Ele e o Careca acompanhavam-me nas actuações em casas particulares, nos navios, em todo o lado. Éramos amigos e tinha (e ainda tenho) um imenso prazer em cantar as músicas dele. Mas eu também cantava acompanhada por Frank Cavaquim e Luís Rendall, duas outras grandes figuras da nossa música ainda hoje.

- Era a Cize que escolhia as músicas ou Ti Goy?

- Muitas vezes, ele trazia-me músicas; outras vezes, eu sabia de alguma e compartilhava com ele. Escolhia aquelas de que eu gostava, cuja letra me dizia alguma coisa e cuja melodia era do meu agrado. Ensaiávamos, interpretávamos nas actuações públicas e gravávamos na Rádio Barlavento. Era tudo ao vivo, sem grandes meios, bastante diferente do que acontece agora.

- Na época, segundo sei, pagavam-lhe 25 escudos por cada gravação, é verdade?

- Sim, é verdade, pagavam-me 25 escudos por cada música gravada. Cheguei a gravar oito músicas num só dia e recebi 200 escudos! Outras mulheres também gravavam – Arminda Santos, Mité Costa, Titina Rodrigues –, mas não sei se a elas pagaram. Também gravei no Rádio Clube do Mindelo, mas ali nunca me pagaram.

- O que dava para comprar com esse dinheiro?

- Muita coisa. Naquela época a vida era mais barata e com 200 escudos dava para resolver muitos problemas. Mas agora … As coisas mudaram (risos). Completamente!

- No Museu de Arte Tradicional, onde em tempos funcionou o Grémio Recreativo li que naquela agremiação só entravam os sócios, gente conservadora e da elite do Mindelo. Como reagiam quando Cesária Évora cantava as mornas picantes do Ti Goy?

- Era muito interessante. O Lulu Marques convidou-me e à Arlinda Santos e outra cantora cujo nome não me recordo (talvez a Mité Costa) para actuar no Grémio Recreativo quando chegou ao Mindelo a comitiva de uma escola de Coimbra. Naquele dia, o Lulu Marques decidiu comprar-me uns sapatos. Disse-lhe que não queria calçá-los. Mas ele insistiu e aceitei. Fomos à loja do Sr. Neves onde me ofereceu uns sapatinhos pretos. Fui ao Grémio Recreativo com os meus sapatos novos, mas estava pouco à-vontade. Quando chegou a minha vez de cantar, sentia-me pouco à-vontade. Uma senhora, cujo nome não sei, mas creio que era a directora da tal escola de Coimbra, perguntou-me se me estava a sentir bem. Então, confessei-lhe que não queria usar aqueles sapatos. Ela respondeu-me: se quiser cantar descalça esteja à vontade. Tirei os sapatos e cantei. Mostrei ao Lulu que naquele momento quem mandava era eu, pois as pessoas tinham ido lá para me ouvir cantar. E, afinal, nasci descalça.

- Não gosta de usar sapatos?

- Não, mas não é nada disso. Apenas não gosto que me obriguem a fazer coisas de que não quero.

- Naquela época Cesária gravou um disco pela Casa João Mimoso. Como foi?

- O povo gostou, pena que o João Mimoso não me pagou. A OMCV também não me pagou quando gravei o disco «Mar Azul», em 1985. Isso só veio a acontecer mais tarde. Depois, fui com o Bana para Portugal, em 1987, e gravei ali quatro discos.

- Apesar de ter gravado esses discos, Cize, ao contrário de outros artistas, não conseguiu grande projecção. Porquê?

- Ora, naquela época ainda não tinha o “meu” produtor junto de mim, o Djô da Silva, que Deus pôs no meu caminho. Ele levou-me para França e deu um grande impulso à minha carreira que é hoje aquilo que todos vêem.

- Djô da Silva é então muito importante para si?

- Com certeza!

- Carlos Gonçalves diz num artigo sobre si que “o sucesso que Cesária conquistou é uma vingança do destino e uma vitória da música cabo-verdiana”. Concorda?

- Sim. Durante muito tempo trabalhei, porém, não fui reconhecida nem recompensada. Graças ao Djô da Silva, em 1987, fiz a primeira actuação em França, despertei a atenção da comunicação social e aqui estou hoje com o meu «Grammy» e os meus discos de ouro conquistados em vários países.

- O que achou da ideia do Djô da Silva de editar em CDs os êxitos que cantou e gravou na Rádio Barlavento e que estavam esquecidos no arquivo da Rádio de Cabo Verde em S.Vcente?

- Gostei imenso da ideia. O CD é uma recordação dos meus primeiros anos de carreira que vou guardar com muito carinho.

 

Chando Graciosa : Coração de funaná

Ainda muito jovem, aos 14 anos, Chando Graciosa deixou Tarrafal de Santiago, terra dos seus pais, com destino à Praia, onde projectava dar asas ao seu sonho de ser cantor. Integrado no lendário conjunto Abel Djassi,

o rapaz de voz firme liderou um segundo mo vimento de estilização do funaná, depois de Catchás. Uma missão tão fortemente enraizada no seu coração de badiu-di-fora que, mesmo após a extinção do Abel Djassi, pro-

curou cumpri-la ao participar activamente

na criação de dois outros grupos - Petural e Ferro-Gaita - e depois numa

carreira a solo. É a este percurso que o Instituto de Promoção Cultural (IPC) quer prestar homenagem amanhã, 21, numa cerimónia pública no Palácio da Cultura.

Chando Graciosa nasceu a 17 de Agosto de 1965, em São Tomé, de pais cabo-verdia- nos que tinham emigrado para fugir à fome de 1947 que, na altura, assolava o nosso país.

Com apenas alguns meses de idade regressa a Cabo Verde na companhia dos pais, fixando

residência na vila do Tarrafal, ilha de Santiago. Assim, o funaná e o batuco temperam a

vida de Chando Graciosa desde pequeno, quando brincava ao som das melodias da gai-

ta, do som do ferrinho e da voz harmoniosa das cantadeiras de finaçon. “Eu não tinha nenhum músico na minha família, mas gostava tanto de música que fugia de casa para ir ver e ouvir os tocadores de gaita”, lembra Chan-

do Graciosa.

Em casa “ensaiava” em latas, malas e outros objectos de onde conseguia tirar sons

inimagináveis para os pais. Até que um dia,

ainda adolescente, é convidado a integrar o

conjunto tarrafalense Pano Bitchu. Um

convite que mudaria para sempre a sua

vida. Pano Bitchu era o grupo que ani-

mava os intervalos dos grandes con-

juntos que iam tocar na vila do Tar-

rafal. “Numa das vezes que o Abel Djassi foi lá tocar, ouviram-me cantar e os então secretários da JAAC-CV, Filipe de Carvalho e Felisberto Vieira, propuseram-me com apenas 14 anos, integrar a banda”, conta Graciosa. Mas o caminho para a Praia mostrava-se difícil. E só após mui-

ta insistência dos dirigentes da organização juvenil junto dos pais conseguiu autorização para mudar-se para a Capital.

Helder Gonçalves, que en trou para o Abel Djassi cinco anos depois de Chando Graciosa, hoje lembra como ficou então “surpreen dido ao ver aquele rapazinho do Tarrafal a interpretar composições da sua própria autoria”. Mas Chando Graciosa não despertava apenas a admiração dos mais jovens da banda. Antero Veiga, ex-baixista do Abel Djassi que acolheu a entrada de Chando Graciosa no conjunto, relata que ele cativou logo o grupo, “pela sua voz voz com personalidade acentuada em matéria de funaná”. Ou seja, continua Veiga, “se Ildo Lobo tinha uma voz com personalidade de morna, por analogia Chando Graciosa tem uma voz com personalidade de funaná”.

O jovem de Tarrafal era, entretanto, mais do que um simples intérprete, como viria a com-

provar-se com o lançamento do único LP do Abel Djassi, em 1990, intitulado “Cabeça em Movimento”.

No Abel Djassi, Chando Graciosa revolucionou a proposta de interpreta ção do funaná que só viria a

ser usada cerca de 15 anos depois. Com a extinção do Abel Djassi, em 1991, Chando Graciosa diz ter-se sentido perdido porque “vivia da música. O Abel Djassi fazia espectá- culos em todos os cantos do país, de modo

que não tínhamos tempo para mais nada”. O cantor decide então emigrar para o Senegal, onde trabalhou durante dois anos. Mas mal o volta à terra-mãe, a febre do funaná queima de novo e leva-o a fundar com Eduíno e Feliciano o grupo Ferro-Gaita. Desentendimentos com Eduino ditaram a sua saída do grupo, ainda na fase inicial. Desejoso de

soltar o funaná que lhe oprimia o coração, cria um outro grupo - o Petural -, em que, acom-

panhado por Totinho (tumba), Helder Gonçalves (baixo) e Bitori Nha Bibinha (gaita),

canta e toca o “ferrinho”. “Fomos convida-

dos por Carlos Santos para gravar um disco, mas antes fomos a Portugal, para participar

num festival na Figueira da Foz. Dali parti para a Holanda, onde moro até hoje”.

Nesse país europeu, Chando Graciosa grava o seu primeiro disco - “Nácia Gomi” -, em

1997. O disco é bem acolhido mas, em vez de

partir para mais um CD a solo, Chando Gra-

ciosa opta por embarcar num projecto de re-

conhecimento dos seus mestres. Assim grava

um disco com Bitori Nha Bibinha, cujo gran-

de êxito foi “Dor na costa”, e outro com Tcho-

ta Suari, intitulado “Valor sem favor”, CD

onde se destacam temas como “Mosca Bitcho

e “Baca Brabu”.

O regresso à carreira a solo dá-se com “Si-

mentera” e “Dor di mundo”, o qual foi lança-

do este ano, com orquestração de Carlos Ma-

tos, especialista em jazz e world music. Este

conjunto de álbuns de Chando Graciosa per-

mite a Antero Veiga anunciar que “ele tem uma

linha em termos de letras que é genuína de

Santiago, muito dentro do funaná. Quem es-

cuta as suas composições constata que as ex-

pressões que ele utiliza são típicas do interi-

or de Santiago, não é um citadino a escrever

funaná, é um homem do interior a desnudar

sua alma!”. O ex-Abel Djassi Helder Gon-

çalves vai mais longe e afirma que “além de

retratar a filosofia de vida do campo, Chan-

do Graciosa recorre a uma linguagem abs-

tracta, surrealista até. É o caso do “ratadjo

na corpu”, intraduzivel, único”.

Mas nestes quase 20 anos de carreira, nem

tudo foi um mar de rosas. De coração aberto,

Chando Graciosa confessa que se deixou le-

var pelo vício do álcool, o que lhe causou

“muitos transtornos na vida, quase perdi

tudo”. Felizmente, afirma Antero Veiga, “ele

conseguiu tomar consciência de que esse ca-

minho não levava a lado nenhum e conseguiu

afirmar o seu estilo”. É essa experiência de

vida que Chando Graciosa quer compartilhar

no projecto musical “Chando Graciosa 50+”,

que será gravado com o grupo CGCM-B, tam-

bém radicado na Holanda. “O disco, que tem

uma forte aposta na palavra, no funaná e

batuco estilizados, é o meu testemunho. Que-

ro compartilhar a minha história para que

outros não cometam os mesmos erros”.

Teresa Sofia Fortes

 

Chando Graciosa  Um grande tesouro*

http://www.asemana.cv/index.php?m=0&Id=10566&me=0&PHPSESSID=37f83152af1ac512db85370890e77663  

19/05/2005

 

Chando GraciosaFoi provavelmente no início dos anos 1980 que Chando Graciosa apareceu no conjunto «Abel Djassi» para mudar a natureza do grupo e dar um novo fôlego ao funaná com a sua forma original de cantar.

 

Trata-se de um invulgar compositor e arranjador de músicas crioulas. A facilidade com que as compõe faz dele um dos mais rápidos, eficazes e genuínos compositores cabo-verdianos. Dá forma como só ele sabe! Às vezes, confunde-se com finaçon!

 

Tantas vezes no palco, não surpreendeu os espectadores com rapsódias de músicas, desconhecidas e de improviso?! Só que, normalmente, saem iguais ou melhores do que as outras!

 

Chando, para além de ser um grande cantor e compositor do funaná, o seu lado artístico, também tem um alto sentido humano, de grupo e de patriotismo. É um grande amigo de Cabo Verde  e do «Abel Djassi». É o conjunto do seu coração! ... Quiça, daqui a não muito tempo, poderá estar no palco com os seus antigos colegas? Auguramos que assim seja! Nos bons e maus momentos, está sempre com o Grupo com que trabalha e disponível para ajudar.

 

Há uma coisa que apesar de ser verdade, nem todos os artistas ainda a encaixam muito bem, que é a questão da universalidade da música. Chando, apesar de ser genuinamente cabo-verdiano e um exímio cantor do funaná, cedo deu conta disso, arriscando-se a cantar outras músicas estrangeiras, aproveitando a sua habilidade musical e a polivalência do grupo com trabalhava, «Abel Djassi».

 

Quem não se lembra do Chando a cantar zouk, sokus (deca) e outras músicas? Então, isso é só para ver. Ele, de facto, não é qualquer um e ainda tem muito para dar. Afinal, é um fora de série! Quem não descobriu ainda terá chances no Festiva da Gamboa 2005.

 

Simplicidade, Coragem e Determinação de Chando

 

Nunca se deixou envaidecer e nem desfalecer por nada deste mundo, Tanto nos momentos altos como nos menos bons da sua carreira esteve sempre à altura. É um homem forte, corajoso, determinado e de coração grande! .... Para a música, a cultura e a sua gente, arriscou tudo! Parabéns, Chando!

 

Por outro lado, sabe como tudo foi difícil, com muito esforço! Mas, não guarda rancores de ninguém! É um artista alegre, comunicativo, amigo e contagia todos os que com ele estiver. É costuma dizer que a maior riqueza de Cabo Verde é o homem. Então, estamos perante um grande tesouro.

 

Se assim é, saibamos valorizá-lo, conservá-lo e tratá-lo! Cabo Verde e o Mundo só têm a ganhar. Portanto, é um digno merecedor da homenagem que o Palácio da Cultura «Ildo Lobo» e a Câmara Municipal da Praia quiseram fazer-lhe no quadro da Festa Municipal deste ano. Bem haja homenagem a Chando. E Câmara Municipal da Praia está de parabéns. E Filú, também.

 

Difícil, falar de um homem em revelação. Talvez daqui a uns anos, as coisas poderão ficar mais claras. Mas, pelo que já fez merece estes apontamentos.

 

Otoniel Vaz

 

*Título da responsabilidade do asemanaonline

 

Constantino Cardoso: A voz do futuro           

http://asemana.cv/article.php3?id_article=16511  18-03-06    

 

A voz de Constantino Cardoso, uma das mais belas da nova geração de cantores apegados aos géneros tradicionais viajará em breve para além das fronteiras dos palcos de Cabo Verde com o lançamento do primeiro disco da sua carreira. Em entrevista ao asemanaonline o cantor, que foi distinguido como a melhor voz do concurso “Nos Muska”, levanta o véu sobre esse álbum, traça o seu percurso, fala da sua relação com Ildo Lobo e dos seus anseios.

 

Entrevista por: Teresa Sofia Fortes

 

O teu disco de estreia foi finalmente gravado. Para quando o lançamento?

O disco já está pronto, a masterização está concluída também e, consequentemente, o disco já deve estar na fábrica para reprodução. Ontem (10 de Março) terminei a sessão de fotos para a capa do disco, daí que a produção final já se fez. Assim, a saída do disco está prevista para o fim de Abril.

 

Que disco é esse que vamos poder escutar então?

É um disco tradicional, com mornas, coladeiras, e uma música de Carnaval, pois componho esse género de música e achei por bem incluir uma dessas composições no meu disco. É que estava previsto que o disco saísse em Dezembro último e prevíamos que essa música chegaria ao mercado portanto ainda a tempo do Carnaval 2006. Mas assim não foi. Gravei com a mesma banda que trabalha com a Cesária Évora, que também estava a preparar o seu disco “Rogamar” que tinha de sair antes do meu, de modo que havia muito trabalho para os músicos e atrasamo-nos... Talvez tenha sido melhor assim.

 

Já está definido o título?

Já tenho um título, que é o mesmo de uma composição do Djoya que gravei para este disco - “História de Mindelo” -, mas ainda não tenho a certeza de que será esse o nome do disco porque o meu produtor, o Djô da Silva, da Harmonia/Lusáfrica, ainda não o aprovou.

 

E por que motivo “História de Mindelo”?

Porque a maioria das composições rodam à volta de Mindelo, a minha cidade.

 

De quem são as composições?

São 11 composições, sendo cinco minhas, duas do Djoya, outras duas do Manuel d’ Novas, que não podiam ficar de fora, uma do Manu Ramos, uma do guitarrista Luís Paris e outra do Calú de Bazilia.

 

Disseste que é um disco tradicional. O que entendes por tradicional?

A música tradicional de Cabo Verde sofreu uma evolução de uns tempos para cá. Quer em termos de acordes quer em termos de harmonia, a forma como a música tradicional é tocada hoje é diferente do antigamente. De modo que, posso dizer, o meu album é um disco tradicional dentro do panorama actual de música tradicional. Mas tentei também recuar um pouco para recuperar as coisas antigas, para não esquecermos como são.

 

O disco está a sair na época certa ou, para ti, demorou?

Cada coisa acontece no seu tempo e há tempo para tudo. Acredito também que nada acontece por acaso. Por isso, talvez agora é o melhor momento para eu lançar o CD por ser um momento em que vozes masculinas que cantam os géneros tradicionais estão a escassear. Talvez se tivesse tentado gravar um disco noutra época não teria tido esta oportunidade.

 

E quando foi que deste os primeiros passos no mundo da música?

Aos 12 anos comecei a aprender a tocar guitarra. Brincava com a guitarra como quase todos os cabo-verdianos mas nunca avancei muito no aprendizado. Entretanto, cantava. E como a maioria dos jovens, eu gostava mais de música estrangeira, principalmente música brasileira, reggae, etc.

 

Em que momento ocorreu a mudança?

Viajei para Portugal, onde tive contacto com pessoas com mais consciência da nossa música. Convivi um bocado com o Betú, que era ainda um jovem mas que já tinha uma morna gravada pelo conjunto Os Tubarões e que já era convicto sobre a nossa realidade. A malta estudante fazia noites cabo-verdianas aos sábados, em que eu cantava de quando em vez. Foi assim que comecei a interessar-me pela música tradicional. Quando regressei a Cabo Verde, participei algumas vezes no Todo Mundo Canta em São Vicente. Numa dessas ocasiões fiquei no segundo lugar e fui para a Praia representar São Vicente no concurso nacional. Não correu bem, aliás correu o pior possível. Depois recebi um convite para integrar o conjunto Wings, em que fiquei por um ano, pois o grupo desintegrou-se. A seguir, fui convidado a participar da banda Ferrim, do Bau, entretanto os restantes elementos partiram em digressão com a Cesária Évora e fiquei novamente sem grupo. E assim fiquei durante alguns anos até que o grupo Serenata convidou-me para cantar com eles e desde então não parei, sendo que de vez em quando também canto a solo. Foi no final destes anos todos que surgiu o convite do Djô da Silva para gravar com ele, o que me honrou bastante pois ele é o produtor com quem, se calhar, todos gostaria de trabalhar hoje.

És uma voz já prestigiada entre os artistas que actuam ao vivo, e há quem comece a compará-lo ao Ildo Lobo a ponto de considerar que podes ocupar o lugar deixado vago pelo malogrado cantor. O que tens a dizer sobre isso?

O lugar do Ildo Lobo jamais será ocupado. Alguém que cante como o Ildo Lobo nunca mais. Pode ter ficado um espaço vago no universo de vozes masculinas que cantam os géneros tradicionais, o que dá mais oportunidades a mim e a outros de mostrarem o seu valor. Mas preferia gravar e alcançar sucesso ao lado do Ildo Lobo. O desaparecimento dele é uma perda tremenda para Cabo Verde. Era uma pessoa especial para mim, não só um amigo mas um cantor que gravou minhas composições e fez com que eu ficasse um pouco mais conhecido como compositor. E talvez se ele não tivesse cantado essas minhas músicas eu não seria tão conhecido, pois acredito que quem faz a música não é só o compositor mas principalmente o intérprete.

Essas são águas em que nadas com à-vontade?

Gosto de escrever. Não o fiz antes porque tinha dúvidas de que seria bem aceite. Mas quando entrei para o grupo Serenata começamos a pensar em cantar composições nossas. Senti-me então estimulado a começar a escrever. Mas tenho que me sentir inspirado.

 

Foi assim com a música que escreveu sobre Ildo Lobo e que faz parte do seu disco de estreia?

 

Sim, é uma morna que dedico ao Ildo Lobo. Um dia, tinha já se passado um mês depois da sua morte, acordei com essa música na cabeça e quando vi já tinha escrito a música. Como dizem alguns compositores, a gente não compõe, recebe uma luz que nos ilumina. Devem ter razão porque foi assim que aconteceu comigo.

 

Já cantas há bastante tempo mas só agora gravas um disco. Consideras que ainda estás no início da tua carreira?

 

Sim, agora é que estou a começar. Acho que um artista, por mais bom que ele seja, passa a existir a partir do momento que grava. O seu prestígio depende do público que tem e, à medida que aumenta o seu público também aumenta o seu prestígio. Eu, com o meu disco, quero dar uma boa participação na música de Cabo Verde e quero agradar ao público, em particular àqueles que costumam assistir aos meus concertos.

 

E acreditas que a música de Cabo Verde está de boa saúde?

Há quem diga que uma vez é que a música de Cabo Verde era boa e de qualidade. Creio que não há que fazer comparações. Já escutei alguém dizer “Ildo Lobo é um excelente cantor” e outra pessoa revidou “não, o pai dele é que era bom”. Mas não tivemos oportunidade de comparar os dois pelo que nunca saberemos. E, se tivéssemos tido essa oportunidade, talvez víssemos que o Ildo Lobo era mais evoluído que o seu pai. Antigamente, fazia-se um baile com um simples gira-discos, hoje é preciso ter um bom aparelho de som. Só posso dizer que a música de Cabo Verde evoluiu.

 

D. Lopes

«Encontrei-me como pessoa nas montanhas de São Nicolau»

http://asemana.cv/article.php3?id_article=15539 04-02-06

Este é um retrato de D. Lopes, um jovem rapper cabo-verdiano-descendente crescido em Brockton que, na semana passada, ganhou um dos mais importantes prémios de música dos Estados Unidos da América - o BET 106 & Park.

 

Numa curta entrevista, o músico fala sobre a importância deste prémio e revela que foi em Cabo Verde que se encontrou como pessoa e descobriu o caminho que queria seguir.

Acabaste de vencer o BET 106 & Park, um dos mais importantes "video music countdown" dos Estados Unidos. Como se deu a tua participação?
Estava a trabalhar no meu novo álbum quando me deram a oportunidade de actuar no 106 & Park. A competição foi na quarta-feira, 25, e para além de mim, concorriam com músicas originais mais artistas que tinham muita qualidade. Um deles era um rapper com 14 anos; o outro era também um Rapper de Down South, mas com um estilo de música mais comercial.

Com que tema concorreste?
Levei o meu single, “My People”, uma música em que canto a necessidade de regressar à terra mãe. Levei comigo para cima do palco um grupo multicultural de pessoas que, como eu, se enrolaram nas bandeiras dos seus países. Segurei com todas as forças a bandeira cabo-verdiana, excitado com o orgulho que sentia por ela. Depois disso, fui votado o vencedor da competição, pelos telespectadores de todo o país.

Esta competição projectou nomes grandes da música norte-americana e mundial, como Alicia Keys ou Ashanti. O que é que vai acontecer a D. Lopes enquanto artista?
De facto, o espectáculo 106 & Park é enorme a nível de projectar os artistas. Mas ainda antes de ter ganho, já tive a oportunidade de promover a minha música, o meu país e negócio num largo mercado. Entretanto, em Maio vou lançar o meu próximo álbum, "Concrete Intelligence".

No entanto, é um passo importante no teu percurso. Como começou a tua carreira?
Iniciei-me na música muito novo, com três anos, altura em que me juntei a um coro da escola primária, onde continuei alguns anos. Só aos 16 anos entrei no mundo do rap, como DJ, que é ainda hoje o que gosto de fazer. Gravei pela primeira vez cinco anos depois, aos 21.

Que lugar Cabo Verde ocupa na tua música?
Fui a Cabo Verde pela primeira vez em 2003. A maior parte da minha estada foi na ilha de São Nicolau, onde os meus pais nasceram. E foi lá, na Ribeira Brava, que me pude conhecer a mim mesmo, sentado lá no alto das montanhas. Esta experiência foi importante para mim enquanto rapper, também porque foi durante este período que tentei escrever a minha música, em vez de improvisar, unicamente. Foi assim que, quando regressei aos Estados Unidos, comecei a gravar o meu primeiro álbum,“D. Lopes, I’m here NOW”, que sentia ser muito eu. Foi um álbum produzido em 10 horas com um orçamento reduzido. Mesmo assim, consegui que a rádio WERS 88.9, de Boston, tocasse bastante o único single, “Die for these words”.

O teu disco mais conhecido, pelo menos nos EUA, é "Bright Darkness". Foi a chave para o teu reconhecimento enquanto artista?
Na festa de lançamento deste álbum esteve David H., da HOT 97.7, de Boston. E o que é certo é que a partir daí os espectáculos começaram a surgir. "Bright Darkness" é o meu segundo álbum, e fi-lo juntamente com J. Beats e Rob, da "Lets do This" Entertainment. De facto, este disco é simbólico do tipo de música que faço, intelectualmente escuro. Tive a oportunidade de o promover em cerca de 50 espectáculos, entre os quais os de Beto Dias, Kino, Suzzana e Quatro, em que fiz a primeira parte. Com este disco, viajei por vários estados dos EUA e fui também ao Mindelo, em Outubro passado. Espero regressar agora a São Vicente, para participar no Baía das Gatas deste ano.

Dany Mariano: “Os melhores músicos de Cabo Verde vivem em S. Vicente

http://www.expressodasilhas.cv/c_base.php?gc=Ver%20notícia&id=2389

Os melhores músicos estão em S. Vicente. Vejamos nas cordas, o Bau, o Voginha. Em qualquer instrumento. Não digo que os que estão na diáspora não tenham qualidade. Mas os melhores estão aqui. Existe algum pianista que toque a música cabo-verdiana como o Chico Serra e ele vive no Mindelo; não há nenhum percussionista que toque como o Tey, nenhum guitarrista como o Voginha …

Expresso das ilhas - Vamos começar pela vitória, no meio de polémica, da tua música Ua Tchai  na Titã  no Carnal 2007 …

Dany Mariano - Claro que fiquei feliz pela vitória da música que fiz em parceria com o meu irmão José Mariano, para o grupo Maravilhas do Espaço. Quanto à polémica ao contrário do que o Vlú diz, a música foi entregue a tempo e ganhámos com toda a justiça a melhor música do Carnaval. A nível da orquestração, fui buscar o estilo genuíno da música de Carnaval mindelense. Tentei fugir o máximo do ritmo brasileiro, em particular do Rio de Janeiro, que tem sido executado nos últimos anos. Fui buscar o estilo do Ti Goy

Expr.d. i. - Ta aí mais polémica: estilos genuínos de S. Vicente, os outros não são? Uma crítica ao amigo Vlú…

DM - Não, Nem por isso. É um facto, é verdade que o estilo do Ua Tchai na Titã é genuíno. É estilo do Ti Goi, é só ouvir para se tirar as dúvidas. Agora eu considero que nós temos um estilo de música de Carnaval e não temos necessidade de importar outros estilos. Não sei se te lembras do Grupo Seiko da oi …

Expr.d. i. - “Brinca sabe é so nos so que é do Grupo Seijko da oi”… lembro-me de ouvir a música.

DM - O ritmo do Ua tchai é o mesmo. Esse é o estilo genuíno da música de Carnaval mindelense, o ritmo da coladeira.

Expr.d. i. - Como leigo e longe de quer meter a foice em seara alheia, consideras que existe um estilo genuíno da música de Carnaval mindelense com uma estrutura rítmica própria e melodia própria?

DM - Sem dúvida. É o estilo “mascrinha “ que é executado pelos mandigas. Esse é nosso estilo genuíno. E a rítmica do Ua tchai está assente no “mascrinha”. Isso foi estilo usado e tocada durante muitos anos. Só que agora as pessoas, ao fazerem uma música de Carnaval. pensam e tentam laborar com o ritmo do Carnaval carioca e estamos há anos de luz de chegar lá. Repara que no próprio Brasil existem muitos estilos de música de Carnaval. A Baía tem o seu ritmo, o Rio o seu e nós temos o nosso.

Expr.d. i. - Então o Ua tchai recupera a tradição do mascrinha, de uma música de Carnaval nossa que tu defendes que existe? 

DM - Claro que há. Quem não quiser ouvir o Ua tchai para confirmar, basta ouvir os grupos de mandigas. Aí esta a nossa música de Carnaval. Embora hoje os mandingas tenham retirado alguns instrumentos como as conchas que usavam nos pés como chocalhos. O Ua tchai tem pandeiro que se funde como o chocalho precisamente para marcar o ritmo “mascrinha”

Expr.d. i. - Bem, de tanto falar de Ua tchai, que é pronuncia crioula da palavra  inglesa “watch out”  vamos lá explicar, para quem não andou em Homéricas batalhas contra os índios da Rua de Coco com gritos de guerra aprendidos junto com os percevejos que habitavam nos bancos do cinema Tuta, o que quer dizer Ua tchai?

DM - Na verdade são frases que aprendíamos no cinema e com os ingleses que aqui viviam., como  “stick ou ” ou “hand’s up” . U tchai significa: atenção, cuidado. Nesse tempo qualquer menino de ponta de praia sabia falar inglês.

Expr.d. i. - Ua tchai era uma palavra comum…

DM - Qualquer miúdo do nosso tempo usava expressões inglesas. Por exemplo, no futebol, dizia-se keeper, off-side, cornner em vez de guarda-redes, fora de jogo e pontapé de canto. A única palavra que ficou no dia a dia é o “boys”.

Expr.d. i. - O Dany aparece para o grande público mais como intérprete do que como compositor. E, se calhar, o Dany não consegue ser só compositor ou vice-versa.

DM - Comecei a compor aos 15 anos. Na altura só compunha música portuguesa de vido a grande influência da música brasileira que havia na altura. Aos 18 anos, começo a compor em crioulo e fiz o “ Munde ca cre “ e “flor de revolução”. E continuei a compor e a interpretar as minhas composições como “ mi é dode na bo, Cabo Verde”,”Na ondas de bo corpu”, “Sandy” entre outras. Mas eu não trabalho por encomenda. Componho por prazer. Quando tenho algo por dentro que quero que sai, saia em forma de música. Mas ultimamente tenho composto para amigos que me pedem as minhas músicas para gravar.

Expr.d. i. - Chegaste a fazer uma parceria com o Manuel d’Novas na música, “Vida é um só vida”, que foi gravado pela Cise e foi disco de ouro no álbum ”Miss Perfumado“…

DM - Fiquei feliz por ter feito essa música que fez parte do álbum que foi o primeiro disco de ouro que uma cantora africana conseguiu, na Europa. E também por fazer parte dos CDs “Cesária ao vivo no Olímpia“ e “Best off de Cesária”. É um orgulho para mi ter uma composição onde a letra é minha e a música, do Manuel de Novas, constar dos três melhores álbuns da Cesária.

Expr.d. i. - A partir de uma certa altura, depois do sucesso da Cisé, a música de Cabo Verde começou a “dar dinheiro”. Mas o Dany, que está no Miss Perfumado, balança e não segue para a profissionalização. Deixa-se ficar por Mindelo…

DM - Já não tenho 20 anos. Hoje vivo com os pés na terra. Já não tenho idade para aventuras. Se houver um produtor que quiser investir no Dany Mariano, como compositor e interprete, estou disposto a abraçar o profissionalismo. Agora correr atrás de uma aventura, não tenho disposição para isso. Estou bem como estou na minha situação de músico, digamos amador. Conheço muita gente que está a fazer uma vida de profissional e que não vivem felizes como eu vivo

Expr.d. i. - Mas, acima de tudo, tu tens uma opção por este Mindelo que tanto amas…

DM - Sim. Não me vejo a viver longe do Mindelo. Mesmo que abraçasse o profissionalismo, teria que ser no Mindelo. Aqui sou um peixe na água

Expr.d. i. - O Dany, para a alegria dos que gostam da boa música, reapareceu nas modernas noites cabo-verdianas que se realizam nos hotéis do Mindelo. Pensou que era um regresso que levaria ao CD do Dany. Mas isso não aconteceu, ficaste numa meia água ….

DM - Não estou numa “ meia água”, estou melhor do que nunca. Estou em grande forma. Tenho vontade de gravar um CD. Mas não quero gravar um CD qualquer. Tenho intenções de fazer um CD com todas as minhas melhores músicas. Mas já te disse, eu canto por prazer, por gosto e não para ganhar dinheiro. Portanto meu CD será diferente. É uma questão de tempo

Expr.d. i. - Sou suspeito porque é público a minha admiração por ti e pelo Vlú, pela vossa postura como mindelenses e pela vossa música por S. Vicente. Mas falta na discografia cabo-verdiana um CD do Vlú e um CD do Dany.

DM - Acho, sem vaidade, que ainda não apareceu um produtor inteligente para investir em mim e no Vlú. Sem desprimor para com alguns colegas, tenho visto produtores a investir-se em músicos de duvidosa qualidade e outros, sem nenhuma qualidade. E pese embora a essa constatação continuam a investir em artistas que reconhecidamente tem menos qualidade do que o Dany ou Vlú. Não entendo. Mas não estou preocupado com isso. Essas situações repetem-se vezes sem conta na vida até que vida encarrega-se de fazer justiça. Basta olhar o caso da Cesária. Santo de casa não faz milagres

Expr.d. i. - Muito menos em S. Vicente

DM - Tens razão, porque em S. Vicente todos acham que são bons artistas

Expr.d. i. - Também com as facilidades que há de gravar maus CD e fazê-los passar, na TV e nas rádios, não admira a proliferação de “grandes artistas”.

DM - Acho que as pessoas devem ter oportunidades para mostrar se têm talento ou não. Mas também devem ter a noção da sua qualidade….mas todos querem gravar

 

Expr.d. i. - Concordas com ideia divulgada que os melhores músicos mindelense e, quiçá, cabo-verdianos, estão na imigração e que é fora de Cabo Verde que se faz a música cabo-verdiana, hoje? 

DM - Não, os melhores músicos estão em S. Vicente. Vejamos nas cordas, o Bau, o Voginha. Em qualquer instrumento. Não digo que os que estão na diáspora não tenham qualidade. Mas os melhores estão aqui. Existe algum pianista que toque também a música cabo-verdiana como o Chico Serra, e ele vive no Mindelo; não há nenhum percussionista que toque como o Tey.

Expr.d. i. - Ou seja, a nata dos “tocadores” continua no Mindelo.  

DM - Sem dúvida. Mesmo a nível dos cantores. A melhor interprete que é a Cesária vive no Mindelo 

Expr.d. i. - Isso é maneira de dizer; a Cisé não passa mais de dois meses por ano no Mindelo

DM - Mas vive cá. Quando não está é porque esta em digressão.

 [2007-03-26]

Comentários

pedro gregorio, jr. (pedro.lopes@t-online.de) Caro Dany, aproveito este comentário e por ter lido todo o artigo integralmente e também ter lido todos os comentários, para acrescentar da minha parte apenas como uma pequena achega ( e nao para aticar o lume): 1- Cabo Verde é um país de pessoas com vários talentos, entre outros música, pintura escritores.... 2- nao me passaria na cabeca de afirmar que este ou aquele é melhor, pois cada tocador, cada músico tem a sua maneira de tocar e exprimir. 3- Temos de aproveitar a nossa globalidade ( inter-ilhas ) e trocar experiencias. Os meus idolos sempre foram TUTUTA, Chico Serra, Zeca Couto e Paulino Vieira. Mais um razao para se encontrar o próprio caminho! Actualmente, adoro a forma como Tito Paris toca ( Piano bem entendido que muita gente nem sabe), mas isso nao significa, que nao conheca um TIBAu do Maio, um Kim Alves do Fogo/ Praia, um BAU do Mindelo nas Cordas, um VLÙ entre outros só para emitir alguns nomes pois há vários por aí.....e á espera que sejam descobertos. Sejamos humildes em aceitar as nossas diferencas, lutemos por um conjunto de artistas cada vez mais interessados em levar a nossa Cultura para frente, nao nos esquecemos de onde viémos e se nascemos em Sao Nicolau, crescemos na Praia e brincámos na Soncente.... toda essa Vivencia, apenas nos trará mais Vivencia quotidiana na música. Desejo que um dia ( eu também o farei ) graves um CD e que este seja fruto de anos de trabalho e tuas composicoes e que ele seja bem aceite em todo o nosso Cabo Verde. Caboverdianamente e musicalmente Pedro Gregorio Lopes, Jr. Arquitecto e Pianista 04/2007 Berlin joao gomes (jjag38@hotmail.com) É pena que ainda em 2007, ainda existam pessoas que vêem o mundo pelo único binóculo que possuem! Já ouviu kim alves ou zeca couto a tocar musica de cabo-verde no piano? Em termos de estilo, vibrato e de "vocal range", cesária está a anos-luz de várias cantoras nacionais que não vivem nem são de Mindelo. Ela canta bem e dá um prazer ouvi-la? É claro que sim! Chico serra é um virtuoso? Voginha é extraordinário? Bau é um fenómeno? Sim, todos são isso mesmo, não porque moram no Mindelo, mas porque são, intrinsecamente, bons! E ponto final! O dany precisa deixar de ter uma mente micro-urbana e visitar outras realidades nacionais, pois se ele conhecer a enorme e diversificada riqueza cultural existente em, por exemplo, Santiago e Fogo, talvez ele deixe de ver CV pelo seu umbigo urbano (digamos das ruas da Morada) e tenha uma visão do país onde ele nasceu! A repetição de conceitos musicais não representa o todo musical de cv. Há mais cv do que Mindelo! humberto ramos (b2ramos@gmail.com) concordo com a frase "os melhores tocadores estão em s.vicente", visto os melhores musicos não estarem em s.vicente. por andarem desinformados dá nisso. continuem a dormir.na musica nao existe melhor, pode existir diferente mas o conceito de melhor na musica nao existe, cada um tem o seu ouvido e ouve o que a sua limitação auditiva permite, logo nao se pode falar de melhor. um abraço tenham juizo porque cabo-verde nao se compadece com bairrismos e a musica de cabo verde é uma só. Paló (de_figueiredo@netcabo.pt) Infelismente o meu primo Dani continua muito virado para a ilha onde vive. Em pleno século XXI, admira-me haver comentários que deixam transparecer a filosofia do "eu sou melhor que tu", "aqui é melhor que ali" ou "os melhores estão aqui e não ali". Como caboverdeano nascido em S. Vicente, há já muitos anos que deixei de ver Cabo Verde como ilhas, mas sim como um País, uma bandeira. Chamar a S.Vicente os melhores artistas de todo o País é algo que à partida não tem pernas para andar. Acredito que a melhor filosofia é pensar que CV tem produzido bons artistas ao longo da sua história, independentemente de serem desta ou daquela ilha. Pelo menos na minha óptica, é mais saudável para a mente, até porque essa do sampadjudo cu badiu já é "mesquenhice" a mais, démodé e deprimente. Paló Djinho Barbosa (djinhobarbosa@gmail.com) A construção frásica para responder à pergunta reflecte uma métrica que tem fundamentado toda a produção discursiva - o lado soft, da cultura em CV. Anyways! Acredito que A TACV daria um grande contributo há Cultura se conseguisse baixar o preço das passagens aereas. Isso iria permitir um maior trãnsito para a musica nacional e sobretudo maior interacção entre músicos. Precisa-se disto, até para ajudar por a Dany a conhecer outros músicos de outras realidades das ilhas. Outbound of Morada. Mindelo também "precisa" consumir outros músicos das ilhas. Quando é que Djoy Amado (Fogo), Annie (Assomada) ou Tibau (Maio) serão conhecidos em Mindelo. Segundo a lógica da Curva Normal de Dany, nunca! Comentário feito em www.sondisantiagu.blogspot.com G.S. (nhugovatos@hotmail.com) sim realmente esqueci de referir as novas promessas de CV, como a Mayra, a Lura, o Tcheka entre outros "badios" ou artistas ke vivem ou viveram em Santiago... Helena (hbritoa@hotmail.com) Isto realmente é o expoente máximo do ridiculo. A que ponto chega esta gente para se auto-vangloriar. É pena prque denota a sua tremenda ignorância em relação à musica feita em outras ilhas. Aliás, esta ignorância é ainda mais grave quando se vive uma época em que músicas exclusivamente de Santiago têm dado a CV e ao mundo os nomes mais promissores da actualidade musical, como são exemplo Lura, Tcheka, Mayra Andrade, Nancy Vieira, Kim Alves, etc. etc. G.S. (nhugovatos@hotmail.com) qual a necessidade de referir que os melhores musicos vivem em são vicante?? e isso muda alguma coisa?? eu sou um caboverdeano e para mim não existe ilhas mas sim um pais! depois dizem que os \"badios\" é que tem a mania! bairrista e complexado! ja é tempo de deixar-mos disso das ilhas, aqui fora onde eu vivo não existe são vicente nem santiago nem nenhuma outra ilha, mas sim caboverdeanos na diáspora. Joaquim Silva (jjsilva2004@hotmail.com) Realmente! Como existem só grandes artistas em Mindelo, poderia acrescentar grandes basofos também! Essa da Cesária ser a primeira cantora africana a obter um disco de ouro na Europa é de morrer de rir. O Dany continua o mesmo de sempre. É a tal coisa de nos quererem impor que quem não vive na "capital da cultura" não presta. Santiago, Fogo, Maio, S. Nicolau, Santo Antão, Sal, Boavista e Brava não têem tocadores. Uma pena!

 

Dany Silva, um cantor do mundo

A Semana 11/12/2004

O cantor Dany Silva, radicado em Portugal, tem em preparação um novo disco. É o seu quarto álbum de inéditos e, segundo o próprio, deve sair em Maio de 2005. Dany, convidado desta edição de ‘A Semana Online’, vai contar com a participação do português Rui Veloso e do angolano Cuca na produção musical do álbum. Esta entrevista foi feita logo depois da homenagem que a ilha do Sal prestou ao cantor Ildo Lobo, homenagem essa que teve Dany Silva como um dos seus participantes, daí as alusões a esse acto.

KAUNDA SIMAS

- Como é que define esse disco?

- Está na linha dos meus trabalhos anteriores, quem me conhece vai ver que não há grandes diferenças. A maior parte dos temas são de Cabo Verde, mas também tenho, como de costume, alguns temas cantados em português, com ritmos diferentes, mas todos africanos. Tenho dois boleros angolanos e um semba.

 

- Uma estratégia para conquistar o mercado luso-africano?

- Não só, mas também. Eu vivo em Portugal há muitos anos e tenho muitos amigos que escrevem em português para eu musicar, principalmente um meu amigo angolano, o Cuca. Até tenho muito prazer de cantar em português e é uma maneira de chegar mais perto daquelas pessoas que não percebem o crioulo. Assim elas podem perceber a letra, a mensagem e o conteúdo. Alguns desses temas são angolanos, porque gosto muito de certos boleros que aprendi com o Rui Mingas, nos bons tempos em que ele ainda cantava, e agora quero também fazer uma pequena incursão pelo semba. Mas sempre um bocado estilizado, com aquelas influências que eu tenho de outras áreas, e que normalmente tento trazer para as nossas músicas, mas sem perder a raiz…

 

- Muita gente não conhece esta faceta do Dany de cantor de Blues, há aqui algum tema nesse ritmo?

- Para quem costuma ouvir Blues, há uma morna em que vai notar umas influências melódicas e harmónicas do Blues. Eu adoro o Blues, aliás, comecei como músico nessa onda do Rythm and Blues, da Soul Music. Eu tenho um grupo em Portugal com que trabalho regularmente, em que costumamos cantar clássicos do Blues e Soul norte-americano. Até há pouco tempo fiz um espectáculo no casino Estoril, que depois eu ouvi uma gravação feita em mini-disc e passei para um CD caseiro para alguns amigos. Tem piada que o meu amigo Antero (Simas) o levou para os Estados Unidos e mostrou à malta e eles ficaram admirados, porque não conheciam essa faceta minha da incursão que eu faço de vez em quando pelo Blues… É uma coisa que tenho dentro de mim.

 

- Há uma linha temática clara nesse disco, ou nem por isso?

- Deixo a coisa andar, porque ao escrever e compor vou por vários campos, desde o sentimental, até o campo social, aos temas do dia-a-dia… Eu dou curvas para a direita, para a esquerda, vou para a frente, de modo que é um disco bastante heterogéneo.

 

- Outra faceta do Dany, esta muito conhecida, é a de sempre apresentar autênticos “hinos à paródia”. Temas alegres, que falam de festa, são vários os exemplos. Algum nesse género?

- Tem, porque essa coisa da paródia, da convivência, está dentro de nós, porque acontecem várias vezes, e sempre desses momentos surge uma história engraçada que tentamos transportar para a música que é para os outros poderem compartilhar daquele momento e sorrirem, para não estarmos só com temas que nos fazem pensar muito.

 

- O Dany faz uma parceria na produção musical com o Rui Veloso, que é um roqueiro da melhor qualidade e o próprio Dany já é um cidadão do mundo. Numa combinação dessas, é normal que haja alguma coisa bem diferente do que os cabo-verdianos estão acostumados, ou não?

- Vão encontrar, pelo menos, passagens momentâneas, com ritmos um pouco diferentes, como eu referi. Haverá momentos em que as pessoas dirão: “Mas o que é isto?”. Mas depois volto, dou uma incursão para outros caminhos, mas depois torno a entrar no nosso estilo, embora à minha maneira.

Este CD vem na linha dos outros, mas há sempre coisas diferentes, embora dentro da nossa música, as pessoas vão sentir a influência que eu tenho da música latina, principalmente a cubana. Mas só no trabalho final, quando estiverem todos os acabamentos, os solos, aquelas cerejas em que se coloca em cima do bolo - vamos saber. Muitas vezes um toquezinho, o final, muda ou aumenta a carga daquela música, torna o ritmo mais consistente, com mais balanço, enfim.

Estou convencido de que é um disco diferente dos outros. Mas está naquela linha das pessoas que me conhecem. Eu penso que não estou a ser pretencioso, eu sou um músico muito versátil, de modo que o resultado final é sempre uma incógnita.

 

- Sei que nove temas deste álbum têm a sua impressão digital. De quem são os outros temas?

- São pessoas já conhecidas, como Baptista Dias, que é autor do “Cumpadre Martin”, que eu já gravei, e o Cuca, que é o angolano, que costuma escrever para mim. Há outros temas que queria deixar no ar, porque são surpresas. Eu tenho um tema de um grande cantor e compositor cabo-verdiano, que quando ouvirem o tema, as pessoas vão identificar logo. Não quero revelar tudo para que fique alguma dose de curiosidade no ar.

 

- Mudando um pouco de assunto: como foi participar do show em homenagem ao Ildo Lobo? Você, antes do show dizia que seria difícil conter as lágrimas, como é que se saiu?

(Uma pequena pausa, olhos avermelhados, o cantor parece buscar forças para não chorar).

- Os primeiros cinco minutos foram um bocado difícil, mas depois tive aquele apoio de um público extraordinário. Senti o calor das pessoas e também uma vontade de fazer uma festazinha, até porque já tinham passado uns temas que provocaram emoções fortes nas pessoas, de modo que o público estava a querer um pouco mais de animação, então tive sorte. Mesmo quando cantei “Lua Nha Testemunha” com o Rui Veloso, já estavam num espírito de festa. Tudo se conjugou para ser uma noite extraordinária, como foi. À tarde, na hora do ensaio estava um vento forte, o vento parou, o céu ficou limpo e a lua estava cheia, o som estava bom, os músicos estavam a tocar bem, conjugou-se tudo, foi uma onda que passou… Só depois, quando saímos do palco é que veio aquele momento mais chato, aquela nostalgia. Mas, felizmente, consegui conter-me no palco e abstrair-me, embora pensando no Ildo consegui fazer uma festa, porque o momento era de festa.

 

- O Dany estava perto quando a população chegou à Pedra de Lume, depois daquela caminhada de oito quilómetros, directo ao mar onde foram jogar as flores em homenagem ao Ildo? Todos dizem que foi o momento mais bonito daquela noite.

- Nesse momento, quando senti que ia acontecer afastei-me, porque pensei que depois podia não recuperar-me para depois subir ao palco. Neste momento eu retirei-me para o camarim e não quis ficar por perto. Ainda bem que fiz isso, porque disseram-me que foi um momento com uma carga emocional muito forte, e eu nessas coisas sou muito “cobarde”. 

 

- Voltemos de novo ao CD. Já tem nome o álbum?

- Não, ainda não pensámos nisso.

 

- Houve dificuldades na execução desse projecto?

- Há sempre momentos difíceis. As editoras estão a jogar muito à defesa por causa da pirataria, porque a tecnologia agora permite a uma pessoa fazer pirataria em casa. E quando uma editora aposta numa produção boa, isso custa dinheiro, ter músicos bons, um estúdio bom, a promoção, e se as vendas não justificam, e é o que tem acontecido em todo o mundo, e Portugal sendo um país pequeno, nota-se. Foi difícil, houve vários adiamentos, mas vejo que até certo ponto, há sempre uma razão para as coisas, e Deus queira que se arranje urgentemente, uma maneira de combater a pirataria, pelo menos paea se reduzir os prejuízos e as coisas possam voltar à normalidade. Há muitos valores novos que estão aí para gravar, e estão a sofrer com isso. Às vezes vão para a produção própria, mas por questão económica, as produções ressentem-se disso, porque não podem pagar um bom estúdio, a promoção, enfim, muita gente tem-se saído prejudicada com isso.

 

- Como é o processo criativo do Dany?

- Uma música feita por pura inspiração acontece só uma vez, de dez em dez anos. Comigo acontece de ter uma ideiazinha, às vezes sem querer, a parte que é inspiração. Depois daí, acontece a transpiração: estar uma semana, um mês, às vezes até mais, parar recomeçar, para fazer o tema do princípio ao fim. Talvez haja pessoas que trabalhem só com inspiração, mas não é o meu caso, é muita transpiração.

 

- É certo que a música de Cabo Verde é um dos nossos produtos de exportação mais fortes. Mas sempre fica a impressão de que não se tem aproveitado esta riqueza tanto quanto se deveria. O que é preciso para que se possa maximizar a qualidade em relação à quantidade de novos músicos em Cabo Verde?

- O principal, são as escolas de música, e a educação musical mesmo na escola, desde a primeira classe. Depois há outras coisas, que eu saiba, não há uma casa de instrumentos onde se compre umas cordas para a viola. Isso é uma coisa que alguma secção ligada à cultura poderia incentivar… Regularmente, tenho amigos a telefonarem-me para Portugal, a pedir umas cordas para violão. É uma coisa que não entendo, como é que numa terra de músicos, não se encontram cordas. Mas há coisas boas, felizmente, estão a aparecer estúdios, que podem não ser de grande qualidade, mas já há uma facilidade, as pessoas já não precisam ir para a Holanda ou os Estados Unidos gravar. Mas a escola é o fundamental.

 

- Para terminar a entrevista, o que é que se pode esperar desse disco. Não só do ponto de vista melódico e rítmico, mas também lírico, enfim.

- Não se pode esperar um disco muito intelectual, porque não o sou. Mas tenho temas que falam, como eu disse há bocado, de várias coisas, e sobretudo, tenho aquela morna, de que tinha falado, que lembra um Blues. Essa morna, que eu fiz há três anos, refere-se a um irmão meu que morreu de uma doença grave… Apresentei-a a alguns amigos que disseram que tem uma carga emocional muito forte. Até pensei cantá-la aqui no Sal, em homenagem ao meu amigo Ildo Lobo. É uma canção que eu dedico também a todos os meus entes queridos que morreram, ao pai, ao Ildo, ao meu primo Jorge Oredja, que desapareceram. É muito importante essa morna para mim. Não a cantei cá, porque pensei: “Não vou conseguir”. Um amigo meu, o Manduca, ouviu-a uma vez que foi a Portugal e disse-me: “Ó Dany, vais conseguir cantar essa morna?”. E eu respondi que se não conseguisse, a ia dar ao Ildo Lobo para ele a cantar. Eu penso que vai ser uma morna com que todos aqueles, e somos todos, que já perderam um ente ou amigo querido, se vão identificar. Penso que é o tema que vai marcar esse disco.

 

- Como é que se chama a morna?

Chama-se “Caminhu longi. (In memoriam)”.

 

Di di Paula: Adérito Pereira  TALENTO OCULTO: “O MEU MAIOR SONHO É SEGUIR CARREIRA MUSICAL”

http://www.expressodasilhas.sapo.cv/noticias/detail/id/3551/

Tem 26 anos: frequenta actualmente uma formação em Mecânica, no Centro de Formação da Variante. É voluntário da Cruz Vermelha. O seu maior sonho: ser músico conhecido em Cabo Verde. Diz-se fã Norberto Tavares e Gilberto Gil. Adérito Pereira, conhecido por Di di Paula, fala ao Expresso das Ilhas do seu interesse pela música, dos ídolos, do estilo e das aspirações no mundo artístico

É actualmente estudante de Mecânica. É esta a carreira que pretende seguir, ou tem algum outro sonho?
Di di Paula
- (risos) Claro que tenho um sonho, que não o de ser mecânico. Gostaria muito de seguir uma carreira musical. Eu tenho essa esperança mesmo sabendo que em Cabo Verde é difícil para um jovem viver da música. Mas vou persistir.

Qual é o número de composições feitas por si até hoje?
DP
- (pensa um pouco) Tenho algumas ainda inacabadas. São cerca de vinte, as acabadas.

O seu interesse pela música é hereditário?
DP
- Não necessariamente. Dos familiares que conheço nenhum seguiu por este caminho. Mas os meus pais gostam de música. Eu comecei a apaixonar-me pela música aos dezoito anos, através de uma viola emprestada ao meu pai, por um amigo do meu pai. No início foi um pouco difícil. Até mesmo a minha irmã superava-me na viola. Comecei a desinteressar-me até que um amigo, vindo do interior para passar uns dias connosco (na Praia) começou a incentivar-me. Daí comecei a ouvir mais o rádio, acompanhando alguns artistas.

E começou a interessar-se pela música de algum artista em especial?
DP
- Sim. O que mais me encanta na música é o som da viola. Não sei explicar mas isso me toca. A música de Bob Marley, por exemplo, mexe comigo.

Gravou já (mesmo que num estúdio amador) algumas músicas, que inclusive tem rodado em algumas rádios da Praia...
DP
- Sim. Tenho duas músicas gravadas, mas eu não queria pô-las a passar nas rádios. É que eu prefiro fazer coisas com qualidade. Por isso, num primeiro momento, fiquei com um pé atrás. Perguntava-me a mim mesmo se já estava preparado para isso. Essas músicas que são rodadas nas rádios foram gravadas com ajuda de um amigo meu, em Ponta d'Água, que se interessou ao ver-me tocar. Os amigos é que me incentivaram a mandar a música para as rádios. Decidi então mandá-las e tive um feedback positivo.

Isso incentiva-o ainda mais a lançar-se numa carreira musical?
DP
- É, mas a minha preocupação actual é de ter algumas aulas de guitarra para aperfeiçoar. Gostaria também de ter aulas de voz. Eu comecei a cantar, ouvindo meus ídolos, mas nunca tive aulas em técnicas de voz.

Quem são seus ídolos?
DP
- Em Cabo Verde o meu grande ídolo é o Norberto Tavares. A ele devo o meu interesse pela viola. Quando o ouvia ficava emocionado. Gosto imenso de estilos brasileiros. Gilberto Gil é, para mim, um grande artista e do qual também sou fam. Há ainda o René Cabral. Gosto também do seu estilo, não obstante ouvir algumas críticas (negativas) sobre ele.

Acaba por criar um estilo próprio, misturando essas tendências?
DP
- Pois. As duas músicas que gravei, uma em português e outra em inglês, espelham isso. As pessoas ouvem e não acreditam que sou eu o cantor. Talvez seja pelo sotaque. Mas eu tento procurar-me a mim mesmo. Tento, através dos meus ídolos criar o meu próprio estilo para que as pessoas vejam-me a mim e não como imitador.

Qual é o seu estilo
DP
- Gostaria de adoptar o estilo tradicional, semelhante ao do Tcheka, por exemplo. Mas não somos nós a escolher o estilo. Se calhar, ao escolhermos não conseguimos dar o que temos a dar na música. Eu penso que o estilo é que nos escolhe. Trata-se de um...dom.

Que mensagens tenta transmitir por meio da música?
DP
- Neste momento preocupo-me muito com a paz, não só em Cabo Verde, mas no mundo inteiro. A violência preocupa-me também. Por isso quero chamar a atenção para a necessidade de nos opormos à violência. Eu tento passar mensagens de amor. Amor de mãe, pai, namorado(a), amigo. É esse tipo de mensagem que pretendo passar e é nisso que vou investir.

Pertence ou já pertenceu a algum grupo social?
DP
- Já pertenci a um grupo da minha localidade (Ponta d'Água). Aí senti a importância de pertencer a um grupo. O grupo acabou por extinguir-se mas eu continuei a sentir a necessidade de pertencer a um grupo humanitário. Tive então o convite de um amigo no sentido de integrar o corpo de voluntariado da Cruz Vermelha de Cabo Verde. Sou voluntário há cerca de um ano e estou a gostar imenso dessa experiência. Dei-me bem com todos e temos tido bons resultados nos trabalhos sociais.

Acredita que será um grande da música cabo-verdiana?
DP
- Tenho fé. Continuo com esperança. Até porque a música já me está entranhada nas veias. Sei que é difícil, mas vou lutar por isso.

Se lhe fizessem uma proposta promissora, deixaria tudo, inclusive a sua formação, para seguir a carreira musical?
DP
- (hesita um pouco, deixando escapar um sorriso acanhado) Bom, estou a frequentar uma formação que termina no próximo mês. Aguardaria pelo término do curso. Mas... sei o que estaria a perder recusando esta oportunidade. Pensaria duas vezes.

Que mensagem gostaria de passar a jovens que como você, perseguem um sonho?
DP
- Que qualquer jovem que aspira seguir uma carreira profissional, em qualquer área, se preocupe com a qualidade. Que encare os seus intentos com responsabilidade e seriedade. É preciso encarar as coisas que fazemos com muito amor. Gostaria também de apelar aos jovens músicos a tomar cuidado com as mensagens que tentam passar. Lembrem-se que o público que nos ouve é heterogéneo: há crianças, jovens, mulheres, idosas. Apelo também a todos aqueles que perseguem um sonho que continuem firmes e com esperança.

12-5-2008, 09:37:05
Expresso das Ilhas

 

Djodje: “Sempre TC é o meu contributo à música cabo-verdiana”

 

http://asemana.cv/article.php3?id_article=19278    12-08-06

“Sempre TC”. Eis o título do récem-lançado disco de Djodje, cantor cabo-verdiano, que aos 17 anos põe no mercado o seu primeiro trabalho discográfico a solo. Em entrevista ao asemanaonline, o jovem artista fala do seu percurso e afirma ser este álbum apenas o começo de longos anos de contribuição para a música cabo-verdiana.

 

Entrevista por: Sílvia Frederico

Djodje, fala-me um pouco do teu CD, “Sempre TC”

É um disco composto por 12 faixas, todas inéditas, feitas por mim e pelos meus amigos e colegas do grupo TC. O repertório é composto por mornas, coladeiras, rap e algumas misturas. Este CD tem influências de músicas estrangeiras, mas considero ser um álbum de músicas cabo-verdianas. Esta é a minha forma de fazer a música cabo-verdiana. Não é tradicional, mas é cabo-verdiano. Por outro lado, fala muito do amor e das vivências de Cabo Verde. Não significa que vivi tudo aquilo, mas aquilo que observamos - eu e os outros elementos do grupo TC - no dia-a-dia do nosso povo e nas relações amorosas dos nossos amigos e conhecidos. Sempre TC é apenas o começo do meu contributo à música cabo-verdiana.

Disseste que o repertório é composto por mornas, coladeiras e que têm influências de músicas estrangeiras. Não é o que o público está acostumado a ouvir nos seus espectáculos.
É verdade. É um disco mais para ouvir do que para dançar, embora ache que seja “dançável”. Em Cabo Verde não estamos acostumados a dançar este tipo de ritmos mais lentos.

O disco já foi lançado na Praia, primeiro no Tabanka Mar e depois na discoteca Bomba H. Nas duas vezes o público manifestou-se de bom agrado com o CD. Esperavas essa recepção, tendo em conta que o estilo musical adoptado nesse trabalho não é o que o público está acostumado a ouvir: o zouck?
Fiz um disco pensando no meu público, que é maioritariamente jovem. Precisamos abrir a nossa mente para coisas novas. É o que eu disse antes: não é tradicional mas é música cabo-verdiana. Fiquei surpreendido, porque mesmo escutando pela primeira vez as músicas, cantaram comigo, dançaram e acompanharam os shows em bom ritmo. É uma boa recepção. Percebi que estavam mesmo a gostar, a vibrar.

Houve participações especiais do Heavy H, Dabs Lopes e do angolano Don Kikas. Porque essas escolhas? Em primeiro lugar, porque são as pessoas com quem tive os meus primeiros contactos quando iniciei a minha carreira em 2001 com o grupo TC. Em segundo, porque me ensinaram muito desde essa época. Estão muito envolvidas na minha carreira. O Don Kikas, por exemplo, conheci-o em 2001 no festival da Baía das Gatas. Tornámo-nos grandes amigos. Ele ensinou-me muita coisa. O Heavy H, sobretudo, me ensinou coisas que eu nem sabia que existiam no mundo artístico: enfrentar as barreiras e insistir sempre. Esses músicos me ensinaram a ultrapassar os obstáculos. Mesmo os que não estão no disco, como o Zeca Couto, Kizó, Paló, entre outros.

O Djodje iniciou com o TC. O que aprendeste durante esses cinco anos no grupo?
Muita coisa. Acho que se aprende muito mais com as pessoas da mesma idade. Enfrentamos os mesmos problemas, temos as mesmas desilusões, as mesmas alegrias, enfim, partilhamos as nossas vivências. Eu e o TC vivemos uma relação de amor. Esforçamo-nos a cada dia que passa com muitos ensaios, até ultrapassarmos todos os problemas. Procuramos todos juntos o sucesso. Penso que vamos conseguir isso.

Vamos conseguir... será por isso mesmo “Sempre TC”?
É por isso mesmo. É uma mensagem que quis passar ao público de que o grupo ainda existe e que não vai deixar de existir, graças a Deus. Eu gravei a solo mas ainda faço parte do grupo. Por outro lado, a maior parte das composições deste disco foram escritas pelos elementos do TC. O grupo está apenas de “longas” férias.

E quando é que acabam essas “longas” férias?
Penso que dentro em breve. Dois dos elementos estão a estudar no Brasil e um em Portugal. Eu e mais um outro integrante estamos aqui em Cabo Verde. Mas acho que dentro em breve estaremos todos juntos para retomarmos as nossas vidas, pois já estão quase a terminar os cursos. Até lá temos que nos contentar com um mês ou dois meses de folga quando estão aqui.

O Djodje já tem um projecto novo?
Por enquanto, não. Acho que o próximo disco será com o TC.

É para breve?
Nada ainda de concreto. Temos ideia, sim, de gravar. Talvez daqui a um ou dois anos. Não depende só de mim. Como já disse, o grupo está separado por razões que não podemos questionar. Os estudos estão sempre na nossa mente. Nunca pensamos em deixar de estudar.
E acho isso bom, porque o nosso futuro está aí. Temos que esperar o nosso reencontro.

Para já não pensas em seguir os estudos tal como os outros elementos da banda?
Vou terminar no próximo ano o 12º ano de escolaridade.
Depois disso, quero entrar numa universidade.

Para que área? Ainda não defini muito bem o que quero. Mas penso muito em fazer algo relacionado com a música. Quero conciliar os estudos com a minha carreira. Gestão musical, quem sabe.

O Djodje nasceu no seio da família “Marta”, toda ela virada para a música. Contudo, não posso deixar de perguntar: Como nasceu o teu amor pela música?
Na minha família todo o mundo é artista ou tem alguma ligação com a música. Eu cresci vendo o pai nos Tubarões. Há o Tonecas Marta, Maiúca Marta, Ineida Marta, enfim, não havia como não ter um gostinho pela música.
Desde os oito anos que me atrevia a cantar nas tocatinas da família. A música faz parte do meu dia-a-dia.

Porém o Djodje só teve o seu primeiro aparecimento aos 11 anos...
É. Eu só ousei subir ao palco com o grupo TC.
No início eu só fazia o Backvocal. Aos 12 anos fizemos a primeira participação no Verão 2001.

A banda TC deu o pontapé na sua carreira. Como é que nasceu o grupo?
Foi uma brincadeira. Na varanda da minha casa eu o meu primo Rick Boy, o meu irmão Peps e mais dois amigos começamos a tocar. Mas eu, como o menor da turma, só cantava uns trechos. Só fazia o coro.

Mas foi o Djodje quem mais sobressaiu. Talvez por ser tão novo?
A idade sempre conta. Eu tinha apenas 12 anos. Uma criança a cantar, embora num grupo de adolescentes atrai atenção. É muito bom lembrar isso. Mas o grupo foi tão importante quanto o Djodje.

E como descreves o teu percurso. Hoje já tens 17 anos, muitos espectáculos na carreira e disco a solo. O caminho foi longo?
Muito. Não foi fácil. Tivemos que enfrentar muitos obstáculos, até que hoje tenho um disco gravado. Mas os obstáculos fazem parte da vida artística cabo-verdiana, embora não deva ser um ingrediente para o seu sucesso. A vida não é fácil, mas as pessoas devem contribuir um pouco para que os outros consigam viver também.

Djodje, já participastes em vários discos...
Fiz participações, juntamente com a banda, nos projectos Verão 2001, 2002 e 2003. Participei no Cabo Verde Les Otres, em 2002. A minha última participação foi no CD “Minis” de Heavy H com a música “Sexy lady”. Já actuei também em vários festivais de Cabo Verde, Festival da Juventude de 2005, fiz a abertura para o Show da banda brasileira “Terra Samba”, no Estádio da Várzea, participei na Semana Cultural de Cabo Verde no Luxemburgo, enfim...

Agora a pergunta que não quer calar. O Djode dos 12 anos tinha uma voz afeminada, o que causou algumas críticas. O que podes dizer acerca disso?
Eu era uma criança. Era a voz que eu tinha na época. Não poderia inventar uma voz que eu não tinha. É como agora.
Não posso imitar a voz do Djodje dos 12 anos. Cada Djodje tem a sua fase. É um pouco estranho manter a mesma voz. As crianças crescem e passam por fases importantes nas suas vidas.

Djode, és muito jovem e pode-se dizer que já tens uma carreira artística invejável. Que mensagem aos jovens?
A mensagem é insistir sempre, quando se tem algum talento. Não desistir nos primeiros obstáculos. Temos vários jovens com a mesma idade que eu, mas que não tiveram a mesma oportunidade. Isso agora cabe ao Estado cabo-verdiano e às autoridades competentes dar mais oportunidades à sua juventude. Mas é preciso agarrar com força cada oportunidade que aparecer. E lutar, lutar, lutar... sempre.

Criar oportunidades como?
É investir na cultura, sobretudo. Criar uma escola da cultura e da música nacional, de forma a ensinar aos jovens a base da música cabo-verdiana. Porque acho que a música é um pouco complicada. É que nem a matemática, tem que se fazer muitos cálculos.
É preciso profissionalizar a música de raiz e não só e levá-la a outros níveis.

 

Dudu Araújo: Novo disco rende homenagem a Ildo Lobo

http://www.asemana.cv/article.php3?id_article=17653  20-05-06

 

Dudu Araújo está na sua terra natal, São Vicente, a preparar o lançamento do seu próximo disco a solo - “Nôs cantador”. Descubra os pormenores sobre esse novo álbum - a homenagem a Ildo Lobo, o desempenho de Bau como orquestrador, os compositores, etc. - , na entrevista a seguir.

Entrevista por: Teresa Sofia Fortes

 

Dudu Araújo, fala-nos sobre este teu terceiro disco que está prestes a chegar ao mercado?
Não é o terceiro disco mas o quinto, sendo este o segundo em CD editado pela Island Music/Boa Música. É um disco que segue, mais ou menos, a mesma linha de “Pidrinha”, o anterior álbum, embora traga temas com mais alegria.

Isso quer dizer que vamos ouvir mais coladeiras?
Sim, são coladeiras mais ritmadas, mais dançáveis.

E o disco já tem título?
Sim, escolhi como título do disco o nome de uma das composições que faz parte do disco da autoria do Betú, que é um tributo do compositor ao Ildo Lobo - “Nôs cantador”. Tem uma poesia muito bonita e como presta homenagem a um grande músico, achei bem atribuir o mesmo título a este meu novo disco.

Disseste que o novo disco é diferente de “Pidrinha” devido ao facto de ser mais ritmado e alegre. Há outras diferenças?
Não tem muitas outras diferenças, creio eu. Porque os músicos que tocaram comigo, assim como os compositores que canto, são quase os mesmos. Desta vez, não tenho o Paulino Vieira mas tenho o Betú e continuo com Manuel d’ Novas, Teófilo Chantre, Nhelas Spencer, Jorge Humberto. Ou seja, são compositores consagrados, que basta mencionarmos o nome para as pessoas reconhecerem a qualidade do seu trabalho.

Além destes companheiros de anos, dás oportunidade neste teu disco a algum jovem compositor?
Sim, há uma música de um compositor novo, o Gofe de Rosarinho. Trata-se de uma bela morna, de que gosto muito e por isso decidi incluí-la no novo disco.

Bau é o orquestrador deste seu novíssimo álbum. A par da sua qualidade como músico, que não está em questão, por que o escolheste para desempenhar essa tarefa?
Bem, eu e o Bau convivemos desde crianças. De maneira que, além da garantia que me oferece pela sua inquestionável qualidade como músico, somos amigos. Eu confio nele e ele diz que gosta de trabalhar comigo, e vice-versa. Portanto, sempre que puder eu o escolherei para fazer os arranjos dos meus discos.

O grupo de músicos que tocam comigo são também os mesmos que trabalharam em “Pidrinha”. O Tey Santos, grande percussionista que dispensa qualquer apresentação, Hernâni Almeida, guitarrista jovem e bastante talentoso, Toy Vieira ao piano é excelente... Todos, com o seu profundo conhecimento da música de Cabo Verde, conseguem dar-me um resultado excepcional.

Produzindo um disco mais alegre, ritmado e dançável, queres com isso mostrar a tua outra faceta como artista?
Não é essa a minha intenção. “Pidrinha” é um disco com poesia de grande qualidade, essencialmente mornas, dos compositores que já citei, e que foram interpretadas da forma mais clássica de executar. Quanto ao novo disco, tem poesia bonita também, mas são coladeiras que cantam o jeito alegre de ser do cabo-verdiano.

Dudu Araújo já tem uma longa carreira. Diz-nos, o que significa esse novo disco a esta altura da carreira?
Bem, não é só mais um disco. Encaro-o como um passo importante na minha carreira e espero que alcance algo mais do que os anteriores. Acredito que o disco fará muito sucesso. Muita gente pergunta-me, constantemente, quando é que o álbum estará no mercado, pois gostaram bastante de “Pidrinha” e querem agora ouvir o que de novo tenho para lhes oferecer.

E quando poderemos ouvir este disco?
Espero que em meados de Junho.

Onde será o lançamento?
Faremos o lançamento primeiro a nível nacional e, só depois partiremos para uma tournée internacional.

Com a perda de Ildo Lobo, o Dudu Araújo é visto como um dos possíveis sucessores do falecido cantor. O que achas disso?
Nem é recente esta ideia de que posso ser o sucessor de Ildo Lobo. Mas eu não acredito que um cantor possa ser, de facto, sucessor de outro. Eu sou eu, e o Ildo é o Ildo Lobo. Ele faleceu, mas a sua música e a sua grande voz continuam connosco. Ele fez o que tinha a fazer e eu vou continuar também a fazer o meu trabalho, do jeito que sei.

E por isso que quis este incluir a composição de homenagem a Ildo Lobo, escrita por Betú, neste seu disco?
Sim, quis também prestar-lhe a minha sentida e sincera homenagem.

 

Dudu Araújo  « Nôs Cantador »
Compositores e músicos de eleição apostam em Dudu Araújo
Por
: Santos Spencer (
http://www.caboverdeonline.com) Nôs Jornal newspaper  Posted: 03 de Julho de 2006             

O novo trabalho discográfico do cantor cabo-verdiano, DUDU ARAÚJO, colocado no mercado cabo-verdiano e americano, na terça-feira, 27 de Junho, tem tudo para vir a ser um sucesso capaz de conquistar um lugar de destaque na já rica discografia cabo-verdiana. Com efeito, "Nôs Cantador", que é o resultado de uma feliz fusão de diversos valores musicais, é daqueles discos que conseguem cativar o ouvinte logo à primeira audição.

As guitarras de Bau (6 e 12 cordas) e Hernani Almeida (6), o cavaquinho de Bau, o baixo acústico de Zé Paris e as percussões de Tei Santos, harmonizados em "Nôs Cantador", deram à cultura de Cabo Verde mais uma página de ouro coroada com a voz plena de firmeza e melodia de Dudu Araújo.

Mas sem criadores de nível jamais haverá obras com classe. Nesse particular, o bom gosto do intérprete Dudu, foi às gavetas de alguns dos melhores compositores do "arquipélago da música", promovendo mais uma cumplicidade entre quem faz e quem divulga, para o deleite dos amantes da música cabo-verdiana.

Do decano Manuel d' Novas, Bau redesenhou os arranjos para "Tchal Kêt", conferindo a esse clássico da coladeira um ambiente acústico no qual a guitarra de doze cordas transporta o ouvinte para uma descontraida tocatina que contagia até os mais nostálgicos. A impressão é que música de Manuel d' Novas tem essa função de nos aminar, funcionando como uma espécie de apelo no sentido curtirmos a vida independentemente das agruras. No inédito, "Bo kê Naiss", a classe do autor é novamente patenteada num rico entrelaçamento entre a música e o lado lírico.

Betú, o autor/compositor romântico com maior visibilidade na actualidade cabo-verdiana prestigiou este novo CD de Dudu Araújo com duas mornas inéditas que, na linha que vem habituando o público, prometem assentar arraiais nas paradas de sucesso. "Amor e Mar" é mais que uma morna, constitui um momento de poesia que nos lembra que "o amor pode ferir mas também pode florir"

O Tributo a Ildo Lobo, "Nôs Cantador" , tema em que se vislumbra a profundidade dos sentimentos de um cantor, Dudu reconfirmou o seu estatuto de intérprete com letras maiúsculas e, uma vez mais, mostrou que está devidamente posicionado na linha da frente na nobre missão de valorização e promoção da cultura de Cabo Verde.

Nhelas Spencer, o autor/compositor que mais temas forneceu a Dudu Araújo para este novo disco, é o grande responsável pela graciosidade e a doçura do álbum "Nôs cantador" , a avaliar pelas coladeiras "Joana" e "Mal custmód" e o samba " Cab Verde, visão dum coperante". Sendo Nhelas um guitarrista de alto nível, as suas criações, para além de trazerem sempre letras ricas e agradáveis, que entram rapidamente para o cançoneiro nacional, espelham as virtudes do bom executante que é. A dupla Bau/ Hernani, com a mestria que se lhes reconhece, complementou o toque de classe nesses trechos de Nhelas Spencer, nas quais a voz de Dudu foi a cereja em cima do bolo.

Com o inédito "Antipartida", Teófilo Chantre deu também uma valiosa contribuição para a feitura de "Nôs Cantador". Este autor/compositor com créditos firmados no panorama musical cabo-verdiano, retrata nesta coladeira suave, – magistralmente interpretada por Dudu Araújo –, o triunfo do imigrante com a "Reconquista d'sê terra querida" num regresso desejado e celebrado com as costas viradas para a "passárgada".

O consagrado Chantre também apadrinhou o lançamento de Zéca d'Piedade, que é cabo-verdiano radicado há largos anos em Paris, dono de uma sensibilidade lírica bem apurada a avaliar pela classe com que descreveu "Nha Piedade". A simbiose dos versos de Zeca com a música assinada por Teófilo permitiu a Dudu Araújo dispor de mais uma morna rica que, para além deste CD, será, doravante, tranformado num clássico com lugar de destaque no repertório que deste valoroso intérpre.

Um dos temas marcantes da carreira de Dudu Araújo é, sem dúvida, "Midj ma tambor" de Kiki Lima. Sendo San Jon um género que permite sofisticadas sequências de acordes, escusado será dizer que, neste tema, em boa hora é re-orquestrado, Bau, Hernani, Zé Paris e Tei deram expressão aos seus instrumentos aos quais o japonês Kim Oc Mach, com a arcada do seu violino, completou uma harmonização capaz de galvanizar qualquer plateia.
O criador de baladas e slow-rock mindelenses, Vlú, também apostou na inconfundível voz de Dudu Araújo para dar a conhecer "Um canção pa bo", uma faixa suave que conta com um piano discreto, com a assinatura do virtuoso Toi Vieira, o acasalamento das guitarras do mestre Bau e da revelação Hernani. Kim Oc Mach também entrou ness "jamm" de craques com o seu violino sempre digno de aplausos.

Os bons cantores têm também a missão de descobrir e divulgar os valores emergentes na área da composição e, neste aspecto, há que realçar a aposta na morna "Riqueza d'Pobreza" que dá a conhecer as veias criadoras de Gof d'Rosarinha e Calú d'Basila, diga-se, em abono da verdade, uma aposta ganha.

Com todos esses ingredientes só se pode vaticinar a "
Nôs Cantador" uma entrada plena de êxito no mercado discográfico.


Artigo relacionado:
Leia mais na edição 27 do Nôs Jornal; nas bancas a partir do dia 6.

 

Dudu Araújo prepares to release new CD in homage of Ildo Lobo

http://www.asemana.cv/article.php3?id_article=17662  20-05-06

Singer Dudu Araújo is currently on his native island, São Vicente, preparing for the release of his next solo CD, Nôs cantador. In the interview below, Araújo reveals details about the new album, with which he pays homage to the late Ildo Lobo, as well as Bau’s mastery as an arranger and his selection of composers.

Interviewed by Teresa Sofia Fortes

 

Tell us a little about this third solo album that’s about to hit the market.

It’s actually not my third, but my fifth. It’s the second CD released by Island Music/Boa Música. It follows more or less along the same lines as Pidrinha, my last album, although its songs are slightly more upbeat.

Does this mean we’re going to hear more coladeiras?

Yes, more rhythmic, danceable coladeiras.

Does the CD already have a title?

Yes, I chose as the title the name of one of the compositions included on the album, written by Betú, and which is the composer’s tribute to Ildo Lobo, “Nôs cantador” (“Our singer”). It has very beautiful lyrics and as it pays homage to a great musician, I thought it would be good to give the same title to my new record.

You said the new album is different from Pidrinha because it’s more rhythmic and upbeat. Are there other differences?

I don’t think there are many other differences. Because the musicians who played with me, as well as the composers I chose, are nearly the same. This time I don’t have Paulino Vieira, but I have Bau and Manuel d’Novas, Teófilo Chantre, Nhelas Spencer, Jorge Humberto. They’re all consecrated composers, and all we have to do is mention their name for people to recognize the quality of their work.

In addition to these classic composers, do any younger composers appear on this new album?

Yes, there’s a song by a new composer, Gofe de Rosarinho. It’s a beautiful morna I really liked and decided to include on the new album.

Bau is the arranger of this new album. Alongside his quality as a musician, which is unquestionable, what made you choose him to carry out this task?

Well, Bau and I have known each other since we were children. So in addition to the guarantee he gives me because of his unquestionable quality as a musician, we’re friends. I trust him and he says he likes to work with me, and vice-versa. So whenever I can I will choose him to do the arrangements on my records.

The group of musicians who play with me are also the same ones who worked on Pidrinha - Tey Santos, a great percussionist who needs no introduction, Hernâni Almeida, a young and very talented guitarist, Toy Vieira, who is an excellent pianist... All of them, with their deep knowledge of Cape Verde’s music, manage to give me something exceptional as a result.

Did you want to show another facet of yourself as an artist by producing a more joyous, rhythmic and danceable CD?

This wasn’t my intention. Pidrinha is a record with lyrics of very high quality, essentially mornas, by the composers I mentioned above, and which were sung in a more classic manner. This new record has beautiful lyrics as well, but there are more coladeiras that I sing in that upbeat manner Cape Verdeans have.

You already have a long career. What does this new CD mean for you at this point in your career?

Well, it’s not just another record. I see at as an important step in my career, and I hope it reaches a little further than the ones that came before it. I believe this record will be more successful. A lot of people constantly ask me when the album will be on the market, because they really liked Pidrinha and now they want to hear what new things I have to offer them.

And when will be able to hear the record?

Hopefully, in mid June.

Where will it be released?

We’ll release it in Cape Verde, and then we’ll go on an international tour.

With the loss of Ildo Lobo, you’re seen as one of the possible successors to the late singer. What do you think about this?

This idea that I could be a successor to Ildo Lobo isn’t new. But I don’t believe that one singer can really be a successor to another. I’m me, and Ildo is Ildo. He’s passed away, but his music and his wonderful voice remain with us. He did what he had to do and I’ll keep doing my job as well, the way I know how.

And is this why you wanted to include this composition in honor of Ildo Lobo, written by Betú, on your record?

Yes, and I also wanted to pay him a heartfelt and sincere homage.

 

Eddu: “prendem na bó” já é disco de ouro

http://www.expressodasilhas.sapo.cv/noticias/detail/id/4598/

Para as pessoas que não o conhece quem é o Eddu?
Eddu é uma pessoa simples, humilde, amigo que adora a palavra companheirismo, amizade e que está sempre atento ao próximo . Eddu também gosta da música e do palco.

Há quanto tempo vive fora de Cabo Verde?
Eu emigrei há nove anos e vivo entre Espanha e Lisboa.

Como é que deu os primeiros passos no mundo da música?
Comecei a dar os primeiros passos aqui em Cabo Verde como DJ, tarefa também que desempenhei na Espanha. Em Lisboa conheci o cantor Djony Lima e dessas inspirações escrevi duas músicas (Sara e Fã) que vieram no seu trabalho e Fã deu titulo àquele CD.

Mais tarde, participei no disco da Gama. A partir dali os meus amigos aconselharam-me a cantar e dei esse ponta-pé de saída participando num projecto, Com o passar dos tempos, por iniciativa própria, fiz o projecto juntamente com o Djony Lima que se intitulou Explosão Love, no qual cantei três músicas, que foram consideradas uma revelação, pois as músicas fizeram muito sucesso. Dali foram aparecendo outros convites, fui participando e, ao mesmo tempo preparando para gravar o meu a solo.

Sei que o teu primeiro trabalho discográfico já é disco de Ouro. Fale um pouco sobre ele.

É um CD repleto de misturas, onde se pode encontrar o Funaná, Cola Zouk, Zouk, R& B, Hip Hop, a minha intenção é fazer as pessoas conhecerem e ouvir as nossas músicas, e fazer com que outras culturas apreciem as nossas misturas e ver como é que as nossas músicas quando bem preparadas, têm uma sonoridade excelente.

Ter este álbum em mãos é um sonho meu, ele foi feito com muito amor e esforço e uma das minhas preocupações era ouví-lo a tocar, nas discotecas, nas viaturas e ouvir as pessoas a cantar as músicas, enfim, com isso sinto-me um homem realizado e abençoado.

Foi um trabalho cansativo?
Um bocado, porque tive que desdobrar entre as gravações no estúdio e o meu trabalho, tive que fazer muitas viagens. Foi cansativo, mas o resultado deixou-me feliz.

Como é que singrou na comunidade portuguesa, já que muitos consideram difícil por causa da discriminação?
Eu sempre mantive contacto com pessoas de várias nacionalidades. Isso já começou a dissipar-se porque os cabo-verdianos estão a mostrar as coisas boas que sabem fazer, hoje recebemos mais e melhor atenção, as nossas músicas estão a ser mais consumidas, e prova disso são as noites africanas realizadas frequentemente, e mesmo na escola, os jovens tendem a adquirir alguns dos nossos hábitos. Eu não senti dificuldades em penetrar na comunidade portuguesa, penso que é uma questão de trabalho ou mesmo de ocupação, não havia essa forma de mostrar aquilo que fazemos. Com o aumento de desempenhos ficaram a conhecer as coisas boas que fazemos, penso que a imagem negativa está sendo eliminada, graças ao esforço dos cabo-verdianos.

Edu está em Cabo Verde para promover o CD. Porque só agora?
Há alguns tempos surgiram alguns convites, mas devido à minha agenda não pude vir, só agora foi possível. Por outro lado, o meu amigo Gilyto continuou a incentivar-me a agarrar mais na promoção do disco. Juntando os convites e o conselho do Gilyto, mesmo trabalhando, arranjei um tempo e cá estou eu a promover o meu disco, na discoteca sonho de ontem e Max Club.

E para quando um espectáculo para um público mais alargado?
Para breve, por agora vou participar em algumas galas, já que o CD atingiu disco de ouro e também estou à espera de outros convites.

Porquê "prendem na bó"?
Reflectindo problemas do quotidiano como a guerra, a fome, a doença etc quis desviar um pouquinha a atenção das pessoas e sem ignorar os problemas distraí-los chamando a atenção para as coisas boas da vida como o amor. Quis sair da rotina das tristezas, e pensar também no quão bom é ter o sentimento de amor, e pensando em fazer que as pessoas se prendam em algo de bom e fugir dos problemas, porque o amor é bom e esse álbum é repleto de amor.

Eddu, neste momento, como é que a comunidade cabo-verdiana está, pelo menos, nos lugares onde frequenta?
Muitos cabo-verdianos queixam-se de problemas financeiros, já que o país atravessa um período muito crítico, mas o nosso povo vem lutando, já que somos um povo lutador e cheio de esperança. Há problemas, mas também há muitos casos de sucesso e a tendência é para melhoria.

Os jovens artistas cabo-verdianos têm tido oportunidades, por exemplo, no mundo da música?
Acho que as oportunidades neste sentido não tem sido muitas, porque há muitos casos de talentos e nem todos tem a mesma sorte ou os mesmos contactos ou meios para gravar. Acho até que deveria haver uma instituição que apoie a juventude cabo-verdiana, nesse sentido. Há ainda outro caso que é a divulgação, muitos até conseguem gravar, mas não têm oportunidades para divulgar o trabalho feito. Acredito que se tivéssemos uma pessoa responsável pela divulgação do nosso trabalho, a nossa cultura seria muito mais conhecida e todos nós sairíamos a ganhar: essa pessoa, o artista a nossa cultura e Cabo Verde, em geral. Eu lamento muito essa situação, gostaria vê-la resolvida e aos jovens talentos o apelo é de luta constante e não de desistência.

Quer deixar alguma mensagem?
Que valorizem a nossa música e os nossos artistas, que dêem oportunidades aos jovens talentos, que incentivem os artistas, que sejam mais solidários. Outra preocupação é com Cabo Verde, no seu todo. Sinto triste, quando oiço cabo-verdianos a recear vir passar férias cá, por causa da violência, assaltos entre outros. A paz, a tranquilidade sempre foi a nossa particularidade e essa imagem negativa de hoje nos tem entristecido.

Temos que lutar por um Cabo Verde de paz onde todos circulam à vontade e com a mesma tranquilidade e imagem que sempre tivemos. Devemos cultivar esses valores para que as pessoas tenham o prazer de vir cá para passar férias e viver.

12-7-2008, 02:04:09

 

Eder lança primeiro CD

http://www.expressodasilhas.sapo.cv/noticias/detail/id/6562/

Eder Xavier já tem no mercado, o seu primeiro trabalho discográfico a solo. Depois de participar no projecto Hip Hop Praia com o single Mi gô, o Jovem músico apresenta "Perfil". O CD produzido pela AV produção (Gugas Veiga).

Conforme o artista o álbum "Perfil" representa tudo o que ele entende da música. "Fala de mim enquanto apreciador de música, enquanto compositor de poesias. "Perfil" de um Eder que fala muito da mulher, de poesias, da musicalidade e brilho da música".
"Perfil" tem dez faixas, todos da autoria de Eder. "Feito com todo o carinho, esforcei-me muito para conseguir", afirma Eder Xavier, apelando ao público para que receba o trabalho com a mesma dimensão com que foi concebido. "Que seja reconhecido como um trabalho de muito esforço".

O trabalho discográfico está à venda, desde segunda-feira, 1 de Dezembro, mas começou a ser rodado nas rádios nacionais desde sexta-feira, 28. Contou com a participação de Amílcar (Micau) Chantre na Bateria, Hernâni Almeida, na Guitarra e Ulisses Português, no Teclado e Samira, no coro.

Eder tem, como fonte de inspiração, a mulher e em especial a mãe (Lola). "Respeito muito a mulher: seja ela mulher mãe, mulher namorada, mulher irmã, sobretudo na sua expoente máxima, que é a mulher mãe".
Foi aos dezasseis anos de idade que no concurso musical "Todo mundo canta" Eder teve o primeiro contacto a sério com a música, interpretando "Lua" de Princesito. "Comecei no mundo musical sempre com muita seriedade".

Depois do concurso, surgiram convites para espectáculos, posteriormente para gravação de um disco. "Mas queriam um disco com temas que não foram produzidos por mim". "Enquanto cantor queria que fosse as da minha autoria". "Já tinha as minhas composições, e queria dar prioridade às minhas".

Em 2005 o jovem cantor foi convidado pelo produtor Gugas Veiga a participar no projecto Hip Hop Praia. Surgiu a primeira oportunidade para Eder brindar o público com o tema Mi Gô que foi muito bem recebido. Desde então, muitos foram os convites para gravar um CD a solo. "Levei dois anos a preparar este trabalho".

Tudo mudou depois da participação no projecto Hip Hop Praia. "Da minha primeira participação num CD ao meu trabalho a solo, muita coisa mudou". Eder começou a participar em espectáculos que o ajudaram bastante a amadurecer como músico. "Conheci muitos artistas e já trabalhei com alguns e isso ajudou-me bastante para amadurecer como músico e dá outra consistências às minhas músicas.

Eder adquiriu o gosto pela guitarra, através do guitarrista Aurélio Santos.
As pessoas que impulsionaram o jovem talento foram o Princesito e o Aurélio Santos. Conforme o artista, Princesito "porque quando fui participar no concurso "Tudo Mundo Canta", disponibilizou-se em ensinar-me a cantar a música Lua com o qual fiz sucesso naquele certame". Aurélio por me ter ajudado a dar os primeiros passos na guitarra.


Eder é de opinião de que a música cabo-verdiana não está a evoluir como merecia, exemplificando que não há apoio para músicos e para a música cabo-verdiana. "Temos um maior investimento musical vindo do estrangeiro. A música cabo-verdiana precisa de mais espaço. Falou também da falta de existência de salas de espectáculos.


"Gostaria que houvesse mais espaço, para todos os que querem enveredar para o mundo da música. Por mais que haja qualidade não se consegue mostrar, se não houver espaço para mostrar o talento".

Trabalhar no campo da música em Cabo Verde não é fácil. Um dos objectivos do Eder é fazer uma formação profissional na área da música.
Eder Xavier, 24 anos de idade, é filho de António Xavier e de Maria Glória. Concluiu o ensino liceal e é apresentador na Televisão Tiver.

Em criança tinha queda para desenho. Formou-se em pintura artística. Foi aos 14 anos que começou a interessar-se pela música e fez as primeiras composições. " Quem me fez gostar da música estrangeira foi o meu primo Azaias. As minhas músicas são muito influenciadas pela música além fronteira. Oiço normalmente, Rap, R&B, Slow, Rock. Penso que as minhas músicas se identificam mais com o estilo americano".

Músicos cabo-verdianos de referências do jovem são Hernâni Almeida, o já falecido Orlando Pantera, Zeca de Nha Reinalda e Beto Dias. Internacionalmente, aprecia os norte-americanos John Legend, Otis Redding e o camaronês Richard Bona.

6-12-2008, 11:23:19
JC, Expresso das Ilhas

 

Egidio - Interview with

 http://www.asemana.publ.cv/article.php3?id_article=1306  25-12-04


His vocation: playing the violin  
 
25/12/2004
The earth is part of Egidio’s life. A gardener by profession, five days a week, beginning at eight o’clock in the morning, his hands delve into the soil of the gardens of the town of Ribeira Brava to help keep them healthy and green. In their free time, these same hardened hands are the instruments in a noble art that is an old tradition on the island of São Nicolau - violin playing. A nephew of the legendary Mané Pchei, Egidio, who is the leader of the group Revelação, speaks in this interview of how he discovered his vocation for playing the violin, tells of is group’s projects and makes a diagnosis of the state of music on the island of São Nicolau. 

  How did music enter your life? 
 
 When I was seven years old I began playing stringed instruments, first the guitar and only later the violin. In fact, the first violin I ever played was improvised by me. At 14 I began to play at dances and wedding parties, as well as in a number of traditional celebrations on the island of São Nicolau.
 

  Who taught you to play?
 
 My father played the guitar and taught me how to play it. But I learned to play violin by myself, I didn’t have a teacher. I learned everything by myself through observing others who played and developed my capacities in this way.
 

  Does this mean that you didn’t learn music in a more formal way? In other words, that you don’t read or write music?
 
  Right, I learned everything by ear thanks to my sensibility, because on São Nicolau there are no music schools.
 

  Tell us what this homemade violin you learned to play on was like.
 
  It was made out of a can of olive oil, wicker reed and a little bit of wood. I found some strings and made the bow as well.
 
  When was the first time you played on a real violin?
   A cousin of mine who lives in Holland knew I played but didn’t have a quality instrument, and he sent me one. It was the first time I played on a real violin, except for the few times I had held other musicians’ violins.
 
  What are your recollections of those first years you played at traditional dances and festivities? What was there then that doesn’t exist today?
 
  Back then the music, which was essentially acoustic, wasn’t the only thing that was different. The lyrics of the compositions were different as well. Nowadays people are more into zouk, we have Cape Verdean music transformed into zouk. But I believe that we should conserve our traditional musical genres.
 
  This tendency toward zouk is aggravated here on São Nicolau by the fact that there are fewer and fewer violinists residing on the island, isn’t that right?
 
  Yes, there are fewer and fewer and acoustic and traditional groups. Young people prefer foreign styles and turn their backs on those that have to do with Cape Verde.
 
  Is your group, Revelação, the only one trying to maintain the tradition of Cape Verdean music, or are there other companions in this “struggle”?
 
  There are other groups on São Nicolau - Os Dinâmicos, foe example - but they play music with a zoukified rhythm. I would have to say that Revelação is the only group I can think of in the traditional style.
 
  If young people prefer zouk and they’re the majority of the population, does Revelação still receive invitations to play?
 
  Yes, in spite of this situation, we’ve received quite a few invitations.
 
  Where do you play?
 
  We play in the various different towns and villages on São Nicolau, we’ve been to São Vicente as well, we’ve played five or six times on Sal, we’ve performed five times on Boa Vista, once at the Praia da Cruz festival and once at the Morna Festival... We’ve also been to the island of Santiago, where we participated in a festival organized by PBS - Festvale - and we recently played three concerts in one of Praia’s hotels.
 
  So what I gather is that you play more often off of than on the island.
 
  Not necessarily. We’ve played on other islands, but here on São Nicolau we play at dances on the weekends and at other events when they’re organized here on the island.
 
  What are your performances like? Do you simply play, and people watch motionless, or does the custom of dances still persist on São Nicolau, what we call “bódje de rabeca” [fiddle dance] in Crioulo?
 
  Yes, the fiddle dance tradition is still very strong on São Nicolau. And our group is often invited to play at these dances. And even young people have begun to regain interest, after a certain period of disinterest regarding this type of party.
 
  What is it that Revelação doing in order to capture young people’s attention? Have you done anything different to captivate young people without losing the traditional character of the fiddle dance?
 
  I think we’ve managed to preserve Cape Verde’s and, in particular, São Nicolau’s traditional music, and young people, seeing older folks’ enthusiasm at these dances and the beautiful way they dance a mazurka or a waltz, have also began to gain interest in fiddle dances.
 
  Is this involvement in traditional and acoustic music restricted to dances, or are young people also interested in learning to play the instruments?
 
  Some of them show interest but don’t dedicate themselves entirely, maybe for lack of motivation.
 

  In your opinion, would the creation of a music school here on São Nicolau solve the problem?
 
  A music school on São Nicolau would be very important even for people like me, who know how to play, because they would learn new things, for example, reading written music. And it would certainly help awaken young people’s passion for music and their desire to play not just the guitar, but also the ukulele, the violin and other instruments. Because before there were lots of people who played these instruments, and others who played wind instruments.
 
  These people eventually passed away or emigrated, and the island was left without anyone who could take on the role of teacher....
 

  Exactly
 
 There are some forms of traditional Cape Verdean music that are common to all the islands, such as morna and coladeira. But there are other genres that are typical to each of the islands. What musical genres are typical of São Nicolau?
 
  Older generations have conserved these styles throughout their lives up to our generation. For example, contradance, the waltz, the mazurka, lundum... Our group, Revelação, always plays a repertoire that includes these types of music and another genre that is unique to the island of São Nicolau, which is the music played as the newly-web bride is taken from the church, which we continue to preserve,
 
  And what is this music like?
 
  When someone gets married, there’s a group of musicians that accompanies the bride and groom from the church all the way to the house where the wedding party will take place.
 
  Is it an instrumental style, or is there singing? What genre is it?
   We play it instrumentally, but there are compositions with lyrics, which tell jokingly about the newlyweds’ relationship.
   And do people still want this type of music at their weddings today?

  Yes, they request it a lot.
 
  Given that the musical panorama on São Nicolau is currently difficult, how does Revelação survive?
 
  We’d been invited several times by the municipal chamber to play at events to receive guests from off the island... That was when we decided to form the group on our own and begin to exist autonomously. Through the dances we’d play at we managed to gather funds and purchase a few instruments.
 

 Is recording a CD a part of your short-term projects?  This has been a dream of ours for quite some time now. But we need money in order to record a CD. We’re waiting for the opportunity to get a sponsor. All we need is a sponsor to be able to record in a short time. We have a repertoire made up both of older songs that made their way to us through living witnesses and old recordings, and of original compositions, but compositions which always preserve the musical tradition of the island of São Nicolau.

 

- How did music enter your life? 
 
-  When I was seven years old I began playing stringed instruments, first the guitar and only later the violin. In fact, the first violin I ever played was improvised by me. At 14 I began to play at dances and wedding parties, as well as in a number of traditional celebrations on the island of São Nicolau.
 
- Who taught you to play?
 
-  My father played the guitar and taught me how to play it. But I learned to play violin by myself, I didn’t have a teacher. I learned everything by myself through observing others who played and developed my capacities in this way.
 
- Does this mean that you didn’t learn music in a more formal way? In other words, that you don’t read or write music?
 

-  Right, I learned everything by ear thanks to my sensibility, because on São Nicolau there are no music schools.
 
- Tell us what this homemade violin you learned to play on was like.
 
-  It was made out of a can of olive oil, wicker reed and a little bit of wood. I found some strings and made the bow as well.
 
- When was the first time you played on a real violin?
 
-  A cousin of mine who lives in Holland knew I played but didn’t have a quality instrument, and he sent me one. It was the first time I played on a real violin, except for the few times I had held other musicians’ violins.
 
- What are your recollections of those first years you played at traditional dances and festivities? What was there then that doesn’t exist today?
 

-  Back then the music, which was essentially acoustic, wasn’t the only thing that was different. The lyrics of the compositions were different as well. Nowadays people are more into zouk, we have Cape Verdean music transformed into zouk. But I believe that we should conserve our traditional musical genres.
 
- This tendency toward zouk is aggravated here on São Nicolau by the fact that there are fewer and fewer violinists residing on the island, isn’t that right?
 

-  Yes, there are fewer and fewer and acoustic and traditional groups. Young people prefer foreign styles and turn their backs on those that have to do with Cape Verde.
 
- Is your group, Revelação, the only one trying to maintain the tradition of Cape Verdean music, or are there other companions in this “struggle”?
 
-  There are other groups on São Nicolau - Os Dinâmicos, foe example - but they play music with a zoukified rhythm. I would have to say that Revelação is the only group I can think of in the traditional style.
 
- If young people prefer zouk and they’re the majority of the population, does Revelação still receive invitations to play?
 
-  Yes, in spite of this situation, we’ve received quite a few invitations.
 
- Where do you play?
 
-  We play in the various different towns and villages on São Nicolau, we’ve been to São Vicente as well, we’ve played five or six times on Sal, we’ve performed five times on Boa Vista, once at the Praia da Cruz festival and once at the Morna Festival... We’ve also been to the island of Santiago, where we participated in a festival organized by PBS - Festvale - and we recently played three concerts in one of Praia’s hotels.
 
- So what I gather is that you play more often off of than on the island.
 
Not necessarily. We’ve played on other islands, but here on São Nicolau we play at dances on the weekends and at other events when they’re organized here on the island.
 
- What are your performances like? Do you simply play, and people watch motionless, or does the custom of dances still persist on São Nicolau, what we call “bódje de rabeca” [fiddle dance] in Crioulo?
 
Yes, the fiddle dance tradition is still very strong on São Nicolau. And our group is often invited to play at these dances. And even young people have begun to regain interest, after a certain period of disinterest regarding this type of party.
 
- What is it that Revelação doing in order to capture young people’s attention? Have you done anything different to captivate young people without losing the traditional character of the fiddle dance?
 
I think we’ve managed to preserve Cape Verde’s and, in particular, São Nicolau’s traditional music, and young people, seeing older folks’ enthusiasm at these dances and the beautiful way they dance a mazurka or a waltz, have also began to gain interest in fiddle dances.
 
- Is this involvement in traditional and acoustic music restricted to dances, or are young people also interested in learning to play the instruments?
 

 Some of them show interest but don’t dedicate themselves entirely, maybe for lack of motivation.
 
- In your opinion, would the creation of a music school here on São Nicolau solve the problem?
 
-  A music school on São Nicolau would be very important even for people like me, who know how to play, because they would learn new things, for example, reading written music. And it would certainly help awaken young people’s passion for music and their desire to play not just the guitar, but also the ukulele, the violin and other instruments. Because before there were lots of people who played these instruments, and others who played wind instruments.
 
- These people eventually passed away or emigrated, and the island was left without anyone who could take on the role of teacher....
 
Exactly
 
- There are some forms of traditional Cape Verdean music that are common to all the islands, such as morna and coladeira. But there are other genres that are typical to each of the islands. What musical genres are typical of São Nicolau?
 

Older generations have conserved these styles throughout their lives up to our generation. For example, contradance, the waltz, the mazurka, lundum... Our group, Revelação, always plays a repertoire that includes these types of music and another genre that is unique to the island of São Nicolau, which is the music played as the newly-web bride is taken from the church, which we continue to preserve,
 
- And what is this music like?
 
When someone gets married, there’s a group of musicians that accompanies the bride and groom from the church all the way to the house where the wedding party will take place.
 
- Is it an instrumental style, or is there singing? What genre is it?
 
We play it instrumentally, but there are compositions with lyrics, which tell jokingly about the newlyweds’ relationship.
 
- And do people still want this type of music at their weddings today?
 
Yes, they request it a lot.
 
- Given that the musical panorama on São Nicolau is currently difficult, how does Revelação survive?
 
 We’d been invited several times by the municipal chamber to play at events to receive guests from off the island... That was when we decided to form the group on our own and begin to exist autonomously. Through the dances we’d play at we managed to gather funds and purchase a few instruments.
 
- Is recording a CD a part of your short-term projects?
  This has been a dream of ours for quite some time now. But we need money in order to record a CD. We’re waiting for the opportunity to get a sponsor. All we need is a sponsor to be able to record in a short time. We have a repertoire made up both of older songs that made their way to us through living witnesses and old recordings, and of original compositions, but compositions which always preserve the musical tradition of the island of São Nicolau.

 

Eleutério Sanches

http://www.ebonet.net/milonga/ver.cfm?m_id=753

 

«Não à definição definitiva»

10/07/2001

 

Eleutério Sanches é dos angolanos que maior projecção alcançou a nível internacional. Divide-se entre a poesia, música, e pintura e entende que no fundo os artistas sempre foram marginalizados e pouco compreendidos pelos políticos.

 

 

«Todos os meus trabalhos estão relacionados com Angola, mesmo quando não parece» diz-nos o artista para quem na arte nada é imediatamente evidente, excepto o facto de não conseguir fugir das suas raízes. «Penso que a identidade está em nós e se vai construindo, porque o que está em nós vai ficando cada vez mais.

 

Se a matriz é África, caminhamos ao seu encontro, paradoxalmente pode haver um desenvolvimento de modernidade. Para além de sermos um mosaico de etnias muito vasto, é nosso dever estarmos abertos ao mundo, mas não me parece que devamos forçar as motivações, e é curioso que muitas vezes, sem ter consciência, o artista acaba por fazer intervenção social» afirma Eleutério.

 

Isto aconteceu consigo quando pintou uma série de quadros cujo ciclo denominou afro-dramático, e que nunca expôs. «Talvez adivinhando o que aconteceu ao nosso país, com a guerra, durante este ciclo sinto que o homem suporta o homem e o mundo, e sobretudo é vítima do próprio homem. Somos realmente um ser com uma capacidade de aguentar muito, mas sempre de forma inconformada», diz o pintor.

 

O seu ciclo afro-dramático começou a preto e branco, foi desenvolvendo depois réplicas a cores. «É um conjunto de trabalhos em que de certo modo é visível, o que se fez no tempo e que seria importante expor em Angola» considera o artista.

 

As árvores e os ovos são símbolos frequentes na pintura deste estudioso que tem feito uma carreira brilhante ao longo dos anos, representando o nosso país em quase todo mundo. «A árvore representa vitalismo, genealogia. O embondeiro por exemplo. É uma árvore espantosa pela transmissão da sua força telúrica, o seu recorte sem folhas e a sua beleza talvez surda há-de ser sempre motivação para mim. Chamei "A alquimia da árvore" a um dos meus ciclos costumo pôr entre parêntesis motivação-imbondeiro.

 

Para ele África é muito primitiva e tem uma linguagem esquemática e profundamente geométrica. Diz usar muito o vocabulário geométrico. «Gosto muito de geometria e penso que é uma forma de conhecimento implícita em toda escrita cósmica universal, por vezes de forma mais explicita outras vezes oculta».

 

A obra de Eleutério Sanches já se tornou inconfundivelmente reconhecida. Em relação a aspectos técnicos sublinha «toda a minha obra começou no preto e branco, com o fundo negro e as linhas em branco e cinza». Considera interessante a terminologia do ponto de vista simbólico e poético, pois tem haver com a técnica ou com os registos afectivos conscientes ou subjectivos.

 

Porém, apesar de desenvolver a sua arte dentro de uma disciplina de ciclos, estes coexistem, tornando-se abordagens inacabadas e o pintor rejeita definições «repudia-me sempre definir pela definição definitiva. A arte é sobretudo um exercício de liberdade, prefiro viver a experiência sem prever para onde vou. Vou viajando pela arte».

 

Questionado sobre o que há de abstracto nas suas obras diz «Tenho ciclos em que procuro trabalhar aspectos abstractos porque na arte, eles podem enriquecer a parte figurativa, e em algumas peças posso ficar só pelo abstracto sem a preocupação de subservir o figurativo.

 

Classifica o dialogo entre abstracto e figurativo como sério e complexo. Mesmo quando dou por terminado o abstracto e vou para a pintura conceptual, de textura, mancha etc., não sei se isso não é figurativo porque acabamos por ver isso também na própria natureza. A verdade é que as vezes tenho dificuldade de separar o figurativo do abstracto».

 

Eleutério assume-se como investigador e sublinha que a experiência como professor lhe permitiu cultivar as relações humanas pois tem amigos que foram seus alunos, com quem fez e fará coisas em conjunto. Com 22 exposições individuais realizadas e mais 20 participações em colectivas Sanches considera qualquer hora boa para ensaiar os seus traços rectos ou circulares, mas diz «luz do dia é importante para a leitura da cor, de toda a sua textura, luminosidade e vibração. Contudo, há trabalhos de muita disciplina em que codificamos as cores, e pintamos mesmo de noite».

 

Este senhor de múltiplos talentos deixou Angola em 1961, tem regressado esporadicamente, e lá possui obras em diversas instituições privadas e do Estado. Na poesia, Eleutério deixou a sua marca com o livro «Tuque Tuque de Batuque».

 

Na música com Carlos Sanches

Embora escreva muitas letras que espera puder cantar agora que se aposentou, a maior parte das suas composições não estão divulgadas.

 

A música a qual se dedica desde muito jovem ocupa um lugar privilegiado no coração de Eleutério Sanches, e leva-o de volta, à Luanda do antigamente, «às farras, despiques e carnavais e muitas outras formas de diversão que punham em destaque os atributos quentes da beleza africana, ficaram célebres muitos terreiros e quintais dos musseques, do bairro operário, da Maianga, da Luanda rural e burguesa…».

 

Os temas, correspondem a uma das opções possíveis numa recolha antológica, das últimas cinco décadas. «"Trovando massembas", da Luanda que vivemos, as memórias e o afecto intemporal que nos uniu, escreve ainda o poeta na dedicatória do CD.

 

Produzido por Manuel Tocha dos Estúdios da Novaga para a Editora EMI-Valentim de Carvalho, Serenata Luanda evoca o espírito da época em que havia na capital de Angola o culto da convivialidade através da música, normalmente associada também à dança, aos ritmos e coreografias tradicionais: kazucuta, kilapanga, rebita, kabetula, semba e outros géneros aculturados do ritmo afro-latino, brasileiro ou afro-luso.

 

Com acompanhamento do grupo Paracuca, vocacionado para a música urbana de Angola, este CD onde as letras são de autoria de Eleutério e Carlos Sanches. Eleutério revelou-se como interprete e compositor quando ainda era estudante, foi solista e par da sua irmã a consagrada cantora Lily Tchiumba, teve aulas de canto para aperfeiçoar o seu timbre de barítono-baixo, e a sua extensão de voz.

 

Emprestou voz e música à banda sonora de alguns filmes documentais sobre Luanda e Sá da Bandeira do cineasta António de Sousa e na década de 50 actuou com Fernando de Assis, com Liceu Vieira Dias no N’gola Ritmos, fez parte do grupo Jograis de Angola que não teve uma existência muito longa mas que foi deveras importante na divulgação e afirmação da poesia de Angola na cultura de expressão portuguesa.

 

Sanches e o seu irmão Carlos, são os intérpretes e autores da maioria dos temas incluidos, nomeadamente «Canto Híbrido», «Luanda Ai Ué», «Luanda é um Cafeco», «Serenata a Luanda», «Musseque Saudade», «As Belas de Sangandombe» e «Dianda», tendo nalguns a colaboração da cançonetista angolana Milita, que despontou nos anos sessenta em Luanda, assim como de uma grande senhora da canção angolana Sara Chaves, que neste CD interpreta a célebre canção «Mulata é a noite».

 

Eleutério e Carlos Sanches são filhos de um poeta e músico cabo-verdiano, dedicam-se à música desde 1960. Carlos Sanches foi influenciado pelos irmãos mais velhos Lily Tchiumba, Eleutério e Manuel. Em 1964 fundou o seu primeiro grupo musical «Os Tigers», depois de 1974 actuou em vários grupos em diversos eventos, concertos, bailes e espectáculos em Luanda e na maioria das cidades angolanas.

 

Os sons do seu violão acompanharam a maioria dos artistas e cantores daquela época e colaborou frequentemente em espectáculos e gravações na Emissora Oficial de Angola. Em Portugal Carlos lidera o grupo «A Malta da Paracuca» depois de ter actuado a solo em bares concerto e na Rádio Televisão Portuguesa, acompanhando artistas como Lily, Bonga, Eleutério, Waldemar Bastos, nomeadamente em programas como Africaníssimo de Jorge Letria, Às Dez, no Porto e 123 de Carlos Cruz. Carlos Sanches formou o grupo Madizeza que se popularizou pelas actuações em festivais de música africana que se realizaram entre 1978- 1980 em Cascais. Em 1990 forma o grupo «Fruta Tropical» que actuou de norte a sul de Portugal e desde 1996 que faz parte da Orquestra Salpicante que anima as noites das docas em Alcântara. Com Eleutério, Carlos tem realizado vários projectos entre os quais Serenata Luanda e a obra poética «África Raíz» de Fernanda Castro que foi totalmente musicada pelos dois. Recentemente compôs a primeira sinfonia africana com a colaboração técnica do compositor espanhol especializado em tímbrica, Maestro Elígio Vazquez.

 

O CD ora lançado, segundo uma nota de apresentação inclui uma selecção de temas, em som de serenata, que corresponde a uma das opções possíveis numa recolha antológica que decorre das últimas cinco décadas, «viajando sons antigos» e «trovando massembas» da Luanda cuja vivência deixou grandes saudades a muita gente que as memórias e afectos intemporais continuam a unir.

 

Eleutério pretende acabar colecções que começou há 8/9 anos «se as conseguir vender não me importo de investir na música já que nessa área tenho privado com pessoas que estão na mesma busca de exigência e dignificação do que é nosso. Tem sido difícil encontrar estímulos, parece que só se privilegia o que é mau em termos de música nos últimos anos», diz entristecido o artista, adiantando que a música angolana tem um grande património que não tem sido valorizado.

 

A paixão pela terra natal inclui a culinária angolana. Sanches é também um dos donos do restaurante Canto Quente aberto no início deste ano em Alcantâra (Lisboa). É -*---mais um espaço onde o funge, o musongué e outros petiscos de Angola são servidos aos que querem matar a saudade e aos que se iniciam como consumidores.

 

Sílvia Milonga

 

Félix Lopes “Bandera, rei di talaia” em gestação

http://www.expressodasilhas.sapo.cv/noticias/detail/id/6008/

É um CD que está em "banho-maria" e que a seu tempo virá à luz do dia. Já tem nome, estilos e projecção de saída: meados de 2009. A obra é uma viagem às riquíssimas tradições do Fogo, ilha que já deu grandes nomes à cultura destas ilhas, porém tem sido esquecida, mesmo a nível cultural. Talaia Baxu, Brial e Maria Tana são alguns géneros constantes desta futura obra, por meio da qual o seu autor, Félix Lopes, quer cantar a ilha e enaltecer a alma do seu povo.

O artista foguense, Félix Lopes, natural dos Mosteiros, está a preparar o seu primeiro trabalho em disco, que espera poder editar em meados do próximo ano. É um trabalho que poderia ter sido editado há cerca de dois anos, mas devido à sua complexidade, a sua saída tem sido condicionada. Problemas financeiros têm sido outro obstáculo, mas estima-se que em meados de 2009, a obra esteja no mercado. "É um trabalho profundo. Se fosse simplesmente um CD, já estaria pronto há muito. É uma obra importante, que vai "desenterrar" a ilha do Fogo, na medida em que vou dar a conhecer aquilo que outros artistas fizeram. O meu trabalho vai trazer mais alegria à ilha, por isso é que muita gente me encoraja e me pergunta para quando a saída deste CD", comenta.

Baptizado como "Bandera, rei di talaia", o primeiro disco a solo de Félix Lopes comporta, entre 13 a 14 temas, estilos genuínos da ilha do Fogo, como "Talaia Baxu", "Brial" e "Maria Tana", este último uma versão de "Braga Maria", estilo característico dos Mosteiros, berço do autor desta obra, que mais do que um CD, figura ser um "livro em disco", na medida em que é um "profundo trabalho" de investigação. Entretanto, nem todos os estilos do autor podem ser eternizados neste primeiro CD, por isso mesmo já idealiza futuros trabalhos. "É pena que algumas músicas fiquem de fora, mas garanto que serão gravadas, num próximo trabalho", aponta Lopes, garantindo que a maior parte das músicas que constam do seu trabalho, são produção de artistas do Fogo, alguns conhecidos, outros nem tanto. "Vou contar com dois nomes sonantes da música cabo-verdiana, Manel d' Novas e Ney Fernandes, dois artistas que interpreto sempre nas minhas actuações", afiança o autor, que também deseja ter a participação de outros artistas como Bau, Voginha e/ou Ramiro Mendes, neste seu CD. "É minha intenção incluir no meu projecto, artistas que em certa medida, vão enriquecer o trabalho", revela, fazendo saber que os trabalhos da produção de "Bandera, rei di talaia", serão dirigidos pelo "mestre" Kim Alves. "Ele (Kim Alves) conhece muito bem a cultura do Fogo, nos seus mais variados aspectos", observa.

Cantar e enaltecer o Fogo
Com este seu trabalho, Félix Lopes pretende não só cantar, como enaltecer a sua querida ilha, "grandiosa" outrora. "Eu vou cantar a minha ilha, grandiosa, no passado, vou enaltecer a alma do povo foguense. Está tudo, neste CD", assevera, para de seguida deixar algum suspense em relação ao tema que abre o CD. "Será uma música da ilha do fogo, que enaltece toda a ilha, é um retrato da ilha", responde, sem entrar em detalhes para poder surpreender e agradar os seus ouvintes e fãs. Já agora, que música é, perguntamos: "prefiro não adiantar neste momento, fica em segredo...", responde.

Quanto ao nome do CD, há muito guardado a sete chaves, Felix não conteve e acabou por revelá-lo, ao Expresso das Ilhas. Trata-se de uma homenagem aos próprios estilos musicais da ilha e as gentes que cantam a ilha. "Bandera, é um dos géneros musicais da ilha do Fogo, e rei di Talaia são todos os artistas que cantam o Talaia Baxu", explica o artista que se mostra empenhado neste projecto.

Apoios, quase nada
Enquanto no Fogo "não é tradição" as autoridades locais aderirem a projectos do tipo, como gravações de CD's, o artista aguarda, pacientemente, que o que a ele for destinado vai chegar às suas mãos. "É um projecto de longa data", recorda. Félix Lopes já enviou vários pedidos de apoio a um conjunto de instituições, mas até hoje, quase ninguém respondeu. "Já enviei alguns projectos mas continuo à espera", responde, aparentando um sentimento de desgosto.

O autor de "Bandera, rei di talaia", por cantar neste seu disco o tema "passadinha", uma morna "muita bonita", que canta a ave de nome científica Halcyon, entretanto em vias de extinção, considera que o Governo, através do ministério do Ambiente poderia patrocinar esta sua obra. "Por este facto esperava que as autoridades (Governo) pudessem aderir ao projecto, tendo em conta sobretudo, esta música que fala do meio ambiente", advoga.

A mágoa do artista
Félix Lopes é categórico quando o questionamos sobre a situação da Cultura, actualmente em Cabo Verde. "É com muita mágoa que falo da cultura (secção musical), tanto aqui do Fogo como das outras ilhas", começa por responder, para logo de seguida considerar que os músicos cabo-verdianos deviam ter mais apoios, até porque, acrescenta, "aquilo que os músicos fizeram para o país é de longe superior aos apoios que nós recebemos". No seu caso concreto, Lopes diz: tenho feito muito para a cultura do Fogo, e as pessoas sabem disso. Aquilo que não fiz, é porque não tive apoios consideráveis. Toda a minha vida tem sido ligada à música", garante.

Avaliando negativamente o consulado de Manuel Veiga à frente do Ministério da Cultura, sobretudo no sector da música, Lopes é taxativo: "o actual ministro faz muito pouco pela música". "A apreciação é também feita pelos músicos da ilha do Fogo e de outras ilhas", acrescenta.

Para explicar a sua "mágoa" em relação à cultura, Lopes informa que, do Fogo, vários projectos musicais têm sido encaminhados para o Ministério da Cultura, mas "nunca" há respostas. "É uma autêntica falta de respeito", considera.

O não apadrinhamento das festas de S. Filipe, no Fogo, assim como outros eventos de grande envergadura, a nível nacional, como Baía das Gatas, são ainda apontados como razões desta mágoa que o artista aparenta quando fala da Cultura. "É a mágoa, que as autoridades locais têm para com o Ministério da Cultura", sentencia, considerando que o Ministério da Cultura deve trabalhar e apoiar os projectos dos artistas: "aquilo que os músicos cabo-verdianos fazem é de longe melhor que aquilo que o Ministério da Cultura faz", avalia.

Secretaria de Estado da Música
Considerando que a nossa música "tem pernas para andar", Félix Lopes defende que é chegado o momento para se pensar na criação de uma Secretaria de Estado para a Música, em Cabo Verde, instituição que a seu ver ocupar-se-ia da pirataria que dá cabo dos artistas e das produtoras musicais. "A pirataria vende mais que os originais. Quem sai prejudicado não é apenas o artista, mas também o país", lamenta o nosso entrevistado, que perspectiva uma Secretaria da Música que enalteça este género cultural.

Para Lopes, com a criação de uma secretaria de Estado, que se ocupasse tão-somente da música, as coisas poderiam funcionar melhor, até porque "o Ministério da Cultura já demonstrou que não tem poder para resolver" a questão da pirataria. "Os produtores musicais, na cidade da Praia, reuniram-se, recentemente, para debater esta questão, e tomaram algumas recomendações que foram enviadas ao Ministério da Cultura para, em parceria com o Ministério da Justiça, acabar de vez com a pirataria. Até hoje nada se fez", anota. Por isso mesmo, Félix Lopes acusa Manuel Veiga de não ter sensibilidade para a música.

Professor de profissão, Félix Lopes, diz conhecer todas as músicas de Cabo Verde, dos primórdios, com Fernando Queijas, Marino Silva, Mário de Melo, passando pelas composições de Eugénio Tavares, B. Leza e Manel d' Novas.

26-10-2008, 16:22:01 ACG, Expresso das Ilhas

 

Fernando (Quejas), o Pioneiro

http://portaldecaboverde.com/p14/index.php?option=com_content&task=view&id=1204&Itemid=71    domingo, 30 outubro 2005

 

Fernando Aguiar Quejas:  Praia, 1922 - Lisboa, 2005

Fernando Quejas - cujo apelido, que vem de antepassados espanhóis, é frequentemente grafado, incorrectamente, "Queijas" - foi o pioneiro na divulgação da música cabo-verdiana em Portugal, onde se fixou em 1947 e onde gravou 22 discos 45 rpm entre 1952 e 1973. Firmou-se rapidamente no cenário da música de variedades da altura, baseada nos programas radiofónicos com emissões em directo, e percorreu Portugal a actuar em casinos, eventos diversos e nos chamados Serões para os Trabalhadores, promovidos pela Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho (FNAT) e que duraram até o 25 de Abril.

 

Dos seus primeiros tempos, Fernando Quejas recorda um espectáculo no luxuoso Casino da Praia da Rocha, em Portimão. "Chego ao casino e vejo um cartaz enorme com o meu nome. Não pensava que ia actuar sozinho, pois não era muito famoso." Ao lado, outro cartaz anuncia Amália Rodrigues no dia seguinte. "Atacaram-me os nervos, fiquei mal disposto. Eu num dia, Amália no outro, quem virá ao meu espectáculo? À noite, na hora de subir ao palco, vejo a sala completamente cheia, com pessoas em pé ao fundo", recorda. Enquanto duram os aplausos, o cantor chora, emocionado: "Era uma situação inesperada para mim. Depois acabei por descontrair, e foi uma noite memorável", lembra o cantor.

 

O pontapé de saída da sua carreira em Portugal fora, em 1948, a participação no Programa da Manhã, do locutor Artur Agostinho, na Emissora Nacional (EN), cantando música brasileira - que na sua juventude em Cabo Verde era tão popular como a morna. E foi convincente a ponto de, ao terminar o seu primeiro programa, um ouvinte brasileiro telefonar para a emissora para falar com o artista, perguntando de onde era, no Brasil. "Sou de Cabo Verde". "Mas Cabo Verde é Portugal, não é no Brasil", contesta o outro. "É isso mesmo", confirma Quejas, deixando incrédulo o interlocutor. Algum tempo depois, passa por um exame e é admitido no elenco da EN. É de forma gradual que Fernando Quejas introduz a morna no seu repertório, no qual se destacam pela frequência temas de B.Léza, Eugénio Tavares e Jotamonte. "A morna era praticamente desconhecida em Portugal, era difícil encontrar músicos cabo-verdianos para o acompanhamento, as pessoas não percebiam o crioulo", afirma o cantor, justificando a sua opção de aportuguesá-las. Quejas foi acusado em Cabo Verde de estar a deturpar a morna, pelas letras em português e por alguma influência dos ritmos sul-americanos. Mas a verdade é que, se ao vivo as cantou em português, só raramente o fez nos seus discos. Na altura, houve quem o defendesse. Jaime de Figueiredo, ao apresentar na Rádio Clube de Cabo Verde (RCCV) um novo disco do cantor, em 1958, situa-o na vanguarda da evolução da morna, numa altura em que esta "já se distancia (...) da velha toada lamentosa que durante muito tempo se cristalizara" e que a interpretação de Quejas "busca ajustar-se a essa transição irremediável".(1)

 

O cantor, que passado meio século do início da sua carreira aparece como um representante da tradição, reivindica o papel inovador que teve naquela altura, ao utilizar o acompanhamento de instrumentos que iam além dos habituais nos grupos de "pau e corda" da altura - violões, violino,  cavaquinho e viola de 12 cordas - e com arranjos que diferiam das interpretações habituais, pela presença de uma introdução instrumental a anteceder o canto. Já no seu primeiro disco, em 1952, orquestrado pelo maestro Joaquim Luís Gomes, Quejas realiza o sonho que levava de Cabo Verde: ver a morna tocada por uma orquestra, ao estilo de Glenn Miller e Benny Goodman, que ouvia pela rádio e nos musicais norte-americanos. Mais tarde, na década de 60, convidado a criar a Orquestra Ligeira Sinfónica da EN, Gomes, já então encantado com a música cabo-verdiana, segundo Quejas, convida-o para a estreia, em que o cantor interpreta o clássico Mar Eterno, de Eugénio Tavares.  

 

Fernando Quejas passou 43 anos sem voltar a Cabo Verde. Fê-lo em 1990, a convite do então presidente da República Aristides Pereira, que soube da confidência do cantor a um amigo sobre a sua mágoa de ver vários artistas portugueses ser convidados a actuar em Cabo Verde e ele nunca o ter sido. Na altura realizou um espectáculo na Assembleia Nacional, reunindo músicos de várias gerações.

 

Antes de sair de Cabo Verde, Quejas já actuava, desde muito jovem, em sessões musicais na Praia, em particular na RCCV, da qual foi sócio-fundador e o primeiro artista a actuar em directo a partir dos seus estúdios. Nessa época, o compositor Jorge Monteiro (Jotamonte), era o regente da Banda Municipal da Praia, e punha-o "de castigo", durante os ensaios, para depois perguntar a sua opinião sobre o resultado. O cantor, aliás, tem uma faceta menos conhecida, que é a de músico, hábil ao piano, violão, violino e outros instrumentos de corda. Na altura da sua partida para Portugal, o poeta Jorge Barbosa dedica-lhe um poema: "Ora que bu bai, Fernando Quejas, / cantá-no la di longe nôs terra!"

 

Além disso, compôs algumas músicas e poemas, que publicou no livro Andante Cantabile - Uma Vida de Mornas (1998), editado na mesma altura em que, após um intervalo de 25 anos nas gravações, saltando toda a era do LP, edita o CD Corredor di Fundo. Apesar da sua vida de mornas, a música sempre foi um hobby para Fernando Quejas, que trabalhou 43 anos em Portugal como funcionário administrativo no sector privado. À parte cantar, na rádio, na televisão e em espectáculos, divulgou a música cabo-verdiana em Portugal através de um programa que dirigiu na EN, no fim da década de 60.

Discografia:

Mornas, 45 rpm, Lisboa, Columbia/VDC, 1952.

Mornas de Cabo Verde - Fernando Quejas e Conjunto Creoulo, 45 rpm, Porto, Alvorada, 1952.

Mornas de Cabo Verde por Fernando Quejas e seu conjunto, 45 rpm, Porto, Alvorada, d. 50.

Fernando Quejas, 45 rpm, Porto, Alvorada, d. 50.

Mornas de Cabo Verde, 45 rpm, Porto, Alvorada, d. 50.

Fernando Quejas, 45 rpm, Porto, Alvorada, d. 50.

Mornas por Fernando Quejas, 45 rpm, Porto, Alvorada, d. 50.

Mornas, 45 rpm, Porto, Alvorada, d. 50.

Fernando Quejas, 45 rpm, Porto, Alvorada, d. 60.

Mornas, 45 rpm, Porto, Alvorada, 1964.

Mornas e Coladeiras, 45 rpm, Porto, Alvorada, d. 60.

Música de Cabo Verde, 45 rpm, Porto, Alvorada, d. 60.

Mornas e Coladeiras, 45 rpm, Porto, Alvorada, d. 60.

Mornas - Cabo Verde, 45 rpm, Porto, Alvorada, d. 60.

Cabo Verde, 45 rpm, Porto, Alvorada, 1970.

Mornas e Coladeiras, 45 rpm, Porto, Alvorada, 1971.

Música de Cabo Verde, 45 rpm, Porto, Alvorada, 1973.

Côrrêdor di Fundo, CD, Lisboa, Isabel Quejas/Carlos Barroco, 1999.

 

Composições gravadas por outros intérpretes:

Sodade de B.Léza - Dany Carvalho, CD Feliz Ano Nobu, 1996; Bana, CD Ao Vivo (Coliseu), 1999.

Mensagem Creoula - Titina, CD Lisboa nos Cantares Cabo-Verdianos (vários artistas), 2001.

 

Notas:

(1) Figueiredo, Jaime, "Apresentação das mornas de Fernando Quejas", Emissão do dia 21.01.1958 do RCCV, Praia. Arquivo pessoal Fernando Quejas.

 

(2) Barbosa, Jorge, "Poema para Fernando Quejas", in Andante Cantabile - Uma Vida de Mornas. Tradução: "Quando partires, Fernando Quejas, canta-nos lá de longe a nossa terra!"

 

 Obs.: Este texto é parte do "Dicionário dos Personagens da Música de Cabo Verde", da autoria de Gláucia Nogueira, no prelo

 

Ferro Gaita Santiago na boca de Cabo Verde

 

A Semana 18/09/2004

Uma espécie de terramoto abanou o país musical Cabo Verde quando, em 1997, três rapazes se atreveram a lançar um disco feito à base de gaita, ferrinho e viola baixo. Deram-lhe o nome de Fundu Baxu, disco que ficará na história da música cabo-verdiana como um dos mais vendidos de sempre, assim como o grupo – Ferro Gaita –, que é hoje a “cara” do novo funaná e um dos porta-bandeiras dos géneros tradicionais produzidos nas profundezas das ribeiras e vales de Santiago, graças aos discos Rei di Tabanka e Bandera Liberdade, colocando na boca de todos os cabo-verdianos reza, batuco e tabanka. Como conseguiu tudo isto? Eduíno, mentor e líder do Ferro Gaita, conta-nos nesta entrevista ao asemanaonline o enredo desta aventura e os sonhos que guardam no coração para o futuro da banda.

 

Entrevista por: Teresa Sofia Fortes

 

- Ferro Gaita surgiu em 1996, com três elementos – Eduíno, Bino e Paulino. Como surgiu a ideia de criar um grupo com apenas ferrinho, gaita e baixo?

 

- A ideia foi minha. Já eu tinha alguma experiência, pois tocava no conjunto dos Pioneiros, mas como o grupo se desintegrou, decidi criar outro grupo. Formei alguns grupos, mas nunca evoluíam. Então, pensei que o ideal fosse formar um conjunto em que eu fosse o líder. Busquei um instrumento que sabia dominar e logo lembrei da “gaita” que o meu pai tocava e que deixou comigo quando emigrou para Portugal. Falei então com o Paulino e comentei com ele que talvez resultasse a combinação de baixo, que ele toca, e a gaita. E deu certo, mesmo.

 

- Mas até serer conhecidos, como foi a vossa vida como grupo? Antes de tocar em público pela primeira vez já tinham composições próprias?

 

- Eu quis aprender a tocar melhor a “gaita” – já sabia algumas coisinhas – e fui ter com aquele grande senhor que é Bitori Nha Bibinha. Ele mostrou como fazer as notas e, depois, fui me aperfeiçoando sozinho. Em apenas uma semana já tinha escrito algumas músicas. «Tchada Fazenda» foi a primeira que compus. Mais ou menos 15 dias depois eu e o Xando fizemos uma gravação na TCV, com algumas músicas que compusemos.

 

- Quando aconteceu a primeira actuação pública?

 

- Creio que foi a 16 de Agosto de 1996, no Garden Grill. Convidámos a TCV para ir lá ouvir a nossa música, mas disseram que ali não havia condições para gravar – devido à luz que não era apropriada, creio eu – e foi, então que, nos convidaram para ir gravar nas instalações da TCV, em Achada Santo António. Até ainda tenho essa gravação. Como dizia, fomos tocar no Garden Grill e, para a nossa alegria, a recepção das pessoas foi muito boa. E assim nascia o grupo Ferro Gaita.

 

- Parece óbvio porque deram ao grupo o nome Ferro Gaita. Não quer falar-nos um pouco da origem do Ferro Gaita?

 

- Estávamos à procura de um nome e lembramo-nos dos dois instrumentos base da nossa música – ferro e gaita – e colou.

 

- Quando é que sentiram que a vossa música cativava a atenção das pessoas?

 

- Como eu te disse, logo na primeira actuação, no Garden Grill, as pessoas reagiram muito bem. Lembro-me que diziam “Forti musika sábi ê kel li, ku ferro e ku gaita”.

 

- Passou muito tempo até surgir o convite para gravarem aquele que seria o primeiro disco do grupo - «Fundu Baxu»?

 

- Mais ou menos três semanas depois que começamos a tocar em público muitas pessoas vinham ter connosco e diziam-nos que a nossa música era boa e que deveríamos gravar um disco. Falei, então, com o Gugas, para ver se ele podia dar expediente para ajudar-nos a gravar um disco. Ele concordou em apoiar-nos e indicou-me umas pessoas com quem deveria falar. Essas pessoas, por sua vez, indicaram-me onde deveríamos ir angariar os fundos. E foi a Secretaria de Estado da Juventude que nos deu mil e quinhentos contos. Fui falar novamente com o Gugas, buscamos mais patrocínios e quando conseguimos a quantia que precisávamos, fomos gravar na Holanda.

 

- O repertório já estava pronto?

 

- Sim. A gravação do disco aconteceu mais ou menos um ano depois da formação do Ferro Gaita e, nessa altura, tínhamos músicas que davam para gravar mais de um disco.

 

- Tem certamente noção que Fundu Baxu» foi um disco que mudou o panorama musical, esgotou no mercado, sendo um dos discos mais vendidos de sempre em Cabo Verde. Imaginavam que seriam assim, um tão grande sucesso?

 

- Eu sempre acreditei que um dia faria sucesso. O meu jeito para a música vem desde a infância e quando temos vocação para uma coisa lutamos, vamos ganhando terreno ano após ano, até alcançar o sucesso.

 

- Alguns dos estilos que Ferro Gaita interpreta – tabanca, batuco, reza, por exemplo – ainda são pouco conhecidos dos cabo-verdianos das outras ilhas. Mas Ferro Gaita e os seus discos são sempre muito bem recebidos nessas ilhas. Surpreende-vos essa recepção?

 

- A recepção tem sido extremamente positiva em todas as ilhas, principalmente em São Vicente. Isso é fruto de muito trabalho e profunda pesquisa. Procuramos pôr na nossa música um bocadinho de sentimento, trabalho de estúdio e, também, letras que dizem alguma coisa às pessoas.

 

- Onde ou junto de quem Ferro Gaita faz pesquisas?

 

- Pesquisei no interior de Santiago. E, uma vez que tenho alguns conhecimentos de música, criei as minhas próprias melodias. Sei ler a pauta musical e com base nisso aprofundei os conhecimentos em relação à gaita. Que eu saiba, antes de mim, ninguém em Cabo Verde tocava esse instrumento a partir de notas escritas numa partitura.

 

- As vossas canções falam, na maioria dos casos, da cultura, dos hábitos e dos costumes dos habitantes do interior da ilha de Santiago. É isso que cativa as pessoas, as histórias que contam nas músicas, ou são as melodias?

 

- Creio que é uma combinação das duas coisas. Agora conheço melhor os instrumentos musicais - seus sons e características - o que ajuda bastante na composição das músicas. E, por outro lado, eu já tinha em mente que o funaná é uma música que nasceu no interior de Santiago, que foi “escravizado”/perseguido e passou muitas dificuldades para se afirmar, daí que as composições falam sobre a realidade e a cultura dessa parte de Cabo Verde. E, a partir do momento que passei a conhecer melhor a “gaita” e descobri que o ponto fraco desse instrumento é que só tem duas tonalidades, não há muita variação, passei a fazer uma harmonia mais elaborada a partir de coros, mais o baixo e o ferrinho até chegarmos a essa música mais elaborada que temos hoje.

 

- Todos os anos o Ferro Gaita é presença garantida em quase todos os festivais de verão que acontecem em Cabo Verde. O que significam esses convites para vocês, que já conquistaram todo o país?

 

- Penso que é isso. Um feito que conseguimos graças a muito trabalho. Fazer música não é só subir ao palco e tocar bem. Há que haver respeito, pontualidade, responsabilidade e muita entrega ao trabalho. Se fossemos irresponsáveis e desorganizados certamente não seríamos convidados para todos esses eventos.

 

- E é da música que vocês vivem?

 

- Sim, é o meu caso, vivo da música. E, além do trabalho como elemento do Ferro Gaita, tenho alguns projectos pessoais. Em Dezembro, provavelmente, chegará ao mercado um disco em que estou a trabalhar agora.

 

- Pode nos falar um pouco sobre esse disco?

 

- É um disco que estou a produzir para uns rapazinhos da Praia. Há algum tempo atrás contactaram-me e pediram-me para fazer um disco com eles. Como na altura ainda estava a gravar o «Bandera Liberdade», pedi-lhes que esperassem. Assim que arranjei uma folga comecei a criar algumas músicas para eles dentro dos estilos que eu conheço, que são batuco, tabanca e funaná mais o rap dessa dupla que se chama Og. Espero que seja também um sucesso, pois é algo completamente novo.

 

- É nestes estilos de música que vai apostar sempre ao longo da sua carreira?

 

- Sim, quero sempre tocar a música de raiz cabo-verdiana, deixando de lado a música que é feita com computadores. É claro que uso computadores, mas apenas para gravar as minhas inspirações de momento, que não consigo guardar só na memória. Gosto mais de fazer as coisas manualmente e, para mim, é diferente e melhor do que qualquer uma feita à base de equipamentos electrónicos.

 

- Pessoalmente, como define a música do Ferro Gaita. É tradicional, world music, o quê?

 

- É música tradicional. A começar pelo nome – Ferro e Gaita – instrumentos que, como sabemos são tocados por Codé di Dona, Bitori Nha Bibinha, dentre outros. Eu introduzi a bateria e mais um instrumento de harmonização, que é a viola baixo. Mas o tradicional para mim não é definido pelas origens dos instrumentos, mas a forma como os usamos.

 

- A maioria dos estrangeiros ainda relacionam a música de Cabo Verde à morna  e a coladeira, quanto ao funaná, batuco, funaná, reza, etc, já começaram a conquistar o seu lugar além fronteiras ...

 

- A morna e a coladeira e a Cesária Évora são bastante conhecidos no estrangeiro porque ela tem por trás um produtor – Djô da Silva –, que trabalha com ela a nível internacional. Quer dizer, é preciso ter meios para vender o produto lá fora. E como se vê o funaná está a conquistar o seu espaço e acredito que o batuco e os outros géneros cabo-verdianos que, ainda não são, vão ser conhecidos um dia no mundo inteiro.

 

- Mas levando em conta que tem uma postura a favor dos géneros tradicionais, concorda com a onda do zouk que predomina actualmente na nossa música?

 

- Cada um faz o que quer mas para que os estilos estrangeiros não sejam predominantes nós é que temos de mudar as coisas, assumindo sem vergonha a nossa identidade cultural e lutando para que esta se imponha. E temos que investir mais na nossa música. O tempo que o Ferro Gaita gasta a fazer um disco e os custos desse disco dão para gravar, sem exagero, sete ou oito discos cola zouk, sem problemas.

 

- O segundo disco do Ferro Gaita é Rei di Tabanka. Esse CD foi de facto a prova de fogo para o vosso grupo?

 

- Eu sempre soube que teríamos que esforçar mais para superar Fundu Baxu. E sinto que com Rei di Tabanka superamos em qualidade o primeiro disco. É um processo natural de evolução, basta ver que entre Fundu Baxu, Rei di Tabanka e Bandera Liberdade, este terceiro é, sem dúvida, superior aos outros, mais criativo e com mais maturidade. As pessoas têm direito de pensar que nunca mais faremos um disco como Fundu Baxu, claro, foi o primeiro, mas considero que Rei di Tabanka é melhor do que Fundu Baxu. E Bandera Liberdade é melhor do que os dois.

 

- Nesse segundo disco Ferro Gaita conta com colaborações importantes, nomeadamente da rainha do batuco, Nácia Gomi.

 

- Sim, quando estávamos a projectar o segundo disco conclui que deveríamos gravar outros géneros para além do funaná, único género que gravamos no Fundu Baxu. Pensei então em introduzir tabanca e finaçon. Fiz então aquela música «Rei di Tabanka». E fui falar com Nha Nácia Gomi, que é a pessoa com quem posso travar conversa e aprender tudo sobre batuco. Ela é, para mim, tudo no batuco. Convidei-a para participar no disco e ela deu-me uma letra que, depois, trabalhei a nível musical, queria que gravássemos juntos.

 

- Como acontece esse trabalho de combinação entre instrumentos electrónicos e acústicos?

 

- No início eramos só três. E sabes como tocavamos? Não tínhamos drums machine, por isso eu pedia um emprestado e gravava uma cassete de 90 minutos apenas com o beat, de um lado, um beat rápido e do outro um beat mais lento. Fazíamos assim porque não tínhamos condições. E, quando íamos tocar era só pressionar o play e tínhamos o som de bateria. O nosso projecto era ter um baterista, mas não tínhamos condições sequer para comprar um drums machine e muito menos uma bateria e contratar um baterista. Mas, quando fomos gravar já usamos uma bateria. E, à medida que fomos ganhando uns troquinho, investimos numa bateria.

 

- E os outros instrumentos que hoje fazem parte do vosso conjunto?

 

- O kobel também fazia parte dos nossos planos. E conseguimos introduzi-lo na banda.

 

- Ferro Gaita já viajou bastante para a Europa e, também para os Estados Unidos. Já foi nomeado uma vez para os Kora Awards e existe a possibilidade de ser candidato ao trofeu mais uma vez este ano, mas o grupo ainda não começou a conquistar o continente africano. Isso faz parte dos vossos planos?

 

- Bem, creio que em qualquer dos continentes – Europa, América ou África – ainda falta muito por fazer. Na maioria das vezes, os nossos espectáculos nos EUA e Europa são para a comunidade cabo-verdiana. Para atingirmos outros públicos precisamos que uma empresa com peso nos ajude a abrir o caminho nesse sentido.

 

- Como nasceu o vosso terceiro disco – Bandera Liberdade?

 

- Primeiro olhamos para os dois primeiros discos, vimos o que já tínhamos feito e decidimos avançar.

 

- Foi preciso fazer pesquisas para Bandera Liberdade ou já tinham o disco delineado?

 

- Já tínhamos o disco projectado, mas foi necessário também ir pesquisar. Por exemplo, agora já estamos a pensar num outro disco e, no caso, teremos também que pesquisar, pois a pesquisa é muito importante.

 

- Ao longo dos anos, Ferro Gaita está quase sempre com a agenda cheia. È o que acontece neste momento?

 

- Sim. Até Outubro temos a agenda quase cheia e espero que continue sempre assim.

 

- Ferro Gaita tem também agora uma sala de ensaios, no Parque 5 de Julho. Quão importante é esse espaço para o grupo?

 

- Essa sala de ensaios permite-nos fazer 60 por cento do nosso trabalho. A música exige bastante concentração e, com um espaço como este, com todas as condições, ar condicionado, o nosso trabalho ficará facilitado.

 

- O Ferro Gaita  é um dos expoentes da actual música cabo-verdiana, sucesso em todos os  recantos do nosso país. O que vos falta?

 

- Falta divulgar mais a nossa música e o nosso trabalho. E para conseguir isso precisamos de uma grande editora. Mas não queremos aquelas editoras que tentam aldrabar os artistas. Se é para ter uma dessas preferimos ficar como estamos, sozinhos.

 

- Cabo Verde já teve grandes grupos musicais, Tubarões, Bulimundo, Finaçon e tantos outros, mas acabaram por dissolver-se. Ferro Gaita é actualmente um dos poucos grupos que temos. Qual o segredo?

 

- Não há segredo nenhum. Digo, simplesmente, que não chega fazer boa música. Há que haver respeito, entrega e sacrifício

 

Gardenia A Voz da Alma Cabo-verdeana

 

Cantoras há muitas. Compositoras, nem tanto. Gardénia, a voz de ouro da música cabo-verdiana, aposta em reunir as duas coisas ao trabalho de editar as suas obras, e investe em si própria para determinar o rumo da sua carreira. Uma voz a transitar entre diferentes espaços e tempos, a fazer de ponte entre as ilhas, e entre as ilhas e o mundo.

 

Catorze anos depois do primeiro disco, com nove lançados até agora, nem por isso Gardénia Benrós está a descansar. Pelo contrário, a artista cada vez mais investe na sua carreira, e há pouco mais de dois anos criou a sua própria editora para trabalhar pela sua voz. Mas vale a pena lembrar como tudo começou.

 

Nascida na cidade da Praia, ilha de Santiago, é, contudo, na tradição da morna da ilha Brava que Gardénia vai buscar inspiração e temas para a sua primeira gravação, de 1986, em que interpreta composições do célebre poeta e trovador Eugénio Tavares.

 

Opção nada casual, já que nasceu a beber nessa fonte: a avó, natural da vila de Nova Sintra, destacou-se no seu tempo a actuar em saraus e sessões culturais na ilha como intérprete de mornas, e apresentava ao público as novas criações do compositor ensinadas em primeira mão pelo próprio. A mãe, por sua vez, desde cedo revelou voz e talento que despertaram a atenção de um dos frades capuchinhos em missão na ilha, que lhe ensinou noções de canto lírico. Mais tarde, chegou a cantar em emissões radiofónicas, e muito naturalmente as mornas de mestre Eugénio fizeram parte do seu reportório.

 

Com esses antecedentes, nada mais natural que a jovem cantora se inclinasse para a tradição da morna bravense no seu disco de estréia, gravado em Lisboa com músicos como Paulino Vieira, Toi Vieira, Péricles Duarte e Tito Paris, entre outros. Editado pela Polygram, este trabalho faz de Gardénia uma pioneira no que se refere a trabalhar com grandes editoras, pois a maioria dos registos discográficos de música cabo-verdiana - até hoje, mas ainda mais nos anos 70 e 80 - são edições de autor ou de editoras sem dimensão internacional.

 

Dado o pontapé de saída, a música de Gardénia irá desdobrar-se em novas perspectivas. Na sucessão de trabalhos que gravou até hoje, a tradição cabo-verdiana aparece como herança determinante na sua formação como artista. Porém, irá mesclar-se com elementos da sua experiência pessoal e musical - a infância em Lisboa, a adolescência em Boston, onde estreia-se como vocalista do grupo Tropical Power, formado por cabo-verdianos residentes nos EUA - que, naturalmente, teriam de deixar as suas marcas.

 

Estudar para ser uma artista completa

Primeiro foi cantar. Depois, compor. Só no seu mais recente trabalho, Bo Kin Cre, de 1998, Gardénia passou para o clube dos compositores e essa aposta surge depois de ter frequentado durante cinco anos o Berkley College of Music of Boston. "A escola musical tornou-me completa como artista" afirma. "Agora sim, vou continuar a desenvolver o meu estilo muito próprio, usando as influências musicais dos países por onde vivi e vivo, mas respeitando sempre a base da tradição musical cabo-verdiana".

 

"Concluir um curso universitário na área musical continua a ser raro entre as mulheres. Foi algo que me educou de forma a poder lidar com qualquer músico do mundo. Não me importei em interroper a minha carreira para me instruir", diz a artista. Optando pelas áreas de voz e espectáculo, Gardénia não deixou de lado os aspectos ligados ao business. Decidida a pôr em prática os conhecimentos adquiridos, cria, em 1998, a sua própria empresa, a Independent Talent Productions. "Hoje consigo fazer a minha própria produção e distribuição", revela.

 

Gardénia tem inspirado poetas e compositores, como Manuel de Novas, João Amaro, Teófilo Chantre, entre outros. O poeta Jomar no poema "Louvor a Gardénia" escreve: "A cantar mornas és génia, mensageira de todos nós, tu és bela com toda a vénia e enfeitiças com a tua voz". Ao longo sua carreira, além de frequentes convites nos Estados Unidos, onde reside, tem percorrido inúmeros países, encantando plateias com os seus espectáculos. Canadá, Barbados, Hawai, França, Holanda, Espanha - além, naturalmente, de Portugal e Cabo Verde - são algumas das terras por onde já passou.

 

Em 1999, uma série de apresentações em Portugal serviu para divulgar o álbum mais recente. Cada apresentação foi um momento único de encontro com os sons de Cabo Verde na voz ímpar de Gardénia, acompanhada por excelentes músicos, entre os quais Toy Vieira, John Mota, Moisés, Kikas e Zé Mário. Tito Paris foi uma presença constante e atenta, sendo ele fã incondicional e amigo da artista, tendo já demonstrado vontade em vir a colaborar com Gardénia, uma vez mais, num futuro próximo.

 

Em diferentes ocasiões, tem sido acompanhada por nomes representativos de diferentes áreas da música cabo-verdiana, que vão de Luís Morais e Chico Serra a Djoy Delgado, passando por Danny Carvalho e Manuel d'Candinho, os três últimos presentes em Bo Kin Cre, em que batuque, funaná, morna e coladeira não impedem um toque de samba e salsa.

 

O disco traz uma faixa interactiva que pode ser vista no computador - aspecto que uma vez mais faz de Gardénia uma pioneira na música cabo-verdiana - e que apresenta fotografias, dados biográficos e discografia, karaoke e ainda um vídeo, produzido pela própria Gardénia, com a interpretação de Melodias de Saudade, composição sua cuja letra evoca justamente as mornas com que foi embalada em criança, e que a acompanham desde então. Mornas que, na sua voz límpida, têm assegurada a sua eternidade, geração após geração, como vem sendo até agora.

 

DISCOGRAFIA
Gardenia Benrós, Polygram Records, EUA, 1986 (LP)

When Love is Gone/I Need You, Polygram Records, EUA,1987 (single)

Raizinho di Sol, Ed. Autor, EUA, 1988 (single)

O Melhor de Cabo Verde Mix, MB Records, EUA, 1989 (LP)

É Sim, MB Records, EUA, 1990 (LP)

O Melhor de Cabo Verde Mix II, MB Records, EUA, 1994 (CD)

Kryola D' Encantar, PolyGram Records, EUA,1995 (CD)

Simplesmente Caboverdiana, Indep.Talent Productions, EUA, 1997(single)

Bo Kin Cre, Independent Talent Productions, EUA, 1999 (CD)

 

 

Louvor a Gardénia

 

A cantar mornas, és génia

mensageira de todos nós

tu és bela, com toda vénia

e enfeitiças com a tua voz

 

De Santo Antão, até à Brava

representas, um CABO VERDE, ímpar!...

berço de trovadores e poetas

cedentes das musas, sem par!...

 

Cantando por esse mundo

vais levando nossa fama

e lá bem vivo e fundo

mantens acesa, sua chama

 

Nestas singelas quadras de louvor

feitas com toda a dedicação

GARDÉNIA, no jardim, uma flôr

um obrigado do Amaro João!...

 

 

Gil Moreira - Konbersu sabi

O ARTISTA QUE DESCOBRIU A ARTE DE REPRESENTAR OLHANDO PARA SI MESMO

Expresso das Ilhas http://www.expressodasilhas.sapo.cv/noticias/detail/id/2762/ 17-3-2008 

 

Gil Moreira é um artista multifacetado, natural de Santa Catarina, que luta pela promoção e divulgação dos valores culturais cabo-verdianos. Uma paixão que apenas começou por curiosidade e se transformou numa necessidade, ao ponto de querer fazer história, deixar marcas para os seus seguidores. Professor de ensino secundário é também actor, encenador, cantor, bailarino, curioso e apresentador de TV. Moreira prepara agora o seu primeiro trabalho discográfico

Gil Moreira, é um homem de diversas facetas. Como te defines?
Eu sou um dualista, licenciado em língua cabo-verdiana e portuguesa. Sou professor de língua portuguesa. Relativamente à nossa língua dedico-me à investigação cultural do crioulo cabo-verdiano e suas variantes . Nasci no interior de Santiago, ribeirão de Santa Catarina, numa zona chamada Boa Entradinha, um lugar muito distante, até pelos meios da Comunicação Social. A minha actividade cultural começou com a arte cénica no grupo Santa Cultura, e depois passei para o Centro Cultural Português, onde fiz uma formação que terminei há cinco anos, e na arte cénica descobri o verdadeiro caminho para a investigação da língua crioula no dominio oral. Considero-me um curioso na descoberta de raízes e promoção de cultura cabo-verdiana e ainda não atingi uma meta que é deixar um caminho delineado para os que vem a seguir a mim. Quero deixar registos de toda a minha investigação para que o público entenda e sirva de continuidade porque a cultura é feita de marcas e sinais. Considero-me um curioso nestas andanças da cultura.

Diz-se que Gil Moreira é um dos defensores da língua crioula. No entanto, é professor de Português. Penso que há uma contradição.
Sou professor de língua portuguesa, na sala de aula falo português com todo o pormenor e exigência. O importante é colocar cada coisa no seu devido lugar. Geralmente ser actor é importante na vida artística e cultural porque o actor tem um bastidor e um palco, o bastidor onde prepara a arte cénica e o palco onde se apresenta ao público. A sala de aula é também um bastidor onde preparo as peças, o actor deve ter dentro dele um palco onde ele representa. Quando se é professor mete-se a vida de actor no bastidor e entra na sala de aula como professor de língua portuguesa, fazendo tudo o mais correcto possível, baseando na gramática e fazendo com que os alunos aprendam, alcançando os objectivos preconizados. E ao representar no palco é tudo a mesma coisa apanho a faceta de professor meto nos bastidores quando estou no palco nunca me lembro que sou professor. Tento fazer com que essas duas facetas não se interliguem por isso quando desempenho uma guardo a outra a sete chaves, de modo a não se interferirem. Quanto à contradição, só tenho a dizer que queiramos quer não o português e o crioulo por natureza chocam-se entre si, em vários aspectos.

É a favor da oficialização da língua crioula?
Sou e de que maneira. E acredito que vai ser mais fácil ensinar o português quando o crioulo for oficializado. Sem ser oficializado sentiremos que por natureza introduzimos o crioulo ao ensinar o português, acredito que o crioulo que é a língua mãe dos alunos ajuda-nos a atingir os objectivos preconizados na língua portuguesa e vice - versa. Embora cada uma delas tenha os seus termos próprios. Um exemplo disso é que numa sala de aula, em 1995 um aluno do Ensino Básico escreveu uma redacção dizendo "o água futi da labada". Fazer a concordância de o água para a água foi muito fácil mas ao chegar na palavra futi, até agora não consegui encontrar a palavra certa em português para esta expressão, e não sabia como dizer porque afinal o futi não é transbordar, não é cair, não é escapou-se, não é escorregou-se. Eu, pelo que sei considero que futi é um sair "fakati", como se diz em crioulo. Isso é uma prova autêntica que mostra que é sempre difícil conjugar essas duas línguas, mas não é difícil que uma seja o caminho para atingir ou alcançar a meta da outra.

Uma das facetas, também, bem conhecidas do Gil Moreira são as de actor e encenador.
Como descobriu a arte de representar?
Descobri a arte de representar olhando para mim mesmo. Acho que todo humano tem nele próprio, uma essência da representação. Representar é basear no real e transpôr para uma outra realidade, de uma forma prática e concisa. Lembro-me que a primeira peça onde eu participei na encenação foi "Contador de Histórias", do Horácio Santos, conhecido actor cabo-verdiano, Lalachu, que agora reside em Portugal, que a Santa Cultura encenou em 1998. O também conhecido Armando veiga encabeçou-me de organizar grupos e foi a partir dali que acabei por descobrir a verdadeira encenação. Vi que para encenar uma peça há que se basear no real, e pelo facto do real estar na minha vivência no interior de Santa Catarina, até os meus vinte e um ano de idade, facilitou-me e porque tudo o que havia por representar já tinha vivenciado, como o trabalho na estrada, sementeiras, cerimónias fúnebres, era apanhar tudo aquilo e transpôr num palco deste modo, quem não o tinha presenciado o pudesse ver na realidade nua e crua. Vendo para mim mesmo, descobri o verdadeiro caminho para a representação e encenação.


Este crioulo profundo, rodeado de expressões, por mim, desconhecidas, onde foi que o aprendeu?
Eu não o considero profundo, este crioulo foi lavado a sete águas em relação àquele que os meus pais me ensinaram, esse meu actual crioulo já sofreu muitas transformações e até digo que é um crioulo universitário. Porque, muitas vezes, falo de modo a fazer com que as pessoas entendam, mas só quero dizer que este crioulo que diz ser profundo sai livremente. Ainda sobre este crioulo profundo quero dizer que um dos meus maiores objectivos é o de divulgar o crioulo regional de Santa Catarina, tanto no Conbersu Sabi, na música, no teatro e no programa de televisão. Tenho sempre em mim o objectivo de representar o crioulo regional para levar as pessoas a reflectirem, a interrogarem.


Por muitos é considerado um investigador das raízes cabo-verdianas.
Entende de Finason, Batuque ,recitação de Txabeta, montar terrero etc. Isto tudo deveu à sua curiosidade?
Eu acredito que é algo além de curiosidade, é uma necessidade. Em Cabo verde também a literatura passou por uma fase que é oral e a oratura.

 Notei que na vertente da tradução oral muitos nomes como o de nha Nácia Gomes, Bibinha Cabral, Nha Guida Mendes, Ana Procópio, Mana nha Culádia, N toni denti d'oru, um conjunto de pessoas que deram uma grande contribuição para a literatura oral, ficaram atrás. Essas pessoas começaram a recitar nos bailes, nos convívios temas relacionados com a vida do homem cabo-verdiano. Vi que essas pessoas já estão velhas, muitas já morreram e sobraram Nha Nácia e o N toni , senti a necessidade de arrebatar a tradição oral por eles evidenciados e segui-lo em frente.

 Comecei naturalmente a fazer investigação, sem chegar ao instituto de promoção cultural, sem ir ao palácio de cultura ou mesmo dirigindo cartas pedindo apoio financeiro, os meus fins-de-semana de 1992 até então foi procurando pessoas que pudessem falar da nossa cultura, foi assim que aprendi como montar um terreiro com a nhá Nácia Gomis , como formar a boca do terreiro , como funciona pam pam, txabeta, como relacionar os ritmos para produzir individualmente ou colectivamente num terreiro completo. Pensei que em vez de colocar a minha investigação num livro e ela ficar guardada numa estante, onde a pessoa pode ler ou não ler, disse que apanhava-a e recitava-a no som da txabeta, assim ela abarcaria a comunidade diversa.


Isso tem-lhe dado muito trabalho?
É uma tarefa difícil, mas tudo o que se faz por gosto, por vontade, é motivante, o interesse pela descoberta é tão fascinante a ponto de se tornar numa necessidade. Ás vezes encontro barreiras, pessoas que não se mostram disponíveis em falar, pensando que quem investiga quer tirar lucro com isso. Realmente encontro um conjunto de dificuldades além de ter também os aspectos financeiros porque realmente há gastos. Conforme o ditado o cavalo que corre por gosto não cansa. Este é o meu lema, nesta caminhada de investigação.


Pode-nos dizer qual é a diferença entre o Finason, Batuque e Conbersu sabi?
Não há nenhuma definição estaque relativamente a esses três termos. O Batuque é uma música melódica, de ritmo mais quente, cadencial de compasso afinado. O batuque atinge o seu auge, onde as batucadeiras "rapicam" o torno, sempre em dualismo: o solista tira e o terreiro responde e o ponto mais alto é a txabeta. O finason já é a parte relaxante, mais lenta do batuque, que pode aparecer tanto no início, como no fim do batuque. Finason é a recitação de um texto vivo, e o seu auge não consiste na txabeta mas sim na mensagem, o finason sempre faz lembrar alguma coisa e por essa razão muitas vezes durante o finason as pessoas choravam, por alguma razão porque a mensagem toca o sentimento das pessoas. Finason é equiparada à reflexão. O Combersu Sabi, é mais próximo do finason, e claro, mas longe do batuque, porque ali o texto melódico recitado em crioulo tráz o som e às vezes, somente, as palavras.


Prepara para gravar o 1º CD à solo. De certeza iremos ter um trabalho do ritmo tradicional. Para quando este CD?
Estou muito calmo a prepará-lo sem nenhuma pressão, preparando tudo aos pormenores desde música, artistas, caminho para que este trabalho seja o ideal, e que corresponda a expectativa da cultura que a música cabo-verdiana prevê e idealiza. Quero que seja um trabalho diferente, um diferente na linha de muitos bons trabalhos que tem surgido. Quanto aos ritmos vai ser um trabalho com arranjos tradicionais e modernos, desde funana à Gaita e Ferro à moda tradicional, música electrónica com ritmos mais evoluídos, Batuque, terrero, txabeta, simboa e com arranjos feitos de forma acústica.


Como vê o percurso da música tradicional cabo-verdiana que para muitos tende a desaparecer.
No meu ponto de vista a música tradicional cabo-verdiana está a ser bem aceite. Pelo contrário, eu penso e acredito que está em via de transformação e não extinção como muitos dizem. Pelo facto de tudo o que é vivo e feito pelo homem sofrer transformação, não quer dizer que vai desaparecer. Estamos numa era de transformações, o facto de a nossa música se entrelaçar com hip hop, raggae etc, não é de se assustar, penso que cabe a nós que somos nacionalistas conservar aquilo que é nosso. Nós não podemos travar a evolução da música, o seu desenvolvimento e a sua ligação com outras raízes e identidades é impossível.


Gostaria de saber como concilia todas essas tarefas, inclusive o de apresentador de TV, um programa que pelos vistos exige muita investigação?
Conforme lhe tinha dito quando se faz algo por gosto tudo é possível. Essa questão do tempo deve ser assim: pegar nas coisas úteis e eliminar as coisas banais, que simplesmente não fazem falta.

Gil Semedo: “Trabalhar com Manú Lima foi a realização de um sonho”

http://www.asemana.publ.cv/spip.php?article33948   05-07-08

Gil Semedo está de novo na crista da onda com o seu mais recente disco - “Cabopop”. Em entrevista ao asemanaonline, o cantor, que actua este sábado, 5, em Lisboa, diz que o disco é o retrato da geração cabo-verdiana do pop, de Manú Lima e Johnny Ramos, e mais um passo rumo ao seu amadurecimento como homem e artista.

Entrevista por: Teresa Sofia Fortes

Deste o nome de “Cabopop” ao teu 13º disco de originais, que acaba de chegar ás lojas. Porquê “Cabopop”?
Cabopop é um estilo de música mas é também a cara de uma certa geração, dona de uma cultura própria. Ao dar o título “Cabopop” ao disco quis focar esse tipo de música que identifica uma geração que começou com Manú Lima e o conjunto Cabo Verde Show e o seu coladance. Eles influenciaram os cabo-verdianos residentes na Holanda - o país onde nasceu a primeira editora discográfica de origem cabo-verdiana - e inspiraram artistas como eu e o Vado, que criamos o caboswing, o grupo Livity, Johnny Ramos, Suzanna Lubrano.

E que género de músicas traz este teu mais recente CD?
São músicas para todas as idades, para dançar, pois, afinal a dança foi o meu primeiro amor, e ouvir também. Aos 33 anos, quero que as pessoas escutem e tomem consciência das mensagens que canto.

Que tipo de mensagens?
Mensagens positivas porque, nestes tempos conturbados em que vivemos, precisamos de mensagens que nos dão força e esperança para continuar a viver. Inclusive, tenho uma música que tem o título “Paz”. Porque, sim, precisamos de mais paz neste mundo.

Como nasceu esta parceria com Manú Lima, o arranjador deste disco?
Eu já havia trabalho com o Manú Lima no meu disco “Dedicaçon”. Na altura, senti que combinamos bem. Até costumo chamá-lo de pai do cabopop! Por isso, achei que devia voltar a trabalhar com ele. O Djô da Silva concordou e assim partimos para este projecto a que dei o nome de Cabopop. Foi um imenso privilégio, a concretização de um sonho poder trabalhar com o Manú Lima porque eu e o Vado inspiramo-nos muito no Manú Lima para fazer as nossas músicas.

Para quem é este disco?
Este disco é aberto a todos os públicos. E, de facto, já comecei a atingir este objectivo. Já ouvi críticas de pessoas que com este disco estão a escutar a minha música pela primeira vez, gente que não é muito jovem, e gostaram. Ou seja, estou a conquistar um novo ou novos públicos.

Na nossa última conversa, disseste que o disco “Nha Vitória” era um álbum maduro. E este que chega logo a seguir, o que é?
É mais maduro ainda. Porque eu próprio estou na fase de maturidade na minha vida pessoal e profissional. Como disse antes, continuo a fazer músicas para dançar, alegres, divertidas, mas também músicas que me fazem reflectir sobre a minha vida, o estado deste mundo, o relacionamento entre as pessoas.

Este sábado, 5 de Julho, dás um show no Armazém C2 e, Alcântara, em Lisboa, Portugal. Depois actuas, no dia 11, no Lupo’s Heartbreak Hotel, em Providence, Estados Unidos da América e, mais para frente, no Florida Palace , cidade de Marselha, em França, no dia 6 de Setembro. Para quando espectáculos em Cabo Verde?
Espero ir a Cabo Verde e fazer shows muito em breve. Aguardem-me, estou chegando. E também irei aos outros países onde tenho muitos fãs.

 

Gil Semedo: “Foi duro ter de reaprender a andar”

http://asemana.cv/article.php3?id_article=19549  02-09-06

É um recordista de vendas inigualável (mais de 500 mil cópias em todo o mundo). Um "show-man" que leva grandes e pequenos ao delírio sem nunca abandonar o seu jeito simples de menino de Chã de Tanque. Hoje, aos 31 anos de idade e 15 anos de carreira, que ficaram marcados por vários êxitos e um grave acidente que o mergulhou em meses de fisioterapia, Gil Semedo reconhece-se mais maduro e pronto a viver novas experiências, como formar a sua própria família, por exemplo.

 

Entrevista por: Teresa Sofia Fortes

- Gil, aos 31 anos, és um dos nomes mais consagrados da música cabo-verdiana. Queria que nos contasses como e quando despertou a tua paixão pela música. Antes de emigrares para a Holanda, aos seis anos, já sonhavas ser cantor?
Essa minha viagem pelo mundo da música, com alguns altos e baixos, começou na altura em que emigrei para a Holanda. Quando lá cheguei e vi na televisão um videoclip do Michael Jackson a dançar, fazendo aquele passo espectacular, o famoso moonwalk, surgiu o sonho de um dia ser como ele. Queria também subir ao palco e pôr a multidão a curtir a minha música e a vibrar com todo o meu espectáculo.

- Mas como era o Gil criança, ali em Chã de Tanque, interior do concelho de Santa Catarina? A música já fazia parte da tua vida?
Olha, não me recordo de muita coisa, pois, como sabes, fui para a Holanda ainda menino. Naquela época, ouvia o conjunto Bulimundo, quando os meus familiares punham os discos do grupo a tocar. Não convivi muito tempo com o meu pai porque ele morreu em 1981, mas nas poucas ocasiões que veio da Holanda para Cabo Verde, ele sempre trazia discos novos. O meu pai gostava muito do Bana.

- Escutavas os discos que ele punha a tocar, não é?
Sim. E quando fui para a Holanda passei a escutar, por iniciativa própria, os Tulipa Negra, Cabo Verde Show e outros grupos e artistas cujo nome não me lembro agora. Em nossa casa, sempre ouvíamos música cabo-verdiana.

- Entretanto, aos 15 anos, imitaste Michael Jackson num programa de televisão - Henry Huisman Sound Mix Show -, e fizeste bastante sucesso. Quando é que se deu a mudança de um imitador de Michael Jackson para o autêntico Gil Semedo?
Isso aconteceu ainda na adolescência, quando as minhas raízes começaram a chamar-me, a puxar-me para si. Antes escrevia as minhas músicas em inglês. Mas, um dia, inspirei-me de tal forma que escrevi uma música em crioulo. Não fiz nada com ela, simplesmente deixei-a num canto. Entretanto, o Pato, um grande amigo, viu a letra e mostrou-a a outros cabo-verdianos. Eles elogiaram-me e incentivaram-me, afirmando que a música deveria ser gravada em disco. A partir de então desejei dedicar-me à música cabo-verdiana, pois é a minha música.

- E ficaste tão inspirado que, em 1991, lançaste o teu primeiro disco - “Menina” -, ao qual se seguiram vários outros discos. “Nha Vitória”, é o mais recente. Diz-me, Gil, quão diferente é o cantor de “Menina” e o de “Nha Vitória”?
(pausa) Acho que o título do último disco, “Nha Vitória”, diz tudo. O Gil que cantava “Menina” estava na idade em que o coração chama mais para as coisas da paixão. “Nha Vitória”, entretanto, mostra um Gil mais maduro, que fala das dificuldades da vida e do que é preciso para superá-las. Quando somos jovens ainda não pensamos muito nisso ...

- A preocupação é mais viver intensamente os sentimentos. Nada de reflexão, não é?
Exactamente (risos).

- Hoje, no entanto, vês as coisas de forma diferente. Ouvi-te dizer, a propósito do acidente que sofreste em Dacar, em Dezembro de 1999 (caíste do 8º andar do hotel onde estavas hospedado), que o sofrimento não tem apenas um lado negativo. O que queres dizer com isso?
Quero com isso dizer que o sofrimento faz parte da vida.
E não devemos olhar para o sofrimento apenas como algo negativo. Caso contrário, não tiraremos dele nenhuma lição de vida. Por outro lado, penso que uma pessoa que só vive experiências agradáveis, espiritualmente não evoluirá muito, não aprenderá a dar valor às coisas boas da vida.

- Esse amadurecimento espiritual, Gil, que é visível/ audível nas músicas de “Nha Vitória” está a conquistar novos fãs, neste caso, mais velhos do que os que já te seguem há vários anos?
Sim, estou a conquistar um público que está mais atento às mensagens das minhas músicas. Mas não são apenas as letras que estão a chamar a atenção. Também os arranjos são mais maduros e chamam a atenção de um outro público. Acontece entretanto que parte dos meus fãs não entendeu “Nha Vitória”. Aliás, não é a primeira vez que uma parcela do público não percebe a mensagem que passo nos meus discos. Por exemplo, a música “Separadu”, em que canto “Oh moss, n’ ta canta criolu tanbe mas nos sentimentu e diferenti”. Quis com isso dizer que nós que criamos fora de Cabo Verde somos vítimas de uma separação, a qual deu azo a muitas diferenças entre nós. Mas houve quem entendesse a mensagem de uma outra forma.

- Os fãs que não perceberam “Nha Vitória” são, certamente, os mais jovens. Será que, tal como disse o filho de um senhor cabo-verdiano emigrado na Holanda, em conversa contigo há dias, Gil está a ficar velho?
(risos) Olha, a música é para mim uma viagem. E cada vez mais quero levar as pessoas a um destino diferente. Acontece que nem sempre todos se identificam com a viagem, mas há sempre quem goste.

-Achas que ainda continuas a ser um ídolo dos adolescentes/jovens cabo-verdianos de aquém e além-fronteira? Isso significa para ti uma grande responsabilidade?
Penso que todos nós temos a responsabilidade de ser um exemplo para o nosso próximo. E eu, como pessoa pública, que está frequentemente sob o olhar do grande público, no palco e em outros lugares, tenho ainda mais a responsabilidade de transmitir uma mensagem positiva, pois creio que o dom que Deus me deu tem que servir também para ajudar os outros.

- Mas, sabes, há quem diga que para ti é fácil passar uma mensagem positiva, pois és famoso, rico ....
Não, não foi nada fácil.
Aliás, a vida já mostrou a todos que não tem sido fácil para mim, mesmo tendo tanto sucesso. Por exemplo, sofri aquele acidente em Dacar numa altura em que gozava de grande sucesso graças ao disco “Nôs Líder”. Penso que nenhum disco lusófono vendeu tanto como aquele. Eu estava no top mas isso não me impediu de sofrer aquele grave acidente. Passei quatro meses no hospital e ainda tive de voltar lá e ficar mais um mês, porque a minha perna direita também ficou muito machucada. Foi duro ter de reaprender a andar, usando uma prótese.

- Todos estão a par da tua fé, pois és um confesso cristão-católico. Por isso, faço-te esta pergunta. Depois de sofreres aquele acidente, alguma vez perguntaste a Deus: porquê eu?
(uma longuíssima pausa) Deixe-me pensar (outra pausa). Bem, eu sei que depois do acidente passei por momentos muito difíceis, entrei numa longa fase de depressão também ... Sim, porque foi difícil eu aceitar que tinha de me adaptar a um novo modo de vida. Depois do acidente, tudo se tornou difícil para mim, até o simples acto de tomar banho, pois tinha que tirar a prótese e voltar a colocá-la. Mas nunca deixei de rezar, de guardar a fé em Deus e também de agradecer-lhe por ter conservado a minha vida e permitido que eu continue a cantar. Por isso, fiz aquela música “Obrigado”, em que agradeço a Deus, à minha família e aos amigos e fãs pelo apoio demonstrado.

- Que mensagem podes então deixar para aqueles que, perante o sofrimento, se deixam dominar pelo sentimento de derrota?
O que posso dizer-lhes como cristão-católico é que Jesus venceu a morte, Ele é o nosso Salvador, portanto, já vencemos. É importante, por isso, quando sofremos, guardar a fé. A vitória chegará no momento certo.

- E depois de “Nha Vitória”, que mais podemos esperar de ti, Gil?
Não sei ...

- Será que vamos ter um Gil mornista?
(risos) Bem, há uns tempos disse para mim mesmo: sou cabo-verdiano, portanto, lá no fundo de mim deve existir um mornista. Então, decidi tentar e escrevi uma morna. Mas não para eu interpretar.

- Deste-a à Dina Medina?
Sim, dei-a à Dina Medina para cantar no seu próximo disco. Mas, quem sabe, um dia eu próprio cantarei uma morna. O que pretendo fazer proximamente é um disco acústico com temas já gravados em outros CDs meus e, também, um DVD. Tenho muitas imagens que nunca foram mostradas e que quando saírem no DVD vão ajudar as pessoas a recordar o meu percurso. Há muita coisa de que as pessoas já nem se lembram que eu fiz.

- E como vai a faceta social da tua carreira, o apoio às crianças carenciadas?
Creio que com a minha música já estou a ajudar muito. Basta ver o sorriso que aparece no rosto das crianças quando canto para elas. Quanto a acções concretas de solidariedade, participei no CD “Crianças di terra”, do Nando da Cruz, e sou padrinho de algumas escolas. No futuro, quero também desenvolver um projecto social em Chã de Tanque, minha terra natal. Mas ainda é cedo para falar no assunto. É apenas um sonho, por enquanto.

- Gil, é notável o relacionamento afectuoso que tens com a tua família, em particular a tua mãe. Ela é muito importante para ti, não é?

-  Sim, muito importante. Tanto ela como o resto da família dão-me grande apoio. Sabes, a minha mãe perdeu o marido, meu pai, muito cedo, e sozinha criou os seus sete filhos. Quero, agora, que ela já é mais ou menos uma senhora de idade, retribuir-lhe todo o carinho e cuidado que teve comigo e com os meus irmãos. Levo-a comigo a todos os lugares onde vou, porque ela continua a ser uma grande fonte de ajuda para mim. Ela não só me dá carinho como também me ajuda com a roupa, cuida das minhas coisas. Sou muito feliz por ter a minha família inteira comigo. Desde o início da minha carreira acreditaram em mim. Aliás, os meus primeiros “espectáculos” foram exclusivos para a minha família. Os meus irmãos, por exemplo, quando arranjavam uma namorada nova sempre me chamavam para cantar (risos) na tentativa de conseguir mais prestígio junto da menina.

- E agora faço uma pergunta que os fãs têm feito constantemente: quando é que o Gil forma a sua própria família?
(risos). É uma coisa em que estou a pensar, principalmente, nos últimos anos. Talvez esta seja uma das razões porque “Nha Vitória” é um disco mais maduro. Os meus pensamentos agora são outros. Sim, está na hora de dar um novo passo na minha vida.

 

Gracelino: Um artesão com sensibilidade de uma criança

http://www.expressodasilhas.sapo.cv/noticias/detail/id/6571/

Desde quando o Gracelino faz objectos de barro?
Sou oriundo da família de Fonte Lima, onde cresci vendo a minha mãe fazendo diversos objectos, como binde, pote, jarro, etc. para o uso doméstico. Fui ajudando e a partir daí, comecei a criar o gosto pelo artesanato.
De todos os meus irmãos, fui o único a levar a sério. Depois dos meus 15 anos de idade, comecei a trabalhar já como profissão.

Foi então, um conhecimento passado de geração em geração?
Sim, creio que foi uma tradição que veio desde os meus bisavós, os avós e até chegar á minha mãe.

Como e onde é extraído a matéria-prima para o trabalho?
O material é escolhido, segundo a qualidade de barro pretendido, isso porque há barro que tem mais capacidade para aguentar o sol, o lume etc. Mas, independentemente disso, a extracção pode ser feita em zonas diferentes.

Foi se mantendo o mesmo material ou actualmente faz a combinação do barro com outros produtos?
Quanto ao barro, continuei a tirá-las nas mesmas localidades, em Cedeguma, Fonte Lima, Engenhos, e não misturo a nenhum outro produto. As minhas obras são feitas de barro puro. Isso também porque não é uma extracção para a industrialização.

O espaço utilizado para a exposição das peças artesanais é de aluguer, ou do próprio Gracelino?
È de aluguer, e estou aqui a seis anos.
A exposição é individual ou é feita colectivamente com outros artesãos.
Noventa porcentos são meus trabalhos. Fazemos trabalhos com o pano de terra nos quadros e com bordados, fazemos a representação das ilhas de Cabo Verde, utilizamos os desperdícios das folhas das bananeiras, flor da cana, confeccionamos vestuários, também com o pano de terra, trabalhos com o gesso, etc. o que não falta é inovação e criatividade.
Caso algum artista queira fazer a exibição do trabalho, nós não compramos para revender. Colocam aqui para vender e depois pagam 10%, isso porque as suas peças não são em grande quantidade.

Como é o processo da transformação do barro a uma peça artesanal? Tem sofrido alteração?
Não foi feito nenhuma alteração no processo de transformação do barro. Faz-se a mistura de água com o barro natural e depois triturado com um pau até ganhar uma certa consistência e plasticidade. Se quisermos um barro mais fino peneiramos.
Se a peça for muito grande, no processo de secagem ao sol, pode acontecer a vaporação da água provocando o estalo. Por isso pomo-la á sombra e num lugar ventilado. Se for pequena secámo-la ao sol.

Também as peças são cozidas no forno. Faz uso deste processo?
Sim possuo um forno que, com os meus conhecimentos, faço a cozedura tradicional que é feita no chão, com excremento dos animais, com palhas etc., Mas esse era uma prática desde o tempo dos meus avós, e agora não faço o uso, porque o risco é grande. Por vezes a peça pode partir-se, para além de não atingir a cozedura ideal desejado. Por isso, faz-se a cozedura com a lenha.

Como varia o tempo de cozedura?
Independentemente do tamanho, todos levam o mesmo tempo no forno. O calor tem que atingir os 900/1000º no mínimo.
Durante esses anos de profissão como artesão, alguma vez organizou uma exposição individual por iniciativa própria?
Não, tenho feito exposição mas sempre a convite, e na sua maioria fui o único a participar, não por falta de artesões, mas sim porque a maioria produzem temporariamente. Depois de terem vendido, ficam á espera de novas solicitações, o que por vezes demora a acontecer. Tenho sempre materiais porque trabalho diariamente criando novas peças.

Tem feito exposições fora do país?
Fui a convite do ministério da cultura para os EUA em 1995, fiz para a associação dos emigrantes residentes na França, em 1996. Fiz nos Açores. Em Cabo Verde, praticamente participei em todas as feiras culturais nacionais, com a excepção de algumas ilhas.

As tuas peças têm tido muita saída, tanto nacional como internacional?
As peças são vendidas por todas as "paragens,". Existem aquelas que são feitas só para o país. São peças decorativas para casa, escritório, vasos de planta, etc. São maiores, e não são direccionadas para os turistas devido aos incómodos para o transporte.
Os emigrantes gostam de levar recordações, de regresso ao país de emigração e basicamente são os maiores compradores.
Há lojas que compram para revender na Praia, no Sal e outras ilhas.

E quanto aos turistas?
Em Assomada os turistas estão de passagem. Visitam a nossa loja e acabam por comprar.

Já alguma vez fez alguma peça a pedido de uma pessoa, entidade, pedindo exclusividade?
Sim. Nós moldamos o barro da forma como o cliente desejar. A miniatura do cofre (continha da caixa), foi uma encomenda exclusiva da Caixa Económica de Cabo Verde, outras instituições fazem encomendam para presentear, com o nome/logótipo da loja, como é o Caso da UNICV, Água Trindade, BCA, etc.

O custo é muito elevado?
Quando a encomenda ultrapassa 50 peças, vendemos em quantidade que justifica a baixa de preço, e sustém o custo da produção.

Como é que tem sido o interesse dos jovens no aprendizado deste ofício?
Bom, agora os jovens possuem várias opções, o que antigamente quase que imploravam uma vaga como ajudante nas diversas profissões, e exerciam-nas com gosto.
Agora a camada juvenil refugia mais pela informática, e outras actividades "mais rápidas" de se executarem. Não têm a paciência para aprender, e artesanato é uma arte que exige muita paciência e inspiração. Não é medir, copiar, colar. Não é algo que já se encontra pré-estabelecido. Não existe manual de execução. Exige inspiração e muita criatividade.

O Gracelino conta com o apoio do ministério da Cultura ou da Câmara Municipal?
Apoio material ou na infra-estruturação de um espaço físico, não tenho. Não estou com isso exigindo um subsídio por estar a representar o artesanato em Assomada ou no país. Se a instituição tem vocação para artesanato, dá-se um novo rosto para Santa Catarina, que considero também o berço da cultura em Cabo Verde. Não espero pelo apoio directo. Faço o meu trabalho por gosto, e pelo bem da nossa cultura.

Consegue com o passar do tempo reconhecer todas as suas criações?
Desde a primeira peça feita aos 10 anos. Há muito tempo que trabalho no artesanato, sobretudo barro, as minhas peças já passaram pelas mãos de muitas pessoas. Não é difícil reconhecer uma peça minha, por muitos que sejam. Na televisão, revistas, em casa das pessoas, sempre reconheço a minha criação. Por mais idêntico que possa aparecer á de uma outra pessoa, cada artesão tem um traço único e particular que o caracteriza. Arte é criação e não imitação.

Qual é a sensação de pôr entre os seus dedos, de um simples barro, um objecto que venha a ganhar forma e vida própria espelhando-se pelo sentimento?
Para já, isso acontece se a pessoa tiver, dentro de si, o gosto pela arte. Quer no barro, pedra, madeira, a inspiração vem do interior. Mas a sensação do barro é diferente até porque para as pessoas que tem problemas de nervosismo, stress, pode mexer com o barro, mesmo sem uma noção daquilo que se pretende criar. Sentimos a sensibilidade da criação, a correr nas nossas veia.

Pela caracterização e complexidade do artesanato, em Assomada e em Cabo Verde, a ausência de uma galeria de arte penaliza os artesões. Que apreciação faz a respeito.
Este é um desejo que vem desde há muito. O CCT chegou a pensar numa divulgação com uma certa estabilidade. Disseram que tomariam peças nos artistas e levavam para a comunidade dos cabo-verdianos emigrados. Levam uma certa quantidade de peças e os artistas não tinham que esperar pela exportação e venda para receberem o dinheiro. Ficamos e até então é espera.
Quanto á galeria deve existir. A exposição é sempre feita em lugares de improviso
O livro tem o seu espaço próprio e o artesanato por assim dizer, acaba apanhando uma "boleia". Deve haver uma casa do artesanato.

7-12-2008, 09:50:10 Expresso das Ilhas

Hernâni Almeida: “Não me sinto um músico com letras grandes”

http://asemana.cv/article.php3?id_article=19345   26-08-06

Embora seja considerado um dos jovens prodígios da música cabo-verdiana, Hernâni Almeida não se sente ainda “um músico com letras grandes”. Guitarrista, compositor e “side-man” de Tcheka e Bau, o músico de São Vicente sente um certo desconforto agora que as luzes da ribalta se apontam na sua direcção. “Não é minha prioridade preocupar-me com a crítica positiva ou negativa, tenho é que trabalhar”, diz. Com o disco de estreia na forja, Hernâni revela, nesta entrevista, como “cozinha” o vocabulário dos diferentes artistas com quem trabalha e reconhece a importância do silêncio na sua vida, assim como das lições dadas pelo seu guru Paulino Vieira.

Entrevista por: Rita Vaz da Silva

Como é que a música entrou na tua vida?
Não há músicos na minha família, mas quando era puto, de férias em Portugal, conheci um primo da minha mãe que tinha um teclado pequenito. Comecei instantaneamente a tirar de ouvido uma música do Stevie Wonder que tocava na televisão. O meu pai aproximou-se, viu aquilo e perguntou-me: "Queres um brinquedo destes?" Saiu na hora e foi comprar um teclado maior do que o do meu primo. Eu tinha sete anos, tinha que subir em qualquer coisa para chegar aquilo. Foi assim que começou...

Até que anos mais tarde, deixaste São Vicente, onde cresceste, e rumaste ao Porto, em Portugal, para estudar música. O que motivou essa opção?
Decidi estudar música porque sempre achei muito bonito ver as pessoas dedicarem-se tanto a este ofício. Achei que estudando também me tornaria num MÚSICO com letras grandes e passaria a perceber melhor o que se passa com o fenómeno música, mas não, ainda não funcionou!

Não funcionou porquê?
Simplesmente porque ainda não me senti um músico com letras grandes. Acredito que é algo que se sente e não o senti ainda!

Nem no Porto? Tocavas jazz com uma banda, o que deve ter sido uma boa escola. Deves ter actuado várias vezes ao vivo e contactado com imensos artistas...
Toquei numa banda de jazz com colegas da escola: temas do Miles Davis, Joe Zawinul entre outros. Era muito fixe! O jazz era apenas mais uma disciplina que tínhamos no Conservatório de Música do Porto, para além da formação musical, guitarra clássica, história da música, acústica e técnicas de composição. Mas de facto o melhor contacto que tive foi com o meu professor de jazz, Manuel Garcia, que me influenciou para sempre, tanto tecnicamente como a nível do relacionamento com os outros músicos. Quando saí da escola, trouxe comigo todos os livros que pude arranjar e vou sempre comprando coisas novas para estudar. O jazz é mais um elemento que uso para fazer música por isso tenho que o estudar sempre, ouvindo também discos dos velhotes: John Coltrane, Thelonious Monk, entre outros.

O teu percurso, até aqui, assemelha-se ao de muitos músicos cabo-verdianos que "emprestam" o talento para dar corpo e criatividade às composições de outros artistas. Já trabalhaste com Baú e agora com Tcheka. Ao acompanhá-los, alguma vez te sentiste subjugado ou sem espaço para trilhar o teu próprio caminho? Ou pelo contrário, estando do lado deles, evoluíste?
Sim. Até hoje o que tenho feito é ajudar os outros a terem um motivo para sorrirem. Pego nas suas músicas e faço delas minhas músicas a nível de arranjos, dinâmicas, cores, texturas, instrumentação. Claro que no fim o público pensa que quem fez tudo aquilo foi o cabeça de cartaz: é mentirinha, mas tudo bem. Assim sempre tenho sossego, enquanto os outros estão sempre na TV a dar entrevistas desgastantes (risos).

Nunca me senti subjugado. Estou a fazer o trabalho que tenho que fazer. Mas às vezes sinto-me estranho porque alguns reivindicam todos os créditos, como se eu não existisse. Acho que poderiam ser mais honestos. Atenção que não estou a falar de ninguém em concreto. É apenas um recado para os músicos que dão a cara e que não respeitam os que estão por trás do trabalho deles. Eu aprendo com cada artista uma linguagem diferente. Assim vou juntando um vocabulário interessante que espero um dia venha a ser ainda mais vasto!

Estás muito próximo do Paulino Vieira. O facto de ambos ajudarem, essencialmente, outros músicos na produção e nos arranjos aproximou-vos? Ou partilhas a forma de estar do Paulino: muito reservado, experimentalista, um criador...
Eu vejo o Paulino como um pai. As pessoas são estranhas, já reparaste? E muitas vezes encontro o Paulino para me tirar dúvidas acerca dos comportamentos, de relacionamento, de postura. Ele sabe tudo sobre tudo, penso. Aliás não me lembro de ter falado com ele sobre música. A música é um trabalho. O instrumento, uma enxada. Mas o que mais nos interessa falar é sobre a pessoa que está por trás do instrumento, a ser artista.
Por isso não acredito que tenha sido a música a nos aproximar. Eu estava à procura do Paulino desde menino e quando o conheci ele disse-me que esperava o momento certo para me encontrar. É assim com todos os pupilos que atravessam o seu caminho: a Sara Tavares, o Cau Paris, sobrinho do Tito. Também são os meninos do Paulino.

Qual foi a lição mais importante que o Paulino te deu sobre as pessoas, sobre os comportamentos, as relações?
Ficar sempre silencioso para poder ouvir e observar melhor os outros e, com eles, aprender! Eu gosto de observar as pessoas, muitas me lembram que nunca devo ser como elas!

Há ou não cooperação (ao nível artístico, mas também na defesa dos direitos de autor, da criação e da cultura cabo-verdiana) entre os músicos e compositores cabo-verdianos?
Não há nada. A única pessoa que me fala disso é o Paulino e agora recentemente o escultor Ida Abreu, um emigrante residente em Paris.

De que falaram em concreto?
O Paulino desafiou-me a criar uma forma de gravar e vender discos sem passar pelas mãos dum produtor. E o Idá está a ensinar-me a lidar com os produtores, visto que há outras instituições preparadas para defender os autores.

Vais gravar, então, um disco. Fala-me um pouco desse projecto.
Boa! Não é um sonho para mim ter um disco, quero deixar isso claro, porque tenho vindo a reparar que gravar um disco tornou-se um sonho de muitos, assim como se corta uma fatia de queijo! O que acontece, no meu caso, é que as pessoas sempre me perguntam para quando o meu disco e eu respondo sempre que não estou preparado. Mas há dias acordei a meio da noite com uma estranha revelação: Nunca vou estar preparado para nada na vida. Por isso se deve marcar épocas, fazer história, senão o tempo vai passando e não faço nada para mim, só para os outros. Daqui a 20 anos tenho 48, mais 20 tenho 68, mais 20, 88, 100 e tal... brrrrr! Preciso fazê-lo agora. Neste momento, só tenho as composições e já escolhi os músicos, um cabo-verdiano e um outro angolano. Não é nada como o que as pessoas chamam de música de Cabo Verde, mornas e coladeras... Quero que seja algo agradável, sem nome, só expressão e som e se calhar depois alguém lhe dá um nome!

Já está tudo pronto para gravar, então?
Ainda não. Queria gravar este ano mas não tenho dinheiro nenhum e nunca pedi apoio, patrocínios. Falta-me coragem para pedir ajuda para o gravar e não quero passar pela mão dos produtores. Agora em Cabo Verde vou pedir apoios e espero gravar logo este Verão. Vamos ver...

Se as pessoas te perguntam pelo teu disco é porque querem ouvir o Hernâni por si só. Tens receio desse momento, em que as luzes da ribalta se apontem para ti, medo de não estar à altura?
Tenho respeito por esse momento, das luzes estarem apontadas para mim. Não é não estar à altura porque ninguém está sempre à altura. Sempre fui habituado a observar e não a ser o objecto da observação. Foi vendo os outros que aprendi o que aprendi e é assim que continuo aprendendo. Talvez tenha receio de deixar de observar no dia em que reparar que me observam também.

Mas observado já és. "Googlei" o teu nome e quase todas as referências, seja em francês, inglês ou português, dizem o mesmo: "jovem guitarrista-prodígio". A crítica e o público têm elogiado o teu talento, que salta sempre à vista nos concertos de Tcheka.
Não posso dizer nada. O público é que diz, eu só toco!

Dizem mesmo, dizem-te a ti? Como é que te sentes quando és elogiado?
Não tenho a certeza que digam algo. Não faz parte das minhas prioridades preocupar-me com a crítica positiva ou negativa, eu tenho é que trabalhar! Quando sou elogiado? Sinto-me num território esquisito, porque há uma luta dentro de mim. Há o ego que me quer fazer encher o peito e, por outro lado, há o Hernâni que é extremamente crítico, que me manda sentar e ficar quieto. É um estado de desconforto quase total, não lido bem com a vaidade e tão pouco com a humildade.

O teu nome surge associado, cada vez mais, ao Tcheka. Fizeste os arranjos do "Nu Monda". Como é o trabalho com ele, seja na criação destes arranjos como nos dos espectáculos ao vivo?

Muito divertido. O Tcheka é do tipo inocente-esperto. Ele sabe o que gosta, mas não sabe, por vezes, chegar lá! Tem boas composições, teve uma boa educação musical em casa. Ás vezes é como uma pedra, parece que vai partir a guitarra, toca com “power”, mas tem muito bom gosto, coisa que herdou do pai. Ele vai-se educando e aprende rapidamente como as coisas funcionam, o que facilita muito o meu trabalho com ele. Digamos que é um bom emprego para mim (risos). É preciso comentar também o excelente trabalho feito pelo Kizó Oliveira, baixista e pessoa que sempre apoiou muito o trabalho do Tcheka, e do Raúl Ribeiro, percurssionista, pois são parte do alicerce que dá boa sonoridade ao disco.

Existe uma forte cumplicidade entre ti e o Tcheka que se evidencia pela forma como as músicas são interpretadas em palco. Eu diria que vocês se complementam: o Tcheka agarra no ritmo, é mais impulsivo; o Hernâni mais melodioso e metódico. É assim?
Exacto. Eu e o Tcheka a tocar é como se estivessemos a cozinhar o mesmo prato na mesma panela, por exemplo, cada um com os seus ingredientes e segredos. Eu vejo de um lado e ele de outro e vamos provando o sabor do cozinhado, reagindo. Dá-nos imenso prazer fazermos da música um prato, com o Tcheka a trabalhar a base. O facto é que nos divertimos imenso no palco.

Esta digressão por África e pela Europa tem sido proveitosa para ti? Como achas que as pessoas recebem a música cabo-verdiana?
Tem sido proveitosa sim. As pessoas reagem muito bem. Ficamos até admirados, parece que estamos a fazer algo do outro mundo.

Há algum episódio engraçado que tenha marcado esta digressão?
Sim. Quase que morríamos num acidente de avião entre Malabo e Brazzaville por causa do mau tempo. Em Angola também: o avião despistou-se e saiu mesmo fora da pista. No Congo, viajamos num Boeing a cheirar e a escorrer sangue de peixe pelas paredes. Foi notável. No Chade, escapamos de ser assassinados por um homem que era rebelde do partido da oposição, temido por todos porque era do tipo de pessoas que matam facilmente, fogem para a floresta e meses depois aparecem e todos esqueceram o crime. Ele empurrou o Tcheka por estupidez e falta de delicadeza e o super Tcheka, que não sabia nada sobre aquele personagem, deu-lhe um murro. Fomos proibidos de sair do quarto de hotel. Mas, na mesma hora, o director do Centro Cultural Francês resolveu tudo. E no dia a seguir o rebelde já estava a falar connosco na boa, dizendo para não nos preocuparmos porque não nos mataria e que até gostava muito da música de Cabo Verde...

 

Hernâni Almeida: “Afro na Mi é a africanidade que está dentro de mim”

http://www.asemana.cv/article.php3?id_article=35155 24-08-08

http://www.asemana.cv/IMG/arton35155.jpgHernâni Almeida foi uma das “estrelas” do 24º Festival da Baía das Gatas ao desfilar todo o seu talento à guitarra, interpretando os temas do seu primeiro disco a solo - “Afro na Mi”. Depois de participar em vários projectos de instrumentistas e cantores cabo-verdianos como orquestrador e guitarrista, Hernâni Almeida finalmente se revela ao público na condição de compositor e intérprete num CD que, como diz o músico, é o retrato da sua vida aos 30 anos.

 

Entrevista por: Teresa Sofia Fortes

O que podemos ouvir em Afro na Mi?
Neste disco é possível ouvir a minha perspectiva da música de Cabo Verde misturada a tudo o que aprendi até hoje. Tenho estudado e pesquisado muito sobre música e acho que quando tentei pôr isso no ritmo africano o resultado foi este disco.

Foi por isso que deste o título “Afro na Mi” ao disco?
Sim. Afro na Mi é a africanidade que está dentro de mim e que quero explorar e expor. Infelizmente, nós crioulos temos tendência em querer esconder a africanidade que temos em nós e acabamos por ficar perdidos neste mundo. Somos cabo-verdianos mas somos crioulos, ou seja, temos misturas. Alguns se identificam mais com Portugal, outros com o Brasil. Eu me identifico muito com continente africano e quero explorar esse lado africano que tenho em mim. Portanto, Afro Na Mi é a minha africanidade posta em disco.

E o que foste buscar a África para pôr no teu disco?
Fui buscar os ritmos. Mas, atenção, quando falo de ritmos africanos não me refiro aos géneros típicos, tradicionais. Refiro-me sim à crioulidade que criei entre os ritmos puros do continente africano e os nossos ritmos mestiços cabo-verdianos. Quando escutarem o disco, as pessoas vão reparar que há por exemplo uma mazurca tocada de um jeito completamente afro. Quem escuta essa música pode dizer que é uma música africana, mas eu sei que é uma mazurca. Ou seja, eu quis transformar um pouco a nossa música, puxando-a um pouco mais para o continente africano.

Quem compôs para o repertório? Apenas tu, Hernâni Almeida?
As músicas do disco são todas minhas. Há apenas uma que é de um grande amigo meu, Lúcio Vieira. Um dia ouvi-o a tocar essa música na guitarra e pedi-lhe que ma desse para trabalhar e gravar para o disco Afro na Mi. O repertório só traz músicas originais, com todos os arranjos feitos por mim. Mas é claro que tive grande apoio da parte dos músicos que trabalharam comigo. São todos músicos profissionais, pessoas musicalmente sérias. São eles Mirocas Paris e Zé Paris (músicos da Cesária Évora) e Lúcio Vieira, que é baixista mas que no meu disco toca piano.

Afro na Mi é um disco de autor, uma edição produzida por ti próprio. Foi difícil produzir este disco sem ter uma editora por trás a apoiar e disponibilizar os meios financeiros?
Produzir este disco foi um grande feito na minha vida. Todas as pessoas a quem pedi para trabalhar comigo neste disco se disponibilizaram completamente, o que me ajudou bastante. O difícil para mim foi lidar com a parte de gestão do dinheiro. Nunca fui bom em matemática. Foi incrível ver Zunga Pinheiro a disponibilizar-se para trabalhar comigo o tempo que fosse necessário para eu conseguir a sonoridade que queria e a dar-me margem para pagar os seus serviços quando Deus quiser. Foi também extraordinário, nos momentos em que estava em casa desanimado, receber telefonemas do Gugas Veiga a animar-me dizendo, “estica o corpo porque vamos gravar hoje”. Não senti nada a falta de produtores ou editoras.

O teu nome é já consagrado como guitarrista e arranjador, graças ao teu trabalho em discos de vários artistas cabo-verdianos. O que te levou a, só agora, apostar num disco a solo? Estavas a amadurecer um pouco mais a tua música?
Não, não estava a amadurecer nada. Simplesmente, ainda não tinha compreendido que na vida temos de tirar fotografias de certos momentos para mais tarde recordar. Mas constatei também que as pessoas já conhecem o meu trabalho como criador. Então, por que não juntar as minhas obras e apresentar a minha perspectiva da música. E conclui também que este era o momento certo para lançar o disco. Porque se ficasse à espera do momento em que me sentiria pronto nunca mais lançaria o disco. Eu sinto que, quando toco com outros músicos, como Bau ou Boy Gé Mendes, tenho personalidade própria dentro da música deles. Por isso, decidi tirar uma fotografia da minha personalidade neste momento, gravando este disco.

Porque daqui a uns anos teremos outro Hernâni, não é?
Sim, será outro Hernâni.

Além dos espectáculos de apresentação de Afro na Mi em Cabo Verde, pretendes fazer outros shows de lançamento?
Sim. Já mandei uma proposta para França para me candidatar a uma série de concertos em centros culturais franceses do continente africano. Seria óptimo conseguir essa digressão porque é isso que a minha boca está a pedir-me. Tenho muita vontade de voltar ao continente África, por isso se começasse por aí seria ouro sobre azul. Mas estou a trabalhar também para conseguir uma série de concertos em algus pubs de França.

A música de Cabo Verde está a ganhar projecção mundial. Mas, na maioria dos casos, são os vocalistas que merecem todo o destaque na imprensa. São poucos os instrumentistas que são figura de proa. Como pensas que pode ser a reacção do público nacional e internacional ao teu disco que é totalmente instrumental?
Em toda a parte do mundo há vários músicos - baixistas, guitarristas, etc - que lançam discos a solo. Em Cabo Verde, temos a tendência de dar mais importância à voz e à poesia da letra. Mas eu acredito também na poesia do som. Quer dizer, quando uma pessoa ouve uma música - o som de um piano, de uma guitarra -, ela própria começa a criar uma poesia a partir do tema que escuta.

O facto de teres experiência académica - frequentaste o Conservatório do Porto (Portugal) - foi uma mais valia na hora de produzir este disco?
Sim, foi extremamente importante porque é a parte académico-teórica que ajuda a organizar a parte empírica. Sem experiência e o conhecimento teório-académico é difícil saber onde colocar um registo agudo ou um registo grave. Sim, acho que é fundamental.

 

Homero Fonseca prepara novo CD

HF, Expresso das Ilhas http://www.expressodasilhas.sapo.cv/noticias/detail/id/6580/ 7-12-2008

A falta de patrocínios continua a ser um dos grandes obstáculos, enfrentados pelos artistas cabo-verdianos na concepção das suas obras. O intérprete e jornalista, Homero Fonseca, está a preparar um segundo CD, mas, sem recursos, o trabalho não anda.

Neste momento, aquele que será o segundo disco do artista santantonense, Homero Fonseca, encontra-se na fase "extremamente importante" que é a procura dos necessários patrocínios. "Esta é fase mais desgastante na preparação de um trabalho", desabafa.

No entender de Homero Fonseca, as coisas complicam-se quando "há a ideia de que quem pede um patrocínio, pede uma esmola", o que garante não ser o seu caso. "Eu faço um trabalho para Cabo Verde e Santo Antão", por isso, entende que tanto o país como essa ilha deveriam patrocinar o seu trabalho. "É uma questão de dar e receber", acrescenta.

A falta de incentivos e de patrocínios foi o maior constrangimento que enfrentou, também, quando preparava o seu primeiro trabalho, "Mornas de Santo Antão", gravado em 2002. "Tive alguns patrocínios simbólicos, do que outra coisa".

A julgar pelo resultado que teve do primeiro trabalho, Homero está confiante de que abrirá caminho para mais aposta no novo CD. Por isso, espera não receber objecções como "não vamos apostar em um desconhecido, ou quem nunca fez nada, porque eu fiz e fiz um trabalho de qualidade e provei o meu valor artístico". E garante que, quem investir nele, não estará a fazer uma esmola, "estará certamente a investir em Cabo Verde e na cultura cabo-verdiana".

Quando o disco estará disponível no mercado, Homero não sabe precisar, mas, diz que, assim que começar a ter as primeiras "respostas positivas" dos patrocinadores vai entrar em estúdio. "Desta vez vou adoptar uma postura diferente dentro do estúdio, ou seja, não vou esperar todo o dinheiro para fazer o trabalho". O que significa que vai trabalhar, passo a passo, até que o CD esteja concluído.

Homero estima gravar 15 faixas musicais e já tem uma ideia definida do que será este trabalho. "Já tenho identificado os compositores e alguma músicas de que quero cantar", dentre eles, cita Humberto Ramos e Arlindo Évora, do "Cordas do Sol".

Este artista santantonense deixou de compor ainda jovem mas, vai trazer no novo CD algumas dessas composições feitas na juventude. "Com essas canções acredito que muita gente vai recordar o Homero Fonseca dos concursos ‘Todo Mundo Canta". Alguns destes originais tinham sido divulgadas, nessa altura e agora Homero vai trazê-las de volta, bem como, algumas que até então vem guardando. Estima uma média de cinco originais, sendo quatromornas e uma coladeira.

Depois do primeiro CD, Homero Fonseca lançou o DVD, "SANTO ANTÃO - Paisagem & Melodia", que teve uma função específica dentro do seu primeiro álbum, em que, cada videoclip "divulga a tão falada beleza" da ilha das montanhas. Acredita que até este momento esse DVD vem cumprindo esta função de divulgação da ilha das montanhas.

O novo disco pode não ir na mesma linha, primando mais pela vertente cultural "um aspecto diferente", embora "mantendo a matriz" da música tradicional cabo-verdiana, acrescenta.

"O próximo trabalho terá de ser virado à música tradicional de Cabo Verde, mas, será mais abrangente dentro daquilo é nosso".

Culturalmente, acredita que o seu primeiro CD teve um retorno satisfatório. "O retorno cultural foi muito mais do que financeiro". Também, esse trabalho "teve um papel preponderante na divulgação de Santo Antão como um destino turístico".

Definindo-se como artista, diz: "sou um cantor cabo-verdiano que canta o seu país, a saudade, a mulher, o amor, o querer partir e ter que ficar. Canto tudo aquilo que a alma cabo-verdiana me dá".

Homero é também um agente cultural muito importante para Santo Antão onde vem realizando vários trabalhos nessa condição, como o Festival de Violino, que tem a sua marca, presidiu, durante algum tempo, ao grupo de carnaval da Ribeira Grande. "Não tenho dividendos sobre isso, mas, não fujo a essa condição e nem a essa responsabilidade", frisou.

 

Iduino: EDUÍNO: SEMPRE ACREDITEI NO SUCESSO DE FERRO GAITA

A ENTREVISTA COM O FUNDADOR DE FERRO GAITA

http://expressodasilhas.cv/c_base.php?gc=Ver notícia&id=1614  [2006-07-20]

O grupo Ferro Gaita celebra, dentro de dias, seu décimo aniversário. Razão mais do que suficiente para falarmos com o músico e produtor Eduíno, um dos membros fundadores da banda de música tradicional de Santiago. Eduíno é ele próprio parte dessa história que compartilha aqui com os nossos leitores

“SEMPRE ACREDITEI NO SUCESSO DE FERRO GAITA”

Eduino, no dia 22 de Julho, o grupo “Ferro Gaita” completa dez anos de existência. Que balanço e perspectivas para o grupo de que és elemento fundador?

Eduino – Acho que as coisas têm corrido bem. Nesses dez anos conseguimos realizar muitos dos nossos objectivos. Foram dez anos de muito trabalho, de muito sacrifício e muito corre-corre. Sentimo-nos realizados, mas acredito que temos ainda muito para dar. O nosso objectivo foi sempre agradar o público, receber muitos convites, participar em festivais e espectáculos e ter bons trabalhos no mercado. Neste momento, estamos a preparar a gravação do nosso quarto CD e DVD ao vivo.

Que surpresas trás o novo CD?

Eduino – Vamos pegar na mesma linha, a única diferença é que será ao vivo. Vamos apostar em muitos artistas, praticamente todos os que passaram pelo grupo nesses dez anos. Temos também a participação de dois novos artistas que nunca tinham cantado com os “Ferro Gaita” e que será um prazer imenso tê-los a participar connosco que é o Beto Dias e Chando Graciosa que foi um dos fundadores do grupo, ainda antes do Bino e do Paulino.

O CD vai estar no mercado na data da comemoração do 10º aniversário?

Eduino – Bom, quanto à data, a pessoa mais indicada para falar do assunto é o nosso manager. Posso falar é da data das gravações. Eu penso que, no mês de Agosto, terminaremos as gravações. Vamos fazer um trabalho live e em dois “tapes”. O primeiro tape queremos fazê-lo nas ruas, que é uma forma de identificar o grupo, o nosso estilo, pois foi assim que começamos; a outra parte será   nos estúdios e, depois, iremos fazer a mistura.

Como surgiu o gosto pelo Funaná?

Eduino – Eu sempre gostei da música tradicional. Aprendi a tocar desde criança, porque encontrei alguns instrumentos em casa. Mas quem me ensinou a tocar foi o Bitori nha Bibinha. O meu pai tocava gaita, quando emigrou, deixou-me com cinco anos de idade. Desde o berço eu sentia aquele barulho de gaita, por isso eu sempre tive a impressão que  sabia  tocar só pelo facto de lembrar do meu pai a tocar. Também o meu padrasto tocava trompete, e foi mais um instrumento que eu encontrei em casa. Na tropa, tocava trompete, e depois de sair de tropa, com algum experiência ligada  à música, criei  um grupo chamado Fãs de Marley, mas não deu certo porque o  raggae não tem muito apoio.

Como foi que aprendeste a tocar gaita?

Eduino - Falei com o Paulino e disse-lhe que ia aprender a tocar gaita para depois criar um grupo tradicional, ele falou-me no Bitori que é tocador de gaita e mora na Achadinha e  levou-me à casa dele. Bitori  disse-me que era  difícil ,mas eu disse-lhe que sabia  tocar, o que lhe demonstrei. Deu-me então  a gaita para levar para casa. No outro dia,  regressei com uma música já feita.

A primeira actuação pública

Isto foi no dia 22 de Julho; quinze dias depois, eu, Chando e Feliciano participamos num programa da televisão. Foi assim que nasceu Ferro Gaita.

Lembras-te da primeira actuação do grupo?

Eduino – A nossa primeira actuação foi no “Garden Grill”, um espaço nocturno então muito concorrido. A nossa actuação foi muito aplaudida; as pessoas gostaram muito e por essa e outras razões continuamos até hoje, embora com elementos diferentes.

Eu sabia que Ferro Gaita ia ter sucesso, porque eu trabalhei desde o início para alcançar esse objectivo. Eu disse que dentro de um ano seria o melhor tocador de gaita de Cabo Verde, e sempre trabalhei para isso, descobrindo coisas, perguntando, estudando.

Iduino também produziu dois jovens artistas, em estilos diferentes à música tradicional na qual está mais ligado. Como foi a experiência?

Eduino - Sempre fui muito curioso, sei como as coisas funcionam e quando surgiu a oportunidade de produzir com esses jovens levei o projecto adiante. Foi uma experiência boa e penso mais tarde vir a produzir mais jovens, embora seja muito arriscado já que a pirataria aumentou.

É verdade que vais lançar o teu primeiro CD a solo?

Eduino – É um disco de batuque e o finaçon, intitulado “Batuque Grande” . Inclui uma música relacionada com o flagelo da droga que vai sair dentro em breve, inclusive o vídeo clip já está pronto. A produção é minha e do Ramiro Mendes.

Quais são os artistas que irão participar deste teu primeiro CD a solo?

Eduino – É um trabalho em que vão participar muitos artistas. Diz-se que é um disco a solo, mas, se fizermos  as contas, terá mais pessoas envolvidas do que um trabalho realizado por uma banda. Por exemplo, mais de dezoito pessoas vão participar neste CD. Temos o Dick, o Ney Miranda, Ramiro Mendes e todos os elementos do Ferro Gaita, além de outros nomes.

CD a solo contra violência e criminalidade

Há dois anos que preparo este CD; as mensagens são relacionadas com o nosso quotidiano, como por exemplo, a droga, a violência, a criminalidade, assaltos etc. Também vai falar muito sobre o batuque. Para passar essas mensagens, fui buscá-la numa pessoa que sabe. Essa pessoa chama-se Inácia Gomes que me ensinou muitas coisas. Ao gravar um dos CDs do Ferro Gaita, estive com ela durante seis meses. Sempre prestei muita atenção em tudo o que ela fazia. Ganhei muita experiência ao lado dela. Ao lado de Ntoni Denti d ‘ Oru aprendi muitas coisas também. Essas duas pessoas são as bases onde eu me apoiei para realizar este trabalho.

Porquê é que decidiste, depois de quase dez anos, realizar o teu primeiro trabalho a solo? Há algum problema no grupo?

Eduino – Pelo facto do grupo ter sete elementos e, consequentemente,  muitas ideias, nem sempre conseguimos mostrar tudo o que queremos.  Às vezes, queremos fazer algo sozinho sem estar a pedir  opinião dos outros elementos. Como sempre tive gosto pelo  batuque, mas  não é possível gravar somente  batuque, num CD do grupo, resolvi  faze-lo sozinho.  Também incentivei o Bino a gravar o seu CD a solo, com mornas e coladeira, já que ele os canta bem, o Jorge Pimpa, o Manel também cantam bem. Sempre incentivamos uns aos outros, porque nós, os elementos do grupo Ferro Gaita, temos muito talento. Portanto a gravação do meu CD a solo é um trabalho complementar ao que nós desenvolvemos, conjuntamente, no grupo e não quer substituí-lo, nem ultrapassá-lo.

Alargar a experiência musical

O grupo vai bem e tenho fé que tudo vai continuar neste caminho. Além disso, o artista ganha mais experiência e enriquece mais a sua capacidade.

Porque é que decidiste deixar crescer o cabelo?

Eduino – Essa ideia surgiu desde o primeiro grupo de que te falei, os Fãs do Marley. Este nome já diz tudo. Eu sempre gostei do Bob Marley e das mensagens positivas que ele passava.

Os  teus cabelos-rasta  nunca fizeram com que  fosses discriminado?

Eduino – Como músico penso que o meu cabelo ajudou-me muito. Penso que qualquer rasta sofre discriminação à primeira vista, depois as pessoas podem mudar de opinião. No meu caso, sempre tento mostrar às pessoas o que eu sei fazer; dou o meu máximo para verem que um rasta não faz somente coisas erradas, como pensam muitas pessoas.

Como relacionas o facto de teres “rasta” e cantares música tradicional. Não consideras isso um contraste?

Eduino – Muitas pessoas fazem comentários do tipo, mas eu não ligo; muitas vezes eu respondo se é o meu cabelo que toca a gaita ou se sou eu. Eu sei que o meu cabelo gera muitos comentários, mas eu não ligo; sei também que há pessoas que adoram. O meu cabelo é a minha referência.

Quanto tempo levou para tê-lo assim?

Eu saí da tropa em 1993 e nunca mais pus a tesoura no meu cabelo.

Não pensas cortá-lo um dia?

Não, sempre digo às pessoas mais próximas de mim que, quando eu morrer, quero ser enterrado com o meu cabelo.

 

ISA PEREIRA: inteligente e enérgica no Festijazz

http://www.visaonews.com/v/CULTURA/2003/04/CUL004.aspx  

 

9 de Abril de 2003

Isa Pereira, intérprete e leader do Isa e Grupo, confirmou a sua participação no Festijazz – um tributo ao malogrado Luis Morais. A cantora é unanimemente considerada uma das quatro grandes revelações femininas nacionais, ao lado de Mayra Andrade, Vera Cruz e Diva Gomes, todas também escaladas para o festival internacional de jazz, cuja ante-estreia é já na sexta-feira, dia 11 de Abril, na cidade da Praia. Tanto Isa Pereira como Mayra Andrade estão programadas para o Grand Finale, na cidade da Praia e no Mindelo, com um naipe de artistas nacionais e internacionais, ainda não divulgável, mas que se sabe uma verdadeira celebração musical. Isa Pereira começou cedo na música, não apenas por ser sobrinha de Celina Pereira, uma das divas da música cabo-verdiana, mas por uma atracção muito pessoal à música brasileira e ao jazz. Revelou-se ao público no Programa Cultural Summer Extravaganza, em 1999 e a partir de então “o céu é o limite”. O Centro Cultural Francês da Praia, descreveu a cantora, por ocasião da sua participação musical a 23 de Janeiro último, nestes termos: “La voix d'Isa est un souffle chaud, qui vous imprègne tout en délicatesse.” Em verdade, a participação de Isa Pereira foi das mais apreciadas do Fesquintal de Jazz, ocorrido em Maio passado, ao lado de Via Negromonte e Vera Cruz. Figura indissociável da chamada “Geração Pantera”, Isa Pereira é das “mais inteligentes” intérpretes desse movimento ousado e que, segundo um crítico musical, irá promover Cabo Verde ao primeiro escalão da música internacional, mote, aliás, dado pelo estrondoso sucesso de Cesária Évora.

 


BIOGRAFIA DE ARTISTA - Isa Pereira

 http://www.visaonews.com/v/CULTURA/2003/04/ISA_PEREIRA.aspx

  

Nome: Isa Iolanda Brito Pereira

Data de nascimento: 16 de Agosto de 1974

Natural: Freguesia Alcântara- Lisboa

Nacionalidade: Cabo-verdiana

Residência: Cidade da Praia- Cabo Verde

Filiação: Osvaldo Euclides Silva Pereira (natural da Ilha da Boavista)

Alcinda Brito Pereira(natural da Ilha de São Vicente)

Habilitação Literária: Licenciatura em Relações Publicas- Universidade Católica de Belo Horizonte/Minas Gerais- Brasil (1994 a 1998)

 

Profissão actual: Secretária do Presidente da República de Cabo Verde

 

Raízes Artísticas: “A paixão pela música é da responsabilidade da Mãe, que durante as dores do parto, cantava.”

A outra veia artista advém de uma família (tanto materna, quanto paterna) de músicos tradicionais, que executavam vários instrumentos como piano, violino, concertina bandolim e viola (de salientar o bisavó paterno Padre Porfírio e o Tio-avô paterno, Sr. Ramzinh, autor da conhecida letra e música “Boavista Nha Terra”).

 

 

Actividades Artísticas ou Percurso Artístico: Aos 4 anos, na Igreja Protestante não sabe as letras das cantigas, mas canta em voz alta “ Eu sou Pilonelo”. Tradução – “  Eu sou Pioneiro”

 

Nas brincadeiras de infância e festas de aniversário gostava de

organizar concursos de música e dança com as outras crianças,

sendo sempre componente do Júri.

 

Durante a formação Universitária canta nos convívios entre

amigos e colegas e professores da Faculdade.

 

Em alguns Espectáculos com a participação de Artistas cabo-

verdianos não resiste à paixão pela música e repentinamente

sobe ao Palco e canta com eles.

 

 

A primeira aparição pública foi no evento Summer

Stravaganza em Julho de 1998, no Clube Náutico da Cidade da

Praia.

 

Seguidamente acontecem outras aparições com frequência, no

Quintal da Música(Praia), Hoteis Praia-Mar e Porto Grandes(São Vicente), Festivais de Santa Maria(Ilha do Sal-2001) e Baia das Gatas(Ilha São Vicente- 2003) e em vários Espectáculos de Caris Social e Cultural na Assembleia Nacional, Palácio da Cultura e no Auditório Nacional.

 

Participou com duas actuações( 03 e 08 de Maio de 2002) no evento Fesquintall Jazz realizado na Ilha de Santiago

 

Participou, na ilha do Sal, no evento de inauguração da Sociedade de promoção de eventos culturais- CINESAL

 

A convite do Centro Cultural Francês, na Ilha de Santiago, apresentou um Concerto no espaço do mesmo

 

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